Crítica | Toy Story de Terror

“Jessie nunca desiste. Jessie encontra um caminho.”

O protagonismo da vaqueira Jessie (Joan Cusack) em Toy Story de Terror, o primeiro curta protagonizado pelos brinquedos pertencentes à Pixar Animation Studios, é muito chamativo. Buzz (Tim Allen) e Woody (Tom Hanks) são meros coadjuvantes em comparação à boiadeira. Essa opção criativa serve, primeiramente, como prenúncio para o que Toy Story 4, próxima empreitada em longa-metragem da franquia, criaria com a personagem. Em uma revisão contemporânea do curta-metragem, nota-se a sua importância em margear o que a série tornar-se-ia alguns anos depois, principalmente a preferência de Bonnie por Jessie. O carinhoso abraço da menina em sua boneca, na resolução do enredo, marca um favoritismo. Ademais, o protagonismo em si da personagem, passando por maus bocados no decorrer do especial e os vencendo, também antecipa isso. Jessie consegue resolver vários confrontos por si só, ganhando mais espaço a medida que o curta progride. E em meio a um rapto de brinquedos, acaba sendo quem “sobrevive”.

Mas por ser um especial de televisão criado particularmente para o Halloween, o curta-metragem carrega, ao mesmo tempo, um componente temático muito expressivo e que orienta, para início de conversa, a sua premissa. Uma das cenas da obra, por exemplo, troca Marion Crane, de Psicose, por Jessie, que também é assaltada em uma banheira, com o monstro da animação, uma ameaça misteriosa, rasgando a persiana e apavorando a vaqueira. Com mais tantas referências a clássicos cinematográficos, Toy Story de Terror poderia se sustentar em ser uma homenagem barata como essa, sem muito a acrescentar em outros sentidos e significados. O curta, porém, enquanto não consegue ser tão imaginativo para pensar as situações de terror dos personagens – para a comédia é mais criativo -, perde um pouco o seu ar referencial no processo. Contudo, a revisão do gênero do horror, transportado para o mundo dos brinquedos, continua com competência. E, por isso, a revisão da própria protagonista torna-se parte crucial de uma proposta particular desta obra.

O arquétipo da personagem feminina que é a única sobrevivente de uma produção de horror é reiterado por grande parte do enredo. Ao passo que a vaqueira Jessie não é capturada, todos ao seu redor são, progressivamente. Entretanto, o curta-metragem, derradeiramente, opta por revisar o seu gênero. Os espaços anteriores são mudados completamente para os novos assumirem uma perspectiva mais sóbria, pois todos os enigmas são abruptamente descobertos. O ato que encerra a obra, no caso, perde o tom de mistério para assumir problemáticas mais concretas e específicas. Entra o tom cômico do especial, que conta com uma participação de Carl Weathers interpretando um brinquedo chamado Camuflado – que, no original, possui o nome de Combat Carl. O seu personagem é engraçadíssimo, e se trai o horror por um sentido, permite a comédia ganhar um teor mais exagerado para as poses do Camuflado em seus monólogos. Camuflado, curiosamente, possuiria um papel, mesmo que pequeno, em Toy Story 4. Isto exemplifica o impacto da animação.

O curta-metragem, por sorte, encontra um ponto de coesão no protagonismo de Jessie, que ganha contornos importantes com o seu arco dramático. A conclusão da obra, por exemplo, apoia-se basicamente na jornada da vaqueira, sem mais pensar o gênero de horror, porém, continuando por explorar essa personagem feminina. Toy Story de Terror, no caso, serve como um complemento para a duradoura trama de Jessie e seus medos interiores, principalmente em vista do seu receio em ser de novo encaixotada, o que relembra Toy Story 2. Assim sendo, mesmo que não traja uma propensão dramática muito complexa ou minuciosa, o curta de Angus MacLane, que escreveu o roteiro também, traz uma graciosa proposta ao revisar quem é o personagem principal dessa vez. O animador quer e consegue engrandecer a sua protagonista feminina, encarando o seu temor e vencendo-o. Em vista dessa repaginação, não é à toa que o resgate de Jessie a Woody seja tão similar ao que acontece na continuação do clássico de 1995, só mudando quem que resgata quem.

Toy Story de Terror (Toy Story of Terror) – EUA, 2013
Direção: Angus MacLane
Roteiro: Angus MacLane
Elenco: Joan Cusack, Tom Hanks, Tim Allen, Kristen Schaal, Carl Weathers, Wallace Shawn, Timothy Dalton, Don Rickles, Emily Hahn
Duração: 22 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.