Home FilmesCríticasCatálogos Crítica | Top Gun: Ases Indomáveis

Crítica | Top Gun: Ases Indomáveis

por Gabriel Carvalho
349 views (a partir de agosto de 2020)

“Eu sinto a necessidade. A necessidade por velocidade.”

Quentin Tarantino, em Vem Dormir Comigo, possui um monólogo interessante acerca de Top Gun: Ases Indomáveis. Lá, comentava que o longa em questão marcava, na verdade, um confronto em Maverick (Tom Cruise), o personagem principal, entre ser homossexual ou ser heterossexual. Aos mais descrentes com essa possibilidade, pode parecer uma mera piada e, como era posta naquela obra, certamente nasceu de uma. Quando nota-se tanta tensão entre o protagonista e o seu caro antagonista, Iceman (Val Kilmer), quanto entre ele e justo a sua parceira romântica, Charlie (Kelly McGillis), o pensamento de Tarantino vai mais além do que ser uma teoria somente cômica, o que não incute, no oposto, ser a única possível verdade. Existe também, nesse caso, uma correlação entre as insinuações do cineasta, longe de serem completamente forçadas, com a abordagem que Tony Scott promove ao seu projeto, o mais popular de sua carreira. Top Gun: Ases Indomáveis amarra as manobras radicais nos céus com as rixas masculinas no vestiário e um romance proibido entre estudante e instrutora. Pois torna-se, nesse sentido, uma produção de pura adrenalina, e que, dado quem a dirige, inerentemente parte para um cunho mais sensual e erótico, realmente apaixonado por suas relações e impasses, tornando verdadeiro o supostamente cafona.

Uma cena no meio do longa, por exemplo, que não tem motivos para justificar a sua existência em termos narrativos, coloca personagens enfrentando-se em um jogo de vôlei de praia, a maioria sem camisa e suando, enquanto o calor é sentido pela própria cinematografia, do bom Jeffrey Kimball. No mais, o segmento remete-se a um videoclipe musical, com uma música tocando ao fundo, os atores posando para a câmera e a montagem reverberando um charme. Ora, Tony Scott terminava de sair da sua estreia em longas-metragens, o excelente Fome de Viver, que justamente possuía o erótico como um dos seus gêneros cinematográficos. Mas sem que este teor seja necessariamente pervertido, continua, no entanto, uma reverência aos corpos destes militares, postos seminus em vestiários. Mais que propaganda para a Marinha, é como um comercial protagonizado por jovens sarados. Pois é mais marcante ainda na filmografia desse cineasta, que tornou-se conhecido por suas empreitadas pelo cinema de ação, o seu tesão pelas imagens, as quais podemos pensar de várias formas distintas, mas sempre notando uma intensidade. O que permanece é a capacidade de Scott em envolver os espectadores num misto de irmandade, romance e ação, que no conjunto, como “Take My Breath Away”, música vencedora de um Oscar, já exemplificaria, é de tirar o fôlego.

Por isso, Tony Scott consegue nos convencer do que propõe, mesmo atravessando um roteiro um tanto ineficiente, que opera mais pela simplicidade de um confronto entre pilotos e um romance cheio de malícia que por qualquer ânsia de grandeza narrativa. Maverick, que é acompanhado por seu parceiro Goose (Anthony Edwards), recebe a grande oportunidade de treinar em um programa informalmente conhecido como TOPGUN. Juntamente a graduação, também acontece, ao mesmo tempo, uma competição interna entre os aviadores, o que colocará Iceman no caminho dos pilotos. Baseando-se nessa premissa, o roteiro, escrito por Jim Cash e Jack Epps Jr., inspirados em um artigo de revista, não impulsiona nada de extraordinário, somente um cenário quase colegial. Mesmo assim, em meio a uma trilha-sonora que sabe captar o clima tão fraterno quanto antagônico na guarnição, os primeiros minutos prontamente criam uma atmosfera sedutora. As interpretações, nesse passo, estão mais preocupadas na sedução, em um jeitão descolado, que em qualquer pretensão dramática, apesar de existir o pretexto de Maverick ser um piloto perigoso. As várias interações entre Tom Cruise e Val Kilmer, contudo, resumem-se em sorrisos e sentenças prontas, para se apimentar essa rivalidade mais que o drama – relacionado ao pai do protagonista.

