Crítica | Trancers: O Tira do Futuro

Beef? You mean, like, from a cow?
– Deth, Jack

Trancers é um pacote de surpresas relativamente atípico dos anos 80, por oferecer mais do que está meramente na embalagem. Ele começa sendo um rip-off descarado de Blade Runner, para depois embarcar em uma vibe de O Exterminador do Futuro (este de apenas dois meses antes), mas contendo diversas boas ideias originais, um protagonista canastrão, mas irresistível, e tudo em um embrulho trash da mais alta qualidade, por mais incongruente que isso possa parecer.

Seu sucesso à época foi tão grande principalmente no mercado de vídeo doméstico que ele gerou nada menos do que cinco continuações (apenas a última sem o astro Tim Thomerson, a não ser em imagens de arquivo), um curta-metragem e duas minisséries em quadrinhos, firmemente estabelecendo-se como uma das mais reconhecidas franquias de baixo orçamento fora do gênero do terror dos anos 80 e 90, com uma verdadeira horda de seguidores das desventuras temporais e, depois, também dimensionais, de Jack Deth (sim, com essa grafia mesmo) atrás dos trancers do título. E esse reconhecimento foi merecido, pois o filme original, apesar de ter óbvias limitações orçamentárias, é uma agradável e bem costurada colcha de retalhos com todo o tipo de clichê perfeitamente reconhecível, mas muito bem utilizado.

Na trama, o “tira do futuro” Jack Deth (Thomerson) é enviado do ano 2247 para 1985 para caçar seu arquiinimigo Martin Whistler (Michael Stefani), um vilão que, usando seus poderes mentais, transforma as pessoas em algo semelhante a zumbis assassinos sob seu comando. Premissa batida até para a época, não tenham dúvida, mas, como diria o filósofo Vincent Vega, “são as pequenas diferenças” que importam. No lugar de uma viagem no tempo comum, em Trancers ela é feita por intermédio de uma droga que arremessa a consciência do viajante para um antepassado seu na época desejada. No caso, por “uma coincidência”, o antepassado de Deth (o jornalista Phil Dethton) nos anos 80 é exatamente igual a Thomerson, com direito até a uma namorada bonita Leena (Helen Hunt em seu primeiro trabalho fora da TV) à tiracolo que, no melhor estilo da época, não é mais do que uma dama constantemente em perigo. Além disso, aparelhado pela equivalente de Q, da franquia 007, Deth conta com uma arma embutida em um relógio, o “segundo comprido”, que estica um segundo em 10 e que, com isso, efetivamente cria a versão sem efeitos especiais do bullet time 15 anos antes de sua estreia mais conhecida em Matrix.

Claro que, quando as novidades deixam de ser novidades, o filme é, apenas, uma sucessão de sequências de perseguição de baixo orçamento pelos locais mais feios possíveis de Los Angeles intercaladas por diálogos repletos de frases feitas e chavões que trazem aquele gostoso sorriso inadvertido ao rosto de qualquer espectador que se deixar levar pela atmosfera de filme B. A dupla formada por Thomerson e Hunt funciona surpreendentemente bem naquele estilo “senta aí para eu te explicar o que está acontecendo” que mantém o filme fresco pelo maior tempo possível, não muito diferente – só que mais leve – da interação entre Kyle Reese e Sarah Connor.

Mas é claro que a estrela é mesmo Thomerson que, em 1984, já contava com uma carreira de quase 10 anos tanto na televisão quanto no cinema, tendo inclusive contracenado com Sylvester Stallone em Rhinestone: Um Brilho na Noite, no mesmo ano de Trancers. Seu personagem é o arquétipo do policial durão, de poucas palavras e muita ação, que usa sobretudo (mesmo no calor) e cabelo lambido com mechas brancas no melhor estilo que Raymond Chandler estabeleceu com seu Philip Marlowe. Uma dose do cinismo de Rick Blaine aqui e outra do pessimismo de Rick Deckard acolá com uma boa quantidade da canastrice clássica e simpática do próprio Thomerson e pronto, Jack Deth funciona como em um passe de mágica, realmente justificando toda uma franquia construída ao seu redor e que, na prática, coloca os trancers do título apenas como detalhes para colorir a narrativa.

Trancers: O Tira do Futuro toca em todas as teclas certas e consegue sair daquela vala comum de filmes trash oitentistas que se perderam com o tempo ou que podem ser meramente classificados como “tão ruins que são bons”. Arriscaria dizer que, com um pouco mais de dinheiro, marketing e um refinamento maior, algo que seu diretor Charles Band jamais consegue impor estilisticamente – algo bem diferente do finesse técnico de James Cameron -, essa despretensiosa obra sci-fi poderia ter sido um blockbuster cinematográfico em sua época. Mas que bom que ela encontrou seu público cativo e seguiu seu próprio caminho.

Trancers: O Tira do Futuro (Trancers, EUA – 1984)
Direção: Charles Band
Roteiro: Danny Bilson, Paul De Meo
Elenco: Tim Thomerson, Helen Hunt, Michael Stefani, Art LaFleur, Telma Hopkins, Richard Herd, Anne Seymour, Miguel Fernandes, Biff Manard, Peter Schrum, Barbara Perry, Brad Logan
Duração: 76 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.