Crítica | Toy Story 2

estrelas 5,0

“Você nunca se esquece de crianças como Emily, ou Andy, mas elas se esquecem de você.”

Distanciando-se do universo mundano das meras brincadeiras de criança, Buzz Lightyear (Tim Allen) é apresentado, na primeira cena de Toy Story 2, em meio a uma aventura interplanetária. O personagem ultrapassa obstáculos, destrói robôs do mal e então confronta o seu arqui-inimigo, o Imperador Zurg (Andrew Stanton), apenas para ser imediatamente derrotado pelo antagonista. Essa sequência de ação, que soa em primeira instância gratuita para a narrativa da continuação da animação original, é revelada, em consequência, ser parte de um game. Na verdade, pretende-se, com a expansão dos pontos de vista mercadológicos dos personagens, a exploração de tais rostos como coisas a mais que brinquedos, porém, partes de uma marca, partes de uma coleção. Buzz Lightyear não é somente um dos amigos de Andy (John Morris) e Woody (Tom Hanks), entretanto, também astro de jogos eletrônicos e estampa de acessórios. A mesma coisa acontece com o xerife Woody, em uma jornada que o apresentará a quem ele realmente é. Antes de ser um brinquedo do caubói, o personagem era parte de um seriado televisivo. O protagonista, portanto, se vê em um impasse entre retornar a Andy ou virar peça em exibição de um museu, reunido com o seu Rodeio.

Desta premissa, o segundo Toy Story quer repensar os significados dos brinquedos, trazendo-os para um escopo mais robusto que o do antecessor, que era mais simples em comparação a sua sequência. Nesse sentido, encontra-se como sendo um ajudante à questão do mercado e marcas comerciais a abordagem superlativa, comum a continuações, que o animador John Lasseter e os roteiristas dão às desventuras de Woody e companhia. Aqui, os personagens secundários ganham papéis maiores, as jornadas atravessam ambientações mais grandiosas, novos brinquedos são apresentados. É muito simbólico, por exemplo, o cativeiro do xerife Woody, após ser sequestrado por um colecionador, ser um apartamento qualquer. Quando o caubói enxerga através da janela da moradia de Al (Wayne Knight), a escala é totalmente distinta da observável pela do quarto de Andy. Ainda mais poderosa é a cena que introduz o vaqueiro a sua fama, antes desconhecida. Woody, que previamente apenas conhecia o amor de seu dono, percebe um mundo inteiro de admiração a ele. Porém, objetos e ioiôs com o seu rosto não possuem o mesmo valor que a assinatura de Andy no seu sapato e, mais para frente, a jornada que Buzz Lightyear inicia para resgatar o seu parceiro.

Os novos personagens contribuem para o drama do protagonista. Jessie (Joan Cusack) tem uma tragédia muito particular, que é acompanhada pela canção “When Somebody Loved Me”. Mais que complementar o passado da vaqueira, parte da antiga gangue televisiva de Woody, a sequência movimenta a narrativa, criando contornos expressivos para a jornada do xerife ganhar outros rumos. Em contrapartida, o Mineiro (Kelsey Grammer) concretiza uma ameaça maniqueísta. O cavalo Bala-no-Alvo, por sua vez, tem a sua expressividade conquistada a partir de uma caricatura clara – a do animal de estimação choroso e amistoso -, contudo, que traz mais sinceridade aos confrontos em questão. E existem muitos conflitos permeando a saga do caubói, a começar pelo primeiríssimo, à procura do seu chapéu, sentindo-se perdido sem ele. Como coleção, o chapéu é imprescindível. Já como brinquedo, Woody não o necessita para ser amado por Andy ou ser quem ele é. Da tristeza em perceber que o xerife não tem o seu acessório mais importante à alegria de o encontrar instantes depois, Al exemplifica o exato oposto. O roteiro já principia com bastante vigor, no primeiro ato, toda a sua proposta dramática e narrativa, que vai se renovando com naturalidade.

