Crítica | Toy Story 4 (Com Spoilers)

“Woody é um brinquedo perdido agora?
Ele não está perdido. Não mais.”

As animações prévias à quarta – e inesperada – empreitada da Pixar Animation Studios por seu universo de brinquedos confirmavam, bem mais do que rompiam, certos sentimentos e questões. A passagem dos personagens, das mãos de Andy para as de Bonnie, garantiria que a estrutura dos brinquedos, “nascidos para serem brincados por uma criança”, se mantivesse. Pois Woody (Tom Hanks), Buzz (Tim Allen) e os outros permaneceriam amados por alguém e amando-o em retorno. O terceiro Toy Story resolvia a jornada dos seus protagonistas, portanto, sem revolucionar muito o esquema em si, respeitando uma certa pureza dos seus passados. Em contrapartida às obras antecessoras, corajosamente rompe-se, em Toy Story 4, preceitos que agora são percebidos por serem um tanto quanto antiquados. Esse é, assim sendo, um epílogo a uma série que não mais pensava em reconfigurar-se, contudo, que transforma-se em uma tetralogia a repensar mais uma vez esse mundo e, inesperadamente, trazer respostas a perguntas que se fazem importantes. Desde a remodelagem de alguns personagens antigos à apresentação de outros, conceitualmente criativos, a animação usa da iconoclastia para resgatar a nostalgia e a retirar de sua conformidade.

Uma enormidade de conceitos são remontados. Primeiramente, os brinquedos, antes, tinham que ser brincados. A jornada de Buzz, no primeiro Toy Story, e a rejeição de Woody aos anseios do Mineiro, em Toy Story 2, eram exemplos disso. O astronauta, no caso, via-se como um patrulheiro espacial de verdade. Já o antagonista da segunda animação da franquia, que possuía os mais importantes questionamentos para a série até então, queria ser exposto em um museu no Japão. O Mineiro tentava convencer os outros brinquedos que ser admirado através de uma vitrine, eternamente, seria melhor que ser manuseado e amado por um tempo, mas depois abandonado. Tais temores antecipados, porém, eram vencidos na animação, retornando na sequência já como parte da realidade dos personagens, prestes a serem despojados em um sótão. O encerramento, contudo, era positivo. Mesmo com a passagem de bastão, as coisas não mudavam em essência. Mas existiam questões em aberto, necessárias para consolidar a construção do universo de Toy Story. E os demais brinquedos, aqueles que, com o tempo, não tornaram-se os favoritos de Andy e se perderam pelo mundo? As suas vidas eram as menos importantes? O que move os brinquedos?

O que move, portanto, alguém como Garfinho (Tony Hale), novo personagem apresentado na obra, construído por Bonnie no seu primeiro dia no jardim de infância? Por que um garfo/colher que serviu exatamente ao que se propunha tem que transformar-se em brinquedo? A premissa do quarto Toy Story consolida-se, em um primeiro momento, com as tentativas repetidas de Woody em convencer Garfinho de que sua existência é mais grandiosa que o descarte. Ao mesmo tempo, o caubói precisa confrontar o crescimento de Bonnie, que tende cada vez mais a escanteá-lo, em prol dos demais. Já a iconoclastia se inicia com o distintivo de xerife sendo retirado e dado a Jessie (Joan Cusack). Por que Woody tem que ser novamente o preferido de uma criança, se Wheezy, RC, Rocky e vários outros personagens, que se perderam com o tempo, não foram? Já que Garfinho não quer ser resgatado, por que Woody tem que resgatá-lo? Perdido em uma estrada para resgatar o amigo do seu desprezo por si mesmo, Woody irá revisitar a sua existência, para compreender melhor o que o torna único. Ele é o herói de uma criança ou um herói de verdade? Ao repensar os personagens, repensa-se o passado. O que move, portanto, alguém como Woody?

O interesse por reconfigurar as antiguidades, nessa quarta empreitada, é presente já no próprio começo da animação. O prólogo transporta os espectadores de novo ao quarto de Andy, mas a passividade perante as brincadeiras é rejeitada para que os roteiristas personifiquem uma tragédia, apenas comentada na animação anterior: o desaparecimento de Betty (Annie Potts). A execução dos primeiros minutos do longa principia um reencenamento agressivo do passado, dando margem ao que a obra sustentará no seu decorrer enquanto mensagem. Em paralelo, reproduz-se um relacionamento dramático nunca antes visto com esse pesar, com esse senso determinista. Em vista de um propósito mais melancólico, Josh Cooley, estreante na direção de um longa-metragem, traz um senso de perda impactante nas imagens iniciais, encobrindo o cenário noturno de muita chuva, prenunciando que as coisas nunca continuam sendo como eram. Quando surge “You’ve Got a Friend In Me“, o cineasta entende uma renovação à missão de Woody e companhia, passando de mão e mão. Os absolutismos são, por sua vez, vistos como ameaças ao que é puro, como o amor entre Betty e Woody, rompido por algum significado existencialista mais ultrapassado.

