Crítica | Traídos Pelo Destino

O atropelamento seguido de fuga do local do acidente é um tema forte para discussões na vida real e na seara ficcional. A evasão e omissão de socorro, em diálogo com o nosso contexto, por exemplo, envolvem o artigo 176 do Código de Trânsito, pois dependendo de como os desdobramentos da situação estejam, os envolvidos precisam adotar providências que evitem o perigo para as demais interações de trânsito locais, além de ter que preservar o trabalho dos peritos e não deixar de prestar socorro quando há essa possibilidade. Em Traídos Pelo Destino, os envolvidos estão mergulhados dentro do contexto legal estadunidense, mas as questões são basicamente as mesmas. Evadir-se do local para não assumir as responsabilidades é crime e, numa dimensão filosófica, adentra na falta de ética e humanidade nas relações humanas.

Será com este direcionamento que a produção guiará os seus personagens, mergulhados em catarses profundas depois que uma situação trágica toma conta de suas vidas tranquilas. Sob a direção de Terry George, também responsável pelo roteiro, texto inspirado no romance de John Burnham, A Estrada da Reserva, publicado no Brasil pela Editora Objetiva, em 2001, a produção se inicia com o eficiente trabalho de John Lindley na direção de fotografia situacionista, a nos apresentar por meio de planos gerais, pedestres, carros, veleiros e diversos meios de transporte de seres humanos. Há até a curiosa circulação de crianças brincando de bike sem as devidas medidas protetivas, tais como capacetes e joelheiras.

A montagem de Naomi Geraghty contempla, neste momento, os dois segmentos da história, isto é, a família do professor Ethan Learner (Joaquin Phoenix), em paralelo ao agitado dia do advogado Dwight Arno (Mark Ruffalo). Enquanto o primeiro está num momento de religiosidade com a esposa e os filhos, o segundo está num estádio esportivo e percebe que ambos estão atrasados para o retorno, algo que provavelmente irritará a sua ex-esposa, Ruth Wheldon (Mira Sorvino). Na saída do local, Arno já apresenta pressa e impaciência com a congestão de carros quase amontoados na disputa pela saída. É o paralelo da visão bucólica da tranquila jornada de Learner, afetuoso ao lado de Grace Learner (Jennifer Connely), esposa e mãe de seus filhos.

Os caminhos do professor e do advogado se cruzam logo mais, na ocasião da tragédia causada após o segundo perder brevemente o controle do carro, deslize frenético, mas suficiente para ceifar a vida de Josh (Sean Curley), o primogênito do casal Learner. Ao fugir sem prestar socorro, principalmente para não perder a guarda e o respeito de Lucas (Eddie Alderson), filho único, Dwight foge do local sem prestar socorro e assumir as responsabilidades civis e penais do ocorrido. Deste momento ao desfecho, acompanharemos a jornada de esfacelamento da família Learner, tomada pelo patriarca sedento por justiça, em paralelo ao processo de “crime e castigo” do covarde advogado que apesar da culpa pesadíssima que carrega, não consegue ter forças para assumir o ocorrido e libertar de vez todos os envolvidos na história trágica.

Ele usava um protetor frontal para o carro, algo permitido apenas em fazendas e recintos semelhantes. Esse já é um ponto da investigação que não parece ser suficiente para o professor que perde o interesse na esposa e na filha. Ele se encontra tomado pelo desejo de vingar-se dos suspeitos, também irritado com a morosidade da polícia que não parece encontrar um desfecho explicativo e justo para as suas ânsias. Acompanhados pela condução musical não muito intrusiva de Mark Isham, a narrativa segue pelo caminho moralista do “assuma os seus erros” e “pague pelo que fez”. Nada mais digno, não é mesmo? Com o elenco que dispõe, Terry George teve espaço para mais impacto dramático em seu filme que em alguns trechos, torna-se relativamente letárgico, lesado pela falta de mais ritmo diante da potencialidade da história.

Na trama carregada pelo maniqueísmo, o que ocorre é chamado lá nos Estados Unidos de “hit and run”, termo esportivo tomado de empréstimo para a evasão acompanhada da omissão de socorro em acidentes de trânsito. A rebatida (hit) seguida da corrida (run) do jogado até a primeira base, numa estratégia arriscada que pode definir determinado momento da disputa. Em suma, um lance tão perigoso que ganha na realidade uma abordagem significativa, afinal, a fuga posterior ao acidente, legalmente falando, pode levar o culpado, se encontrado, para a detenção. Não é o caso quando há o devido socorro, algo que também evita ser preso em flagrante ou ter que pagar fiança. Num cenário assim, o que ocorrerá é um processo nada favorável para a imagem de quem está envolvido. Para o advogado interpretado por Mark Ruffalo, o “algo mais” vinha acompanhado da perda do filho e do caos em sua vida profissional.

Ele trocou isso pela culpa mordaz e noites de sono perdidas, envoltas no gosto amargo oriundo de sua postura criminosa nada nobre. Ademais, ao longo de seus 102 minutos, Traídos Pelo Destino, lançado em 2007, delineia a importância de ações afirmativas para a continuidade dos trabalhos na seara da educação para o trânsito e o exercício da cidadania ética em todas as esferas de nossa sociedade. Os temas abordados pelo filme não emergem apenas do cenário estadunidense, mas da “universalidade” da temática, uma das principais preocupações dentro da lista de causas de morte em todo o planeta. O breve descuido de Dwight Arno no volante, levado não apenas pela pressa, mas também pelo rapidíssimo momento em que tirou os olhos da estrada e voltou-se ao celular para atender uma ligação. Isso lhe custou a paz durante dias e mergulhou outra família na dor do luto e da sensação de impotência diante da perda do filho pelo descuido egoísta do “outro”.

Traídos Pelo Destino (Reservations Roads) — EUA, 2007
Direção: Terry George
Roteiro: Terry George
Elenco: Armin Amiri, David Anzuelo, Eddie Alderson, Elle Fanning, Jennifer Connelly, Joaquin Phoenix, Linda Dano, Mark Ruffalo, Mira Sorvino, Sean Curley
Duração: 102 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.