Como acontece nas três animações, o pretexto para as desventuras dos personagens começarem surge por conta de um mal-entendido clássico – e que transforma a narrativa em um negócio espontâneo. Do chapéu desaparecido, em primeira instância, ao rasgo no braço de Woody, posteriormente, à venda de brinquedos usados, consequentemente, determinadas ocasiões são costuradas a outras organicamente, sustentando um roteiro inteligente e um ritmo contínuo. Igualmente, as motivações para os dramas do protagonista, que começa a temer ser descartado, têm uma base argumentativa que é construída com considerável cuidado. O roteiro nunca ousa provocar transformações imediatas no caubói, mas sufoca-o paulatinamente, confundindo-o. Por outro lado, é com a jornada paralela a essa, a em que Buzz Lightyear procura seu amigo raptado, que as resoluções propostas ganham uma sustância a permitir os temores de Woody sumirem. A questão é: caso Woody não vá estar com Andy para sempre, o caubói terá os seus amigos consigo eternamente – um pretexto emocional, começado na animação original, que ganharia um espaço, e ainda mais desenvoltura, em Toy Story 3, até então conclusão da trilogia. Juntos, ao infinito e além.

Nessa trama, paralela ao tempo que o protagonista é mantido em cárcere, Toy Story 2 entretém mais, com mais piadas e mais situações extrovertidas. Mesmo que seja menos rico em nuances dramáticos, a riqueza no argumento continua. O Sr. Cabeça de Batata agora tem uma esposa, a Sra. Cabeça de Batata (Estelle Harris). Buzz Lightyear encontra um corredor repleto com demais espécimes de si mesmo. E as bonecas Barbie são enfim apresentadas, possivelmente o ápice de um mercado impessoal de brinquedos sem vida e personalidade própria. A maior parte das Barbie, no caso, tem um comportamento já pré-determinado, como acontece com a Barbie Guia de Turismo (Jodi Benson). Mas o comando de Lasseter, na verdade, é emaranhado de expoentes em vários sentidos distintos, como a sequência enervante pautada simplesmente em um mar de biscoitos preenchendo o chão. Já com a trilha-sonora tão pessoal e carinhosa de Randy Newman, corrobora-se sentimento nas cenas de descoberta de Woody do seu passado. A trama de Buzz, em busca do seu amigo, é uma repetição claramente intencional da do primeiro longa, apenas invertendo os papéis agora. Isso não significa, contudo, que não existam novidades e um senso de pureza na reconstrução desta premissa. Um Buzz também é puro, mesmo existindo tantos “iguais”.

Por tantos aumentativos, o longa consagra-se como um superlativo ao seu antecessor. E em tecnologia também temos um crescimento, pois a qualidade da animação cresceu do primeiro ao segundo exemplar da franquia. Mais camadas e mais texturas foram implementadas. Então, o uso das luzes impõe novos contornos aos objetos em cena. O auge dessa amostra de poderio técnico, porém, é a cena em que Woody é consertado, remodelado para servir aos propósitos de um item em exibição, não mais um brinquedo. A computação gráfica torna o conteúdo grandioso. Mas, em última instância, essa grandeza em tamanho não é suficiente para vencer o poder da intimidade e do amor, que termina sendo retomado nas resoluções dos personagens. O próprio Buzz impostor, que surge em meio à narrativa como uma piada e também como uma referência à questão dos brinquedos enquanto franquia, encontra um encerramento no contato com o seu pai, pessoal. Dessa maneira, não é à toa que Woody precisa retomar a assinatura de Andy na sola da sua bota ou então o rasgo em seu braço. Essas imperfeições em meio a um maravilhamento visual tornam verdadeiras as tais existências. Toy Story 2, tanto quanto o primeiro, se importa com o que precisa.

Toy Story 2 – EUA, 1999
Direção:
 John Lasseter, Ash Brannon, Lee Unkrich
Roteiro: Andrew Stanton, Rita Hsiao, Doug Chamberlin, Chris Webb
Elenco: Tom Hanks, Tim Allen, Joan Cusack, Kelsey Grammer, Don Rickles, Jim Varney, Wallace Shawn, John Ratzenberger, Annie Potts, Wayne Knight
Duração: 92 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.