Crítica | Toy Story: Esquecidos Pelo Tempo

“Você não é como nossas fêmeas.”

Esquecidos Pelo Tempo não possui, em termos de premissa, um propósito realmente original. Mas, em contraste a Toy Story de Terror, ao menos o curta-metragem procura explorar o que torna um brinquedo um brinquedo. Basicamente, o que se repete é o enredo do primeiro Toy Story, quando Buzz pensava ser verdadeiramente um patrulheiro do espaço. Já nesse especial televisivo, que foi exibido pela ABC, os Batalhossauros, personagens apresentados no quarto de um dos amigos de Bonnie, também não sabem que são meros brinquedos. Em posse de uma criança que até então não brincou com os dinossauros de ação, os répteis, presentes de Natal do menino, estabeleceram uma sociedade violenta, inspirada no tempo dos gladiadores. Enquanto isso, Mason, o garoto em questão, prefere passar o tempo jogando um videogame. Os protagonistas de Toy Story, portanto, precisam escapar dos confrontos que os dinossauros propõem, ao passo que chamar Bonnie ao resgate, que também encontra-se fascinada pelo videogame do amigo, parece ser a única solução.

O que torna Esquecidos Pelo Tempo uma obra mais particular e não meramente uma reciclagem temática e sem vida própria, do que a série de animação já trabalhou no passado, é o tratamento sobre a personagem Trixie (Kristen Schaal). Bonnie, no caso, nunca enxerga-a como dinossauro, preferindo imaginar situações totalmente absurdas de sua cabeça de criança para caracterizar a personagem. Trixie é, em consequência a isso, a protagonista do curta, tendo Woody (Tom Hanks), Buzz (Tim Allen) e Rex (Wallace Shawn), personagens mais consagrados, em papéis também mais secundários. É no carinho que o roteiro tem por essa, antes, coadjuvante e o seu envolvimento com Reptillus Maximus (Kevin McKidd), um dinossauro de ação que começa a se encantar pela tricerátopo, que o especial encontra a sua essência. De certo que o enredo continua sendo uma repetição de pretextos antigos e consolidados. Porém, existe um certo encanto na abordagem dramática e inclusive numa intenção romântica, que é meiga. Este drama é bem amarrado à trama.

A passagem que conclui o especial exemplifica, nesse sentido, um romance sereno e igualmente uma empatia do público por Maximus. O curta-metragem insere um relacionamento de encanto entre esses personagens. Na cena de encerramento, uma poesia marca e mescla-se a um humor característico destes curtas, que nunca se enxergam tão a sério assim. Mas se a mensagem e os sentimentos são costurados de maneira suficiente ao enredo, por outra instância, a criatividade em termos de ação, aventura e comédia não é surpreendente. Por exemplo, o uso de um enfeite de árvore de Natal, o “Angel Kitty”, para algumas piadas pontuais, é gratuito, à parte do espírito que se observa no restante da obra. O personagem simplesmente não tem qualquer propósito, a não ser referenciar mais objetivamente a ambientação natalina. Fora isso, é usado narrativamente para que se sustente a premissa dos minutos iniciais, em que o enfeite é visto por Bonnie como um dinossauro. Depois desse segmento, no que tange a piadas mesmo, sua presença perde a coesão.

Woody, Buzz e os demais personagens presentes em Esquecidos Pelo Tempo são, ironicamente, esquecidos. Do contrário a esse escanteamento, suas presenças poderiam ter sido simplesmente descartadas – uma opção, no entanto, que minaria as possibilidades de venda do especial de televisão à ABC, sem os seus dois personagens centrais participando como agentes da ação. Em vista do grande impasse em questão, seria interessante um usufruto menos passivo destes nomes, mesmo que mantivessem Trixe enquanto centro das atenções. O próprio Rex, um personagem que conversa com o mundo de dinossauros, não acrescenta muito à animação – um arco ao brinquedo, por exemplo, caberia aqui. Em termos de construção de mundo, o resultado também soa ambíguo. O mundo em volta de Trixie e companhia, nesse caso, é mais surpreendente que os personagens novos, os quais não trazem texturas muito marcantes em suas concepções. Entretanto, as caixas, compondo o quarto, são novidades a uma obra que, em essência, repete ideias, mas com coração.

Toy Story: Esquecidos Pelo Tempo (That Time Forgot) – EUA, 2014
Direção: Steve Purcell
Roteiro: Steve Purcell
Elenco: Tom Hanks, Tim Allen, Joan Cusack, Kristen Schaal, Wallace Shawn, Timothy Dalton, Don Rickles, Kevin McKidd
Duração: 22 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.