Crítica | Torchwood – 2ª Temporada

estrelas 4,5

Para aquele público de espectadores confessadamente chorões, não há muita saída quando se trata de séries dramáticas da BBC: é muito provável que o referido público passe metade do último episódio de uma temporada chorando, e depois fique suspirando pelos cantos, relembrando as cenas do finale, aplaudindo e agradecendo a emissora mentalmente por propiciar a ele esse tipo memorável de entretenimento.

Torchwood, série de Russell T. Davies que acompanha o dia a dia de um grupo muito peculiar de profissionais, é um exemplo de show que a cada final de temporada tem o enorme poder de impressionar e arrastar o espectador para a temporada seguinte, muitas vezes, entre lágrimas. No caso deste segundo ano do show, além da melhora dos efeitos especiais e da narrativa central da série, tivemos um considerável crescimento psicológico das personagens, o que contribuiu ainda mais para que esta fase fosse realmente marcante.

Embora a totalidade dos episódios tenham uma ótima concepção estética, bom uso de trilha sonora e eficientes elementos técnicos, é possível encontrar dentro de cada episódio uma pequena história paralela que não se encaixa completamente no todo. Por um lado, essa temporada teve a maior presença desse tipo de trama, mas por outro, a unidade central da temporada foi mantida. Neste ano, a ideia era mostrar maiores detalhes sobre a equipe do Instituto Torchwood (inclusive sobre o enigmático Jack Harkness) e estampar a permanente ameaça que o grupo sofria diariamente, daí a grande diversidade de histórias que tivemos.

Mesmo com algumas pequenas incursões dramáticas destoantes, não é possível dizer que a qualidade da série diminuiu ou que houve um desleixo dos produtores em relação ao programa. Muito pelo contrário. Os maiores investimentos e o visível destaque que a série ganhou nessa temporada permitiram que novos caminhos fossem tomados, e a ideia de ciclo foi o mais importante deles. Se nos lembrarmos bem, há uma essência de gênese e apocalipse dramáticos nos episódios Kiss Kiss, Bang Bang (2X01) e Exit Wounds (2X13), que se completam não só por contarem com a presença do Capitão John Hart, mas por exporem duas realidades completamente diferentes da equipe de Torchwood como a conhecemos na temporada passada.

Em linhas gerais, podemos dizer que além da ação de caçar artefatos e impedir desastres alienígenas, a equipe de Torchwood ganhou um maior senso de humanidade, sendo o amor o sentimento recorrente em toda a temporada. Não apenas o amor dos relacionamentos, mas o amor à própria vida, à humanidade, aos amigos e até mesmo às criaturas aliens, como temos no tocante episódio Meat (2X04), ou no irretocável episódio final da temporada, com a já esperada morte de Owen e a emocionante morte de Tosh.

A despeito de alguns deslizes na concepção das tramas paralelas, a segunda temporada de Torchwood é mais um exemplo de um excelente programa. Melhores abordagens da (omni)sexualidade das personagens, incursão de momentos cômicos, evolução e transformação dos protagonistas, revelações inacreditáveis sobre o passado do Instituto em Cardiff, surgimento de novos inimigos e perdas irreparáveis são apenas alguns dos componentes que se fizeram ver nos 13 episódios da temporada.

Em meio a tantas mudanças, diversas reflexões sobre a vida são postas na mesa. O trabalho do time de Torchwood é questionado diversas vezes e vemos conflitos morais muito profundos, como o que acontece no episódio Adrift (2X11), onde temos a história do jovem que foi levado pela fenda no espaço-tempo e voltou 7 meses (40 anos, para ele) depois, traumatizado e marcado por ter visto o fim do mundo e olhado dentro do coração de uma estrela negra. A dor que sentimos ao ver esse episódio e as questões para discussão em torno dele são um exemplo claro de quão potente foi a proposta desse ano do show.

Torchwood se sagrou como uma série emocionante e deliciosa de se ver, mesmo que algumas vezes a história contada não seja necessariamente muito bela e nos deixe com espírito alegre. É o lado pesado e humano de lidar com coisas de outro mundo.

Torchwood – 2ª Temporada (UK, 2008)
Showrunner: Russell T. Davies
Roteiro: Vários
Direção: Vários
Elenco: John Barrowman, Eve Myles, Kai Owen, Gareth David-Lloyd, Burn Gorman, Naoko Mori, Freema Agyeman
Duração: 50 min. (cada episódio)

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.