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Crítica | Traição (1998)

por Leonardo Campos
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O universo construído ao longo de toda a carreira do mestre Nelson Rodrigues é estruturado por pessoas canalhas, mulheres adúlteras e perigosas, casais em adultério e crimes envolvendo mortes por motivos que nem sempre são explicáveis. Traição, primeiro longa-metragem da Conspiração Filmes, lançado em 1998, toma como ponto de partida, três contos do dramaturgo, jornalista e contista do famoso A Vida Como Ela É. Sob a direção de Cláudio Torres, Arthur Fontes e J. Henri Fonseca, o filme dividido em tripla jornada traz personagens de núcleos distintos a vivenciar situações parecidas entre si. Com texto assinado por Patrícia Melo, Fernanda Torres, M. Zacharias e Cláudio Torres em dupla jornada, acompanhamos o espiral de loucura e perversão, trilhado por figuras ficcionais constantemente em seus limites. Situado no Rio de Janeiro em épocas diferentes, Traição é uma narrativa sem heróis exemplares, pois todos os personagens que circulam na história são indivíduos que carregam a culpa por alguma coisa.

Em O Primeiro Pecado, um homem tímido conhece a mulher que lhe dará a sua primeira noite de prazer sexual. O enredo gira em torno dos desdobramentos desse encontro e das reações adversas do jovem rapaz envolvido num desafio. A história é boa, tem as suas reviravoltas, mas ainda é branda para um material originado da atmosférica construção literária de Nelson Rodrigues, um escritor com texto peculiar e cheio de pormenores que ajudam bastante na concepção de sua tradução para o audiovisual. A trama é situada nos anos 1950, antes da trágica ocasião de casamento para Dagmar e Geraldo, jovens noivos que enfrentam os diabos com a presença de Alicinha, uma garota cheia de más-intenções, dedicada a acabar com os planos matrimoniais da irmã e instalar um reinado de horror pós-gozo na vida do genro que se deixa ser aliciado pela volúpia da garota. Por fim, temos o tom escrachado de O Cachorro, uma história sobre o desvendar de um adultério envolvendo a esposa e o melhor amigo do sujeito traído.

Os três enredos trabalham com a perspectiva marota e debochada dos personagens cariocas sem pudor algum para levar as suas vidas infames. Diabólica é o melhor deles. Com direção de fotografia de Breno Silveira e direção de arte assinada por Gualter Pupo, adentramos por uma tenebrosa história com elementos góticos e características pontuais do movimento barroco. Alice, interpretada adequadamente por Ludmila Dayer, é a irmã mais nova da ciumenta Dagmar (Fernanda Torres), uma mulher ansiosa e tensa com a possibilidade de Geraldo (Daniel Dantas), pedir-lhe em casamento, algo que é feito logo após as primeiras apresentações do enredo. O problema é que a menina aparentemente inocente na verdade tem planos maiores e deseja seduzir o seu cunhado, leva-lo para a cama e torna-lo um refém de seus desejos sexuais. Detalhe: ela é uma menor de idade, mas se comporta como uma mulher em alguns redutos. Angelical na frente da família, Alicinha é um pequeno demônio na entoca.

Assim, com traços do estilo de Alfred Hitchcock, do cinema noir e elementos dos filmes com mulheres perigosas e mortais, responsáveis pela redenção ou desgraça de um homem, Diabólica, um dos segmentos de Traição, emula a estrutura do conto rodrigueano que serve como ponto de partida e não deixa espaço para momento algum de paz e tranquilidade para os personagens. Alicia seduz Geraldo, torna o homem um refém, amplia o seu jogo doentio e o desfecho é organizado com histeria. Cansado da manipulação da garota, ele decide silencia-la para a eternidade, com o aval da esposa ciumenta que garante agora “haver paz e tranquilidade” para viver com seu marido, após o cumprimento de sua sentença. Na caminhada destes seres errantes, ainda conhecemos Santos (Francisco Cuoco), os pais de Dagmar e Alicia, interpretados por Jorge Dória e Fernanda Montenegro, tipos que também farão as suas bombásticas revelações que mesclam o tom catártico desejo com um humor bastante corrosivo.

Traição (Brasil – 1998)
Direção: Arthur Fontes, José Henrique Fonseca, Cláudio Torres
Roteiro: Patrícia Melo, Fernanda Torres, M. Zacharias, Cláudio Torres (baseado nas crônicas de Nelson Rodrigues)
Elenco: Alexandre Borges, Pedro Cardoso, Francisco Cuoco, Daniel Dantas, Ludmila Dayer, Jorge Dória, José Henrique Fonseca, Dandara Guerra, Fernanda Montenegro, Drica Moraes, Tonico Pereira, Fernanda Torres
Duração: 100 min

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