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Crítica | Transformers: More Than Meets the Eye (minissérie)

por Ritter Fan
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Renomeada posteriormente como Transformers: More Than Meets the Eye, a carreira dos robôs que se transformam em veículos variados, armas, dinossauros e tudo mais o que se possa imaginar começou com uma minissérie de apenas três episódios que foi ao ar nos dias 17, 18 e 19 de setembro de 1984, nos EUA, como mais uma estratégia da Hasbro, que já havia tentado o mesmo um ano antes como bem-sucedida estratégia de marketing para relançamento da linha G.I. Joe, então na versão de 9,5 centímetros em oposição à de 30, conhecida aqui como Falcon. O objetivo, claro, era vender os tais brinquedos transformadores que, em sua origem, eram versões americanizadas das linhas Diaclone e Microman do fabricante japonês Takara.

Se pararmos para pensar com frieza, Transformers – a animação – parece ter sido mais um prego no caixão da criatividade da brincadeira infantil. Nas décadas anteriores, os brinquedos não baseados em filmes, lógico, não carregavam contexto com eles, não ditavam como brincar. A partir do momento em que as fabricantes americanas perceberam com Guerra nas Estrelas que venderiam mais “bonequinhos” se também criassem a demanda viciando as crianças da época em desenhos animados, a Caixa de Pandora foi aberta e um dilúvio de séries em animação lançadas com o exclusivo objetivo de vender as versões físicas de seus personagens começou e talvez até hoje não tenha parado.

Com roteiros escritos e vozes gravadas nos EUA, Transformers era animada originalmente no Japão e a minissérie de setembro de 1984 estabelece as bases para a eterna luta entre os Autobots, liderados pelo nobre Optimus Prime, contra os Decepticons, liderados pelo vilanesco Megatron. George Arthur Bloom basicamente recebeu os brinquedos pré-prontos da Hasbro e precisou criar todo o contexto ao redor que justificasse a rivalidade e “explicasse” robôs sencientes cuja características principal é poder transformar-se em veículos (principalmente, lógico).

A inimizade entre os dois grupos de robôs não exigiu muito esforço, pois Bloom, na minissérie, apenas afirma que é assim e pronto, criando uma guerra civil com a profundidade de um pires no planeta Cybertron que leva um grupo de Autobots e Decepticons a cair na Terra há quatro milhões de anos, despertando nos dias modernos para sair no braço novamente. Por outro lado, Bloom simplesmente se esquiva completamente de criar qualquer contexto para os seres metálicos em si e sobre a habilidade de se transformar. É como se isso fosse o padrão, algo tão óbvio que dispensa qualquer tipo de explicação. Afinal de contas, ele e a Hasbro devem ter pensado, são só brinquedos para crianças pequenas, pelo que sofisticação e cuidado da narrativa são detalhes insignificantes, já que tudo que esses pequenos seres precisam fazer é esvaziar as carteiras dos pais sempre que passarem perto de uma loja de brinquedos.

Bloom até cria dois humanos, Sparkplug e Spike Witwicky, pai e filho, que servem de guias aos Autobots, mas suas presenças são tão insignificantes que chamá-los de coadjuvantes é até um exagero. O objetivo maior talvez tenha sido estabelecer escala de tamanho, ainda que alguns robôs possam também encolher, como o todo poderoso Megatron que se transforma em uma hilária pistolinha de mão ou Soundwave que se torna um toca fitas no tamanho padrão. Mas é aquilo: tudo para vender brinquedos!

Se o roteiro da minissérie é basicamente inexistente, girando em torno da incessante busca dos Decepticons de combustíveis da Terra para criar cubos de energia brilhantemente batizados de Energon, a técnica de animação não é muito melhor. Sim, era o padrão de praticamente os anos 80 todos, mas isso não quer dizer que era boa mesmo para a época, como os fãs saudosistas provavelmente defenderão (e, àqueles que não sabem, eu era dessa época, vi as animações originalmente na TV quando passaram pela primeira vez). Trata-se de (des)animação na verdade, apenas um ou dois passos acima daqueles “desenhos” da Marvel nos anos 60 que era os quadros das HQs em pan and scan, muito aquém de diversas outras obra animadas da época que não eram feitas para vender brinquedos.

Por outro lado, os trabalhos originais de voz são espetaculares. Peter Cullen principalmente como Optimus Prime e Ironhide, Frank Welker principalmente como Megatron e Soundwave e Christopher Collins principalmente como Starscream e Wheeljack (além de Sparkplug), além de todos os demais, têm performances inesquecíveis, icônicas mesmo, daquelas que se tornam a própria personalidade dos personagens. Além disso, a metalização da voz com o uso de efeitos, além do cuidadoso trabalho de edição e mixagem sonora terminam de criar a “alma” dessa animação de outra forma tão pobre tecnicamente. É quase como a manifestação direta do subtítulo more than meets the eye (algo como “mais do que os olhos veem”), já que é o som que é mestre na minissérie e também na série original que começaria em dezembro do mesmo ano e teria nada menos do que 98 episódios até novembro de 1987.

Transformers, mesmo com seus inegáveis problemas, todos eles criados pelo fato de a animação ter sido concebida unicamente para servir de gatilho de demanda de brinquedos, marcou sua época e continua marcando década após década, originando uma das mais lembradas e adoradas franquias televisivas e cinematográficas de todos os tempos. Um começo sem dúvida modesto, mas que ajudou – para o mal ou para o bem – a mudar duas indústrias.

Transformers: More Than Meets the Eye (EUA, 17, 18 e 19 de setembro de 1984)
Direção: John Gibbs
Roteiro: George Arthur Bloom
Elenco (vozes originais): Victor Caroli, Peter Cullen, Frank Welker, Michael Bell, Corey Burton, Christopher Collins, Scatman Crothers, Dan Gilvezan, Casey Kasem, Don Messick, Ken Sansom, John Stephenson
Duração: 66 min. (três episódios)

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