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Crítica | Tora! Tora! Tora!

por Fernando JG
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Entre os filmes de guerra que já assisti, e entre os mais famosos e mais assistidos que existem por aí, não tenho dúvida de que Tora! Tora! Tora! é um dos poucos que surpreende por sua estrutura. É comum que nos filmes bélicos a montagem se destaque, como ocorreu no famigerado 1917, mas poucos filmes se dedicaram a pensar na seguinte questão: como é a atmosfera da guerra? O que se sente no pré-bélico? E fiquei extremamente abismado com a potência da montagem deste longa-metragem, que faz uma leitura muitíssimo peculiar  do ataque a Pearl Harbor, do ponto de vista unicamente dos comandantes da guerra, mostrando a tensão que é este momento que antecede um conflito. 

O argumento e a direção do filme contariam com a presença do Akira Kurosawa, que prometeu aquele que seria o maior filme de sua carreira, no entanto, acabou rompendo com a 20th Century Fox. Na verdade, Akira é cortado pela direção do estúdio. Ainda que ficando durante alguns meses à frente do projeto, ele não foi reconhecido pelo estúdio, que o tratou como um fantasma, mesmo tendo colaborado  durante meses. Muito se diz sobre o seu estado de saúde, mas também de um possível problema com os diretores, outros falam em má produtividade, pouco rendimento, enfim.

Fato é que o próprio Akira nunca deu explicações claras sobre o ocorrido, mas sabe-se que os constantes intervencionismos do estúdio em seu roteiro, as mudanças que a direção da Century Fox propunha, a reorganização de cenas que o Kurosawa considerava essenciais, entre outros pontos diplomáticos não resolvidos entre eles, podem ter resultado no corte do diretor, e acho pouco provável que o “baixo rendimento” teria sido o motivo para retirá-lo do filme, ele, um diretor que já tinha no currículo verdadeiras obras-primas como Os Sete Samurais e Rashomon – e que mais adiante produziria Ran. Quem não queria a versão japonesa contada, exclusivamente, pelas mãos de um dos maiores diretores japoneses? 

Apesar dos bastidores, outros dois diretores japoneses foram escolhidos para darem prosseguimento ao filme junto de Richard Fleischer: Kinji Fukasaku e Toshio Masuda. Tinha de ter essa mescla entre as nações, e até os argumentistas são muitos,  entre japoneses e norte-americanos, porque tinham de dar conta de narrar os dois lados da guerra, e os momentos decisivos tanto para o Japão, quanto para os Estados Unidos. Apesar de sê-lo, o argumento, ele mesmo bem simples, é excelente o modo como é trabalhado o pré-Pearl Harbor, momento do ataque e a defensiva norte-americana. Não sei como seria o filme com a presença de Akira, mas mesmo sem ele o filme é uma belezura inegável. 

Não estranhe que, ao assistir Tora! Tora! Tora!, ele demore a engatar. É assim mesmo. O longa é separado em dois momentos: a preparação e o ataque. O primeiro e o segundo ato são de preparação, o último, o ataque. O que mais chama a atenção, e pouco se fala nisso, é o clima atmosférico que o filme produz durante quase duas horas, como um vulcão prestes a erodir. Não é um demérito que os dois primeiros atos sejam mais lentos e a graça disso é, na verdade, perceber toda a tensão que antecede a guerra. Os dois lados da história se mostram extremamente apreensivos.

Se do lado do Japão sabe-se que é necessário um ataque perfeito, sem erros, e que precisa se articular como um ballet para destruir toda a presença norte-americana no Pacífico; por outro lado, os norte-americanos não sabem se serão atacados, pois não há guerra declarada entre eles, mas sabem que o Japão avança no seu Imperialismo asiático, e que muito provavelmente pode acontecer um ataque surpresa para neutralizar a presença do Tio Sam no Pacífico, mas é incerto. Então é isso: o filme se divide em duas versões da história: em toda a preparação do ataque japonês e em toda a defensiva norte-americana, assim, mostrando ambos os lados. Para construir essa atmosfera do ataque surpresa, há um trabalho muito dedicado na montagem, na trilha, na mixagem de som, que ora se apresenta belissimamente com os sons dos caças treinando, ora na ausência total de som, na aclimatação dentro dos escritórios presidenciais, que é insuportável e não para um minuto, evidenciando a correria que uma guerra mobiliza, entre outros diversos momentos importantes. Os dois primeiros atos são bem tensos e claustrofóbicos, mas é puramente atmosférico. 

Para mim é um filme de dois atos. Considero os dois primeiros como um grande ato de apresentação, e o último é isso que vemos, a destruição de tudo. O segundo ato começa logo depois de uma uma longa intermission, como num intervalo, e então o filme retoma, já com os japoneses em direção a Pearl Harbor, com uma trilha soleníssima e efeitos visuais arrebatadores. No último momento, o filme ganha um volume imenso, e é por esses minutos finais que o filme garantiu diversas indicações ao Oscar por seus aspectos técnicos. 