Tony Scott tem um apetite em transformar cada um dos elementos que dispõe nas suas mãos em sensações variadas. Parte dos caças voando e combatendo aeronaves, algumas amigas e outras inimigas, e chega, sempre com peso nas imagens e no seu requinte, nessa possível alegoria sobre a sexualidade de Maverick. Quando abrange uma seriedade a mais, por sua vez, é que o roteiro não consegue sustentar com tanta proeza os questionamentos internos e a trama da pessoa que quer superar o seu pai. Diante de um acontecimento importante, porém, mesmo assim existe sinceridade, por conta do carinho que se constrói entre personagens. Cada cena, portanto, é um meio para Scott transformar a sua obra em vetor a estímulos e tensões indomáveis. Tanto é que o relacionamento amoroso custa a engatar, mas sempre é sugerido, permanecendo por muito tempo em um ambiente de insinuações e flertes. Quando, muito bem lembrado pelo personagem de Tarantino, Maverick vai à casa de Charlie, espera-se a consumação do interesse amoroso, o que surpreendentemente não acontece. Já na cena do elevador, o protagonista apenas provoca, sem beijar a suas instrutura. Dos apertos de mão às cantorias no bar, cenas com homens de cueca e se provocando,  Top Gun, em muitos sentidos e para muitos públicos distintos, nos deixa sem respirar.

Top Gun: Ases Indomáveis (Top Gun) – EUA, 1986
Direção: Tony Scott
Roteiro: Jim Cash, Jack Epps Jr. (baseado em artigo de Ehud Yonay)
Elenco: Tom Cruise, Kelly McGillis, Val Kilmer, Anthony Edwards, Tom Skerritt, Michael Ironside, John Stockwell, Tim Robbins, Whip Hubley, Meg Ryan
Duração: 110 min.

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37 comentários

pabloREM 10 de julho de 2019 - 12:41

Outro ótimo filme do subestimado Tony Scott, e com uma trilha sonora sensacional.

Responder
Gabriel Carvalho 13 de julho de 2019 - 02:26

Tony Scott mais consistente que o Ridley.

Responder
Felipe Marcondes 10 de julho de 2019 - 12:20

Para mim, a música tema é insuportável rs.

Responder
Gabriel Carvalho 13 de julho de 2019 - 02:26

Putz, mas te entendo.

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Big Boss 64 7 de julho de 2019 - 21:44

Considerando a opinião do Tarantino sobre o filme… Procede?

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Gabriel Carvalho 9 de julho de 2019 - 19:20

HAHAHAHA

Olha, eu acho que não, embora de certa forma sim. Não vejo essa simbologia como algo tão complexo que cria um sub-texto assim, minucioso, mas é claramente um filme sensual e de várias maneiras.

Responder
Gabriel Queiroz Coutinho 6 de julho de 2019 - 23:36

Eu sempre chorava na música tema deste filme. Ótima crítica. Parabéns.

Responder
Gabriel Carvalho 9 de julho de 2019 - 19:20

Valeu! Conheci a trilha antes do próprio filme, para se ter uma ideia.

Responder
Anton Chigurh 6 de julho de 2019 - 22:38

Já foi confirmado que a versão que o estúdio iria lançar nos cinemas tinha menos erotismo e romantismo. Fizeram uma apresentação de pré lançamento para alguns convidados, e depois perguntaram qual era a opinião sobre o filme.

Muitos disseram que faltava mais romance no filme… então depois de alguns meses do término das gravações, o estúdio chamou o Tom Cruise e kelly mcgillis para gravarem a cena do elevador e a cena de amor entre os dois.
Os dois atores já estavam caracterizados para outros papéis, por isso na cena do elevador, a atriz estava usando um boné, e o ator estava com um penteado pra trás com gel….tudo isso para disfarçar os cortes de cabelo de seus novos personagens, no caso do Tom Cruise, ele já tinha começado a gravar cenas do filme The Color of Money.

Responder
Gabriel Carvalho 9 de julho de 2019 - 19:29

Por isso que eu digo que uma obra ganha vida para além das intenções originais. Tony Scott não pensou detalhadamente essa cena, com o mesmo olhar que o Tarantino coloca no seu monólogo futuro, mas mesmo assim o olhar dele é válido, pois as obras terminam falando por si só, criando um discurso independente da matéria-prima.

E recomendo “A Cor do Dinheiro”! Já viu?

Responder
Anton Chigurh 10 de julho de 2019 - 11:33

Perfeito comentário.

Eu tenho o DVD original do filme A cor do dinheiro.

Responder
Gabriel Carvalho 11 de julho de 2019 - 00:27

Valeu!