Muito mais nobre, portanto, ser um brinquedo de uma criança por querer, por achar ser o melhor, do que por precisar ser. Woody, com o encerramento da obra, já conseguiu mudar a cabeça de Garfinho, compreender o quão mais ele poderia ser enquanto ser vivo. Em contraste a uma vida monótona em que existe preso a um armário, mora um chamado por aventura e a possibilidade de viver um grande amor, que Josh Cooley nos convida a ansiar o tempo todo. Por conta do retorno de Betty, com um visual reformado e uma presença mais ativa – particular de uma época que igualmente revê os papéis femininos -, as imagens acentuam o desejo de Woody de ser parte de algo em que sua importância é realmente necessária. Há muita ternura na troca de olhares entre esses dois personagens, o quão contentes eles estão por se reencontrarem outra vez. Justamente por se desprender de amarras e imagens passadas, buscar por alguma coisa melhor, que a animação opta por antagonizar um antiquário, espaço no qual as coisas antigas continuam sendo antigas e não são ressignificadas. Tanto subverte-se questões passadas quanto renova-se os ares, mesclando este drama à concretização de uma aventura espirituosa o suficiente para ser preferida.

Os novos personagens apresentados, assim sendo, conversam objetivamente com a proposta da animação. Duke Caboom (Keanu Reeves), por exemplo, precisa aceitar quem é, contrariando as insinuações mentirosas de uma propaganda. Já o Coelhinho (Jordan Peele) e o Patinho (Keegan-Michael Key) querem ser enfim amados por uma criança, após anos pendurados como prêmio de um parque de diversões. Os determinismos, que impedem esses personagens de serem quem eles querem ser, são problemáticas que precisam ser quebradas. As verdades pessoais são mais importantes que imposições externas. A mesma coisa acontece com Buzz. As vozes interiores, que saem da sua caixinha de voz, são pré-programadas, pré-estabelecidas pelo seu criador. Porém, mesmo com o pensamento da animação sobre as essências dos brinquedos existindo na trama, a presença de Buzz revela uma preguiça do roteiro em resolver narrativa. O personagem encarna a metalinguagem em si, movendo-se por uma voz superior – o roteiro -, que nem sempre funciona e acaba soando coincidente em excesso. Mas o roteiro tem consciência que é menos inteligente na execução do que na conceituação, criando uma piada envolvendo uma chave que brinca com isso.

Ao mesmo passo, o encerramento ao arco de Gabby Gabby (Christina Hendricks), a antagonista da animação, parte também de uma mãozinha dos roteiristas, colocando uma criança perdida exatamente no lugar que precisava estar. Os outros personagens, nessa cena, simplesmente param de correr para observar Gabby encontrando um amor, mesmo que, teoricamente, o tempo importasse. Embora isso ocorra, Gabby sustenta-se em motivações coerentes e que permitem Toy Story 4, em uma outra instância, reafirmar a sua missão enquanto continuação, que ninguém pediu, mas precisávamos. Na retirada da voz do ex-xerife, para permitir uma outra boneca seguir os seus sonhos, é que Woody encontra-se. Um personagem que não precisava ter impedido Lotso de ser triturado, resgatado o pinguim Wheezy da venda de garagem ou colocado os seus amigos para, consigo, irem parar nas mãos de uma nova dona e não em um sótão. Assume-se, com mais veemência e coragem aqui, uma questão que as animações anteriores já prenunciavam: o real significado da existência do caubói. Woody precisa despedir-se dos seus amigos, para que o seu rodeio continue. E, em algum momento entre o infinito e o além, os seus passos ainda se cruzarão.

Toy Story 4 – EUA, 2019
Direção: Josh Cooley
Roteiro: Andrew Stanton, Stephany Folsom
Elenco: Tom Hanks, Tim Allen, Annie Potts, Tony Hale, Keegan-Michael Key, Madeleine McGraw, Christina Hendricks, Jordan Peele, Keanu Reeves, Ally Maki, Jay Hernandez, Lori Alan, Joan Cusack, Bonnie Hunt, Kristen Schaal, Emily Davis, Wallace Shawn, John Ratzenberger, Blake Clark, June Squibb, Carl Weathers
Duração: 100 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.