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Crítica | Torchwood – 2ª Temporada

por Luiz Santiago
132 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 4,5

Para aquele público de espectadores confessadamente chorões, não há muita saída quando se trata de séries dramáticas da BBC: é muito provável que o referido público passe metade do último episódio de uma temporada chorando, e depois fique suspirando pelos cantos, relembrando as cenas do finale, aplaudindo e agradecendo a emissora mentalmente por propiciar a ele esse tipo memorável de entretenimento.

Torchwood, série de Russell T. Davies que acompanha o dia a dia de um grupo muito peculiar de profissionais, é um exemplo de show que a cada final de temporada tem o enorme poder de impressionar e arrastar o espectador para a temporada seguinte, muitas vezes, entre lágrimas. No caso deste segundo ano do show, além da melhora dos efeitos especiais e da narrativa central da série, tivemos um considerável crescimento psicológico das personagens, o que contribuiu ainda mais para que esta fase fosse realmente marcante.

Embora a totalidade dos episódios tenham uma ótima concepção estética, bom uso de trilha sonora e eficientes elementos técnicos, é possível encontrar dentro de cada episódio uma pequena história paralela que não se encaixa completamente no todo. Por um lado, essa temporada teve a maior presença desse tipo de trama, mas por outro, a unidade central da temporada foi mantida. Neste ano, a ideia era mostrar maiores detalhes sobre a equipe do Instituto Torchwood (inclusive sobre o enigmático Jack Harkness) e estampar a permanente ameaça que o grupo sofria diariamente, daí a grande diversidade de histórias que tivemos.

Mesmo com algumas pequenas incursões dramáticas destoantes, não é possível dizer que a qualidade da série diminuiu ou que houve um desleixo dos produtores em relação ao programa. Muito pelo contrário. Os maiores investimentos e o visível destaque que a série ganhou nessa temporada permitiram que novos caminhos fossem tomados, e a ideia de ciclo foi o mais importante deles. Se nos lembrarmos bem, há uma essência de gênese e apocalipse dramáticos nos episódios Kiss Kiss, Bang Bang (2X01) e Exit Wounds (2X13), que se completam não só por contarem com a presença do Capitão John Hart, mas por exporem duas realidades completamente diferentes da equipe de Torchwood como a conhecemos na temporada passada.

Em linhas gerais, podemos dizer que além da ação de caçar artefatos e impedir desastres alienígenas, a equipe de Torchwood ganhou um maior senso de humanidade, sendo o amor o sentimento recorrente em toda a temporada. Não apenas o amor dos relacionamentos, mas o amor à própria vida, à humanidade, aos amigos e até mesmo às criaturas aliens, como temos no tocante episódio Meat (2X04), ou no irretocável episódio final da temporada, com a já esperada morte de Owen e a emocionante morte de Tosh.

A despeito de alguns deslizes na concepção das tramas paralelas, a segunda temporada de Torchwood é mais um exemplo de um excelente programa. Melhores abordagens da (omni)sexualidade das personagens, incursão de momentos cômicos, evolução e transformação dos protagonistas, revelações inacreditáveis sobre o passado do Instituto em Cardiff, surgimento de novos inimigos e perdas irreparáveis são apenas alguns dos componentes que se fizeram ver nos 13 episódios da temporada.

Em meio a tantas mudanças, diversas reflexões sobre a vida são postas na mesa. O trabalho do time de Torchwood é questionado diversas vezes e vemos conflitos morais muito profundos, como o que acontece no episódio Adrift (2X11), onde temos a história do jovem que foi levado pela fenda no espaço-tempo e voltou 7 meses (40 anos, para ele) depois, traumatizado e marcado por ter visto o fim do mundo e olhado dentro do coração de uma estrela negra. A dor que sentimos ao ver esse episódio e as questões para discussão em torno dele são um exemplo claro de quão potente foi a proposta desse ano do show.

Torchwood se sagrou como uma série emocionante e deliciosa de se ver, mesmo que algumas vezes a história contada não seja necessariamente muito bela e nos deixe com espírito alegre. É o lado pesado e humano de lidar com coisas de outro mundo.

Torchwood – 2ª Temporada (UK, 2008)
Showrunner: Russell T. Davies
Roteiro: Vários
Direção: Vários
Elenco: John Barrowman, Eve Myles, Kai Owen, Gareth David-Lloyd, Burn Gorman, Naoko Mori, Freema Agyeman
Duração: 50 min. (cada episódio)

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