Um achado esse. Scorsese fez ótimas coisas nos anos 80, que são menos conhecidas que outros clássicos, mas valem a pena!

Responder
Acepipe Santi🐂GADO, O PARCIAL 6 de julho de 2019 - 21:27

Topíssimo.

Responder
Flavio Batista 8 de julho de 2019 - 12:10

Cara, eu até uso Top. Mas Topíssimo ultrapassa todas as barreiras do aceitável.
Adorei hahaha
Mas ainda prefiro Supimpa.

Responder
Acepipe Santi🐂GADO, O PARCIAL 8 de julho de 2019 - 15:10

hauhauhuahauhauhauahauahua mas eu usei na zuera, como uma piscadela infame para o nome do filme. Mas tem variações ainda piores! Tipo TOPPERSON ou TOPZERA!

Responder
Flavio Batista 8 de julho de 2019 - 15:30

Eu saquei, por isso entrei na onda. Manda mais q ta pouco.
Topzera é absurdo mas Topperson é o pior hahahaha

Responder
Acepipe Santi🐂GADO, O PARCIAL 8 de julho de 2019 - 16:32

A primeira vez que eu ouvi TOPPERSON foi de um aluno meu falando pra outro. Eu quase joguei a lousa inteira na cabeça deles ahhahahahahahhahahahahahaa

CrazyDany 9 de julho de 2019 - 11:46

Que tal topimpa? Rsrsrs

Responder
Acepipe Santi🐂GADO, O PARCIAL 9 de julho de 2019 - 12:07

OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO temos um vencedor!

Responder
Gabriel Carvalho 9 de julho de 2019 - 19:29

Topher Grace

CrazyDany 10 de julho de 2019 - 14:28

Rsrsrsrsrs não resisti…

planocritico 12 de maio de 2016 - 02:02

Caramba, quantas lembranças! A trilha sonora desse filme foi o primeiro CD que comprei na vida… E tenho até hoje.

Ótima crítica!

Abs,
Ritter.

Responder
RaffaNovelo 12 de maio de 2016 - 20:16

A melhor parte do filme é a trilha sonora! Incrível!

Responder
RaffaNovelo 12 de maio de 2016 - 20:16

A melhor parte do filme é a trilha sonora! Incrível!

Responder
geraldo veras 2 de junho de 2016 - 12:44

Sabia que você não iria resistir em comentar esse aqui. És um produto do seu tempo tanto quanto eu. kkkkkkk

Agora falando sobre a trilha, eu como sou pobre, me contentei em adquirir a fita k7. Ainda lembro do dia em que comprei as k7 de Top Gun, Highlander e Falcão, para então me deleitar no toca-fitas do fuscão 1500 amarelo “hepatite” do meu pai. Abs.

Responder
geraldo veras 2 de junho de 2016 - 12:44

Sabia que você não iria resistir em comentar esse aqui. És um produto do seu tempo tanto quanto eu. kkkkkkk

Agora falando sobre a trilha, eu como sou pobre, me contentei em adquirir a fita k7. Ainda lembro do dia em que comprei as k7 de Top Gun, Highlander e Falcão, para então me deleitar no toca-fitas do fuscão 1500 amarelo “hepatite” do meu pai. Abs.

Responder
planocritico 3 de junho de 2016 - 02:51

Que Falcão? O Campeão dos Campões? Aquele filme de queda de braço do Stallone? Se for, NOOOOOSSSSAAAAA, bateu uma nostalgia gigante agora!!!!

E meu pai tinha uma Brasília bege que foi roubada duas semanas depois que ele comprou… 🙁

Abs,
Ritter.

Responder
planocritico 3 de junho de 2016 - 02:51

Que Falcão? O Campeão dos Campões? Aquele filme de queda de braço do Stallone? Se for, NOOOOOSSSSAAAAA, bateu uma nostalgia gigante agora!!!!

E meu pai tinha uma Brasília bege que foi roubada duas semanas depois que ele comprou… 🙁

Abs,
Ritter.