Não há pessoas mutiladas e cenas de sangue, como é comum ver em produções bélicas. No entanto, a exibição do ataque ocorre como um ballet, com o alinhamento de aviões, ofensivas ensaiadas e ataques precisos – é cinematograficamente belíssima a organização do assalto japonês. Como a ofensiva é aérea, as imagens são esplêndidas. Como deveria ser, a missão japonesa é perfeita, mas por outro lado é o maior erro que o Japão poderia incorrer, o que resulta, como sabemos, na entrada dos Estados Unidos na Guerra e na implosão de Hiroshima em 1945. 

Diferente dos filmes de guerra, o foco não está no prejuízo humano, e sim em demonstrar a arquitetura de um ataque e a atmosfera de um momento pré-bélico. A geopolítica da destruição é muito bem desenhada, e, em seus aspectos técnicos, que é absolutamente soberbo e mostra um volume inacreditável nos últimos 30 minutos do longa, a película não deixa a desejar. É incrível perceber que o enredo organiza-se como uma bomba-relógio, só contando os minutos. A ausência de ação durante quase duas horas compensa em uma ação que se condensa em trinta minutos de puro deleite fílmico, imagético e sonoro. Tora! Tora! Tora!, o canto de guerra japonês, e que dá título ao filme, é solene e uma surpresa gigantesca. Estruturado em ritmo crescente, o enredo atinge o seu pico no momento certo e explode junto com as emoções suscitadas no espectador. 

Tora! Tora! Tora! (EUA, Japão, 1970)
Direção: Richard Fleischer, Kinji Fukasaku, Toshio Masuda
Roteiro: Larry Forrester, Hideo Oguni, Ryûzô Kikushima (Baseado em duas obras: no livro Tora! Tora! Tora!, de Gordon W. Prange; e no livro The Broken Seal, de Ladislas Farago).
Elenco: Martin Balsam, Sô Yamamura, Jason Robards, Joseph Cotten, Tatsuya Mihashi, E.G. Marshall, Takahiro Tamura, James Whitmore, Eijirô Tôno, Wesley Addy, Shôgo Shimada.
Duração: 144 min.

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3 comentários

Flavio Batista Dos Santos 21 de março de 2021 - 23:57

Aprendi com meu pai a gostar de filmes de guerra. Esse esta entre meus favoritos, justamente por ter visto junto com ele.

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Fernando JG 22 de março de 2021 - 01:44

Que memória afetiva boa! =)

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Red Shins 21 de março de 2021 - 19:58

O título do filme é o código utilizado em caso de sucesso do ataque japonês, que traduzido para o português significa: “Tigre! Tigre! Tigre!”.

O historiador Jean Monestier defende a tese de que o governo dos EUA induziu os japoneses a atacarem Pearl Harbor. O filme Tora! Tora! Tora! deixa no ar a insinuação de que as autoridades americanas precisavam de um pretexto para entrar na guerra. Sabe-se que a população estadunidense não queria saber de guerra. O presidente Franklin Roosevelt acreditava que a participação de seu país na guerra seria necessária tanto de uma perspectiva política e moral quanto do ponto de vista econômico e geopolítico. Os japoneses eram uma ameaça séria aos imensos mercados da bacia do Pacífico e do Extremo Oriente. As Forças Armadas dos EUA vinham se preparando para uma guerra com o Japão e já haviam traçado planos detalhados.

Jean Monestier destaca vários fatos que evidenciam a arapuca armada pelos EUA para conduzir aos japoneses ao ataque. Roosevelt queria manobrar o inimigo para que este atacasse primeiro. O presidente precisava de um ataque capaz de levar a opinião pública a uma comoção extrema e com disposição para apoiar uma guerra longa contra um inimigo desleal e bárbaro.

Pouco antes do ataque, providencialmente, todos os porta-aviões americanos da frota do Pacífico deixaram Pearl Harbor e partiram para os EUA. Só os navios velhos e ultrapassados foram deixados em Pearl Harbor.

No Japão, o governo civil do príncipe Konoye tinha sido substituído por um governo militar dirigido pelo general Hideki Tojo. O general Tojo, líder de extrema direita, fanático, vinha lutando furiosamente pela contenção do Comunismo na Ásia e implementava políticas de eugenia no Japão. Como ministro da Educação, ele promoveu a doutrinação militarista e nacionalista nas escolas. O povo abraçou o seu fanatismo doentio. Com intenções imperialistas, Tojo desejava empurrar o seu país para a guerra com os EUA. Ele conseguiu convencer o Imperador Hirohito.

Em 1962, na crise dos mísseis de Cuba, o alto escalão militar dos EUA tentou forçar o presidente John Kennedy a atacar a ilha comandada por Fidel Castro e apoiada pela URSS. Se o presidente tivesse atendido o desejo insano de seus generais, a guerra nuclear teria sido desencadeada inevitavelmente.

Enfim, a lição deixada pela História é que as nações não podem deixar os militares se infiltrarem na política. O Império do Japão pagou caríssimo por esse erro abominável.

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