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Crítica | “Toxicity” – System Of a Down

por Matheus Camargo
706 views (a partir de agosto de 2020)

“Conversion, software version 7.0

Looking at life through the eyes of a tire hub

Eating seeds as a pastime activity

The toxicity of our city, of our city”

Duas décadas se passaram e é surpreendente ouvir Toxicity, o segundo álbum da banda armeno-americana System Of a Down e perceber o quão atual, necessário e o poder rasgante que não estão nem um pouco resguardados debaixo da mortalha de guitarra grito e gastura. E, misturando esses elementos clássicos do gênero, há algo no trabalho que aflora de um solo seco e desgastado e traz um refresco, uma brisa nova que não tarda a metamorfosear num tornado estridente. Seja a junção do berro destrutivo com linhas melódicas maduras, seja o posicionamento político protagonista, que nos guia pela infecciosa catástrofe de refrões vocais inquietação e aflição: é um álbum único, de uma insanidade original, precisa e necessária.

Prison Song abre o álbum numa síntese do que veremos pela frente, uma faixa crítica, densa, carregada pelo vocal monstruoso de Serj Tankian, que vocifera em uivos urgentes antes de se impor contra as cadeias sistemáticas num conjunto tão cruel e agressivo que soa severamente industrial. Sem receios, estabelece um pendor que permeia o resto do trabalho: o crescimento estrondoso, a exploração excessiva de temas e sons que se baseiam numa sinceridade desperta e no arrebentar dos limites. Needles cria uma ambiente igualmente monstruoso, enxergando o vício em drogas como um certo parasita que o corrói de dentro pra fora – e é em meio ao desespero ensurdecedor que a banda constrói um momento de vulnerabilidade melódico, que ressoa “I’m sitting in my room with a needle in my hand / Just waiting for the tomb of some old dying man” antes de se entregar novamente aos braços da cólera sangrenta.

Nesse caminho, Deer Dance se ergue e deixa que o não-conformismo tome conta numa denúncia avassaladora sobre brutalidade policial em manifestações pacíficas. É uma faixa que constrói sua angústia a cada riff verso e soco no estômago até chegar num refrão visceral, e desmancha novamente numa ponte apreensiva. Nesse ponto, você percebe que está completamente imerso nesse desconforto, constantes apocalipses que rebentam, um após o outro – noutro, você também percebe que esse apocalipse mora ao lado, basta abrir o noticiário. Jet Pilot mergulha na calamidade e se deixa levar pelo abstrato, é mais sobre a sensação, sobre a negação da normalidade do que sobre sentido. X se derrama sobre a música como um ato político, trazendo toda a carga emocional e social das raízes da banda para o holofote em gritos de manifesto. Como disse Daron, o guitarrista, no show que marcava cem anos do genocídio armênio: “This is not just a rock and roll show. To our murderers, this is revenge”.

Provavelmente seu single mais marcante, Chop Suey! é uma catarse dolorosa carregada de simbolismo metafórico e religioso. “Wake up!” e uma descarga elétrica percorre as suas veias enquanto concebe seus próximos passos acompanhado da guitarra dominante. Apesar do trágico momento de lançamento, a faixa é o cerne do disco simplesmente por mesclar com maestria as diferentes e complexas camadas que nos foram apresentadas até aqui – o metal sangrento, a morbidez lírica e o cair momentâneo clamam versos bíblicos antes de criar um nó em sua garganta com o sombrio “I cry when angels deserve to die”. Seguindo outra direção, Bounce estrela essa característica teatral, grotesca e hilária que se junta ao ridículo propositalmente, só pela ironia de partir do profundo santo ao histérico profano. Entretanto, é uma quebra de tensão temática muito abrupta e após ouvir o álbum por completo diversas vezes, parece perdida no meio de tantos tópicos desconcertantes. Tanto que logo retornamos ao divino, onde Forest constrói uma tensão que explode violentamente a cada lamento num atestado de óbito do planeta, intoxicada pela negligência de seus filhos, é como se a natureza, exaurida, bradasse “Why can’t you see that you are my child?”.

Ao confessar seus lamentos, System Of a Down toca pontos complexos, como é o caso de ATWA, baseado num preceito ecológico defendido por Charles Manson. As vozes contrapostas de Tankian e Daron exprimem uma solidão vagarosa antes que a fúria acenda as chamas em estrondos. É a interpretação de uma mente que aceita a própria e devida ruína com a negação, uma morbidez sufocante, difícil de transpassar. Essa mesma densa ambiguidade está presente em Science, faixa seguinte, que mescla viradas de gênero musical e traz para o som traços da raiz armênia, se coloca a falar sobre os efeitos negativos que a ciência trouxe para a sociedade, onde o elemento mais valioso da existência humana é a fé. São visões maciças, que saltam a cada distorção enferrujada do nu metal, e abrem espaço para um mundo de interpretações nem sempre tão saudáveis. Shimmy volta ao usual e é uma das faixas mais sonoramente intensas, o ruidoso suor metálico jogado para cima enquanto ordens ditatoriais controlam a sua mente. 

Aproximando-se do final, a repetição se torna levemente cansativa, e a faixa-título é responsável por trazer um último ar de renovação. Após deslocar por vários temas, temos uma ideia concreta da desordem aqui cantada, o monstro que te assombra entre o silêncio e o adormecer. Esse fantasma não é individual. O que te engloba como participante deste universo é a universalidade do que é cantado, a cidade pode ser você ou pode ser o que abriga você, e nos dois casos, a toxina toma conta de tudo que lhe resta. Psycho é carregada alucinadamente pelas gritadas e cadenciadas “Psycho! Groupie! Cocaine! Crazy!”, mas seu destaque é o solo de Daron ao final, que efetua uma transição sobrecarregada para Aerials, a track que fecha o disco é o momento de assentamento que o mesmo precisava. Refletindo sobre a perda da inocência e o nosso papel como indivíduos no mundo, mesmo se afastando dos gritos, o sentimento de desespero, de desgaste, é extremamente asfixiante. A sobriedade se consolida, endurece, solidifica, e o que nos resta é um retrogosto amargo, sanguíneo. Depois de tanto vociferar, nada rompe mais alto do que o silêncio.

Toxicity te coloca direto no fim do mundo onde você é o sobrevivente, o apocalipse, e a razão do declínio. Nessa queda, nada é mais assustador do que perceber que a cada baque você volta mais a realidade, e a cada despertar a realidade se torna mais semelhante ao terror subversivo que presenciou a pouco. É o lugar errado para buscar respostas, porque mesmo após tantas constatações, o final da história é recheado de inexatidão egoísta. Nesse vale de expiação, tudo que conhecemos é exaustivo e confessional, e a cachoeira de botes mórbidos deságua num álbum lacerante que flui entre dor, rancor e humor. Nessa catástrofe diária, você fica responsável apenas pelo epílogo. Que ele não seja isento, porque não podemos aceitar sermos neutros num trem em movimento.

Aumenta!: Deer Dance
Diminui!: Bounce
Minha canção favorita do álbum: Aerials

Toxicity
Artista: System Of a Down
País: Estados Unidos
Lançamento: 04 de setembro de 2001
Gravadora: American Recordings
Estilo: Metal, Rock

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