Responder
geraldo veras 6 de junho de 2016 - 22:55

Sim! O “Campeão dos campeões”. A fita K7 tinha uma ilustração do Falcão disputando com o Bull Hurley (“Eu dirijo caminhão e luto queda de braço, é o que eu gosto de fazer e o que faço melhor. Ser o primeiro é o que importa, não existe o segundo lugar, ser segundo fede. Eu só quero machuca-lo, eu só quero aleija-lo pra que ele nunca mais tenha coragem de me enfrentar.”) e as faixas, dentre se destacam o “pirado” Sammy Hagar.
São alguns tipos de filmes que, de tanto alugar os VHS da América Video (Nossos filmes explodem como dinamite!!), só consigo ver dublado. Se bem que ouvir a voz do André Filho dando algum sentido na vida do titio Stallone não era nenhum sacrifício.
Mas, enfim, eram outros tempos e, obviamente, outros, prazeres.

Por fim, antes que eu esqueça, meus pêsames pela brasília bege do seu pai. Aqui no meu longínquo Piauí, ser roubado (não no sentido figurado) nessa época era um privilégio de poucos. Valeu.

Responder
geraldo veras 6 de junho de 2016 - 22:55

Sim! O “Campeão dos campeões”. A fita K7 tinha uma ilustração do Falcão disputando com o Bull Hurley (“Eu dirijo caminhão e luto queda de braço, é o que eu gosto de fazer e o que faço melhor. Ser o primeiro é o que importa, não existe o segundo lugar, ser segundo fede. Eu só quero machuca-lo, eu só quero aleija-lo pra que ele nunca mais tenha coragem de me enfrentar.”) e as faixas, dentre se destacam o “pirado” Sammy Hagar.
São alguns tipos de filmes que, de tanto alugar os VHS da América Video (Nossos filmes explodem como dinamite!!), só consigo ver dublado. Se bem que ouvir a voz do André Filho dando algum sentido na vida do titio Stallone não era nenhum sacrifício.
Mas, enfim, eram outros tempos e, obviamente, outros, prazeres.

Por fim, antes que eu esqueça, meus pêsames pela brasília bege do seu pai. Aqui no meu longínquo Piauí, ser roubado (não no sentido figurado) nessa época era um privilégio de poucos. Valeu.

Responder
planocritico 7 de junho de 2016 - 00:02

Cara, quantas lembranças! VHS, América Vídeo, André Filho… HAHAHAHAHAHAAHAHAH

Abs,
Ritter.

planocritico 7 de junho de 2016 - 00:02

Cara, quantas lembranças! VHS, América Vídeo, André Filho… HAHAHAHAHAHAAHAHAH

Abs,
Ritter.

geraldo veras 6 de junho de 2016 - 23:21

Ahh. Só uma curiosidade: a primeira vez que tive contato com o Plano Crítico foi num evento meio non sense. De férias há uns 4 anos, peguei vários livros de Stephen King, e de tabela, vi alguns filmes baseados na obra, do qual se destacou “It – Uma Obra Prima do Medo”. Como vi alguns rostos conhecidos, resolvi buscar algo a mais sobre o elenco e ao digitar – John “pai do pestinha” Ritter (um ator que, apesar de discreto, me chamou atenção) no Google, lá se vai uma página com uma crítica de um tal de Ritter Fan de “Alien – A Ressureição”. kkkkkk

De lá pra cá tenho acompanhado (e geralmente concordado!) as opiniões de vocês.

Responder
geraldo veras 6 de junho de 2016 - 23:21

Ahh. Só uma curiosidade: a primeira vez que tive contato com o Plano Crítico foi num evento meio non sense. De férias há uns 4 anos, peguei vários livros de Stephen King, e de tabela, vi alguns filmes baseados na obra, do qual se destacou “It – Uma Obra Prima do Medo”. Como vi alguns rostos conhecidos, resolvi buscar algo a mais sobre o elenco e ao digitar – John “pai do pestinha” Ritter (um ator que, apesar de discreto, me chamou atenção) no Google, lá se vai uma página com uma crítica de um tal de Ritter Fan de “Alien – A Ressureição”. kkkkkk

De lá pra cá tenho acompanhado (e geralmente concordado!) as opiniões de vocês.

Responder
planocritico 7 de junho de 2016 - 00:01

Nossa, que sensacional essa história! Gostei muito e fico muito honrado! Vais para os Anais do Plano Crítico!

Abs,
Ritter.

planocritico 7 de junho de 2016 - 00:01

Nossa, que sensacional essa história! Gostei muito e fico muito honrado! Vais para os Anais do Plano Crítico!

Abs,
Ritter.

planocritico 12 de maio de 2016 - 02:02

Caramba, quantas lembranças! A trilha sonora desse filme foi o primeiro CD que comprei na vida… E tenho até hoje.

Ótima crítica!

Abs,
Ritter.

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