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Crítica | Trapaça

por Ritter Fan
198 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 3,5

O que é “ser alguém” dentro do chamado “Sonho Americano”? Essa é a pergunta fundamental que Trapaça faz ao longo de seus 138 minutos de projeção, com muitos figurinos exagerados do final da década de 70 e uma abundância de personagens.

Ou, pelo menos, esse é o aspecto que saltou aos olhos logo a partir de seu comecinho, com a excelente cena de Irving Rosenfeld, o mestre em trapaças vivido de forma cômica por um quase irreconhecível Christian Bale, arrumando seu cabelo – ou o que restou dele – em frente a um espelho. Em uma operação delicada e divertida (ao menos para nós), vemos o quase careca Irving, em uma suíte do famoso hotel The Plaza em Nova Iorque, arrumando seus fiapos aqui e ali e enxertando um topete que mais parece uma enorme bola de pelos recém-regurgitada por um gato gordo.

Com uma montagem esperta, que não poupa o espectador dos detalhes hilários – e até meio nojentos – David O. Russel e seus três montadores nos apresentam ao primeiro “alguém” de Trapaça. Um completo Zé Ninguém careca e barrigudo, além de dono de um duvidoso gosto por peças do vestuário, transformar-se em Irving Rosenfeld, o chamado self-made man, dono de uma cadeia de lavanderias, além de ser um enganador de marca maior que até arte falsificada vende. Ele é o resultado típico do que o Sonho Americano pode produzir. Alguém que lutou para conseguir o que tem, mesmo que essa luta tenha se dado completamente à margem da lei e aproveitando-se de gente, digamos, menos inteligente.

Mas Irving não é único em Trapaça. Longe disso, aliás. O filme de Russel, que também co-escreveu o roteiro original com Eric Warren Singer (que, antes, só escrevera um – e insipiente – longa, Trama Internacional) é um desfile de personagens essencialmente idênticos a Irving, o que já demonstra a tendência do roteiro em andar em círculos e a repetir sua temática à exaustão.

Temos Sydney Prosser (Amy Adams), uma americana do meio-oeste que finge ser uma lady britânica, com direito a sotaque e tudo mais e que faz questão de nos dizer – em uma narrativa em off incessante e repetitiva – que ela há muito deixou de ser quem ela foi e que só assim conseguiu o que ela queria. Ela é amante de Irving e sua parceira em seus negócios escusos e a grande razão de seu sucesso mais recente.

Temos também Rosalyn Rosenfeld (Jennifer Lawrence), esposa de Irving que já vive seu “sonho americano”. Ela é a companheira dedicada e mãe de família que vive exclusivamente para o marido e para o filho, isso quando o marido, claro, não está enroscado com Sydney e suas trapaças. Mas a vida de Rosalyn é sua fuga, é sua “nova identidade” também, ainda que consigamos ver muito claramente, especialmente no terço final do filme, sua personalidade mais verdadeira (difícil dizer se é completamente verdadeira).

Richie DiMaso (Bradley Cooper) é o ambicioso agente do FBI que, forçando Irving e Sydney a cooperar, começa a montar uma armadilha (mais uma trapaça, mais um golpe!) para capturar outros trapaceiros mais graúdos. Richie não sabe quando parar e, na medida em que seus planos ganham novas dimensões, logo chegando a senadores americanos e à máfia italiana (há uma ótima e ilustre ponta de um grande ator famoso por fazer mafiosos italianos), ele vai se enrolando exatamente como os falsos cachos que ele cultiva meticulosamente em casa com ridículos “mini-bobes”.

Até mesmo o prefeito de New Jersey, Carmine Polito (Jeremy Renner), vive sua crise de identidade e sua tentativa de se firmar como algo que ele não é. Com seu gigantesco – mas verdadeiro – topete lotado de brilhantina, ele tenta, a todo custo, reavivar Atlantic City. Ele já havia conseguido licença de jogos para a cidade, mas ainda não tem o dinheiro para reconstruir os cassinos e hotéis. Seu bom-mocismo vem de seu genuíno amor pela população local e sua relutância em aceitar propina. Mas seu Sonho Americano só se tornará realidade se ele se curvar à força do dinheiro, das trapaças, dos golpes (essa é a parte do filme baseada em fatos reais, ainda que, claro, fortemente modificados). É mais um que vive a vida de quem ele acha que deveria ser e não de quem ele verdadeiramente é. Mas Carmine, no final das contas, é o único personagem por quem talvez sintamos algum tipo de empatia. Ele quer mesmo fazer o bem, mesmo que para isso tenha que se vender no processo.

Todos os demais têm interesses escusos condizentes com a versão mais saliente de sua personalidade, aquela que é visível por meio dos ternos ridículos de Irving, da roupa “Os Embalos de Sábado à Noite” de Richie, dos decotes umbilicais de Sydney ou do esmalte “agridoce” de Rosalyn. É um mundo que demonstra que só os “espertos” se dão bem e que o Sonho Americano nada mais é do que a Ilusão Americana.

A crítica de Russel é bem-vinda e muito bem feita. Mas ele peca na repetição, no “flash bum bang!” da produção que faz questão de multiplicar qualquer coisa à décima potência, lembrando em muitos momentos a trilogia de Austin Powers. Se o tema central fica claro nos primeiros vinte minutos, ele não precisava repetir a questão de diversas formas diferentes e ainda por cima usando narração (ah, a muleta cinematográfica!) para deixar isso claro ao espectador, além de uma montagem não-linear que procura mostrar como Irving e Sydney se aproximaram.

As tão faladas ótimas atuações, na verdade, se perdem em meio à todo esse bombardeio sensorial que é Trapaça (o nome American Hustle ou algo como Golpe Americano é muito mais descritivo da mensagem do filme do que apenas “Trapaça”). É claro que, pelo enfoque e pelo inusitado de seu personagem, Christian Bale consegue se sobressair, especialmente porque, da última vez que o vimos no cinema, ele era um almofadinha que gostava de se fantasiar de morcego (olha aí a identidade dupla novamente!). A mudança radical em sua forma de atuar e sua transformação física são impressionantes, dignas de De Niro no já longínquo auge de sua carreira.

Outro destaque que muito pouca gente menciona é a atuação contida, mas genuinamente encantadora de Jeremy Renner, que vagarosamente vem se firmando realmente como um ótimo ator. Seu prefeito Carmine Polito é um simpático inocente que precisa se corromper para conseguir o que quer e seu rosto de relutância na primeira altercação que tem com Irving e Richie surpreende pelas nuances.

Já Amy Adams e Jennifer Lawrence são rostinhos bonitos perdidos no meio do tiroteio. Ainda que Adams tenha uma participação essencial, seu trabalho é apenas ok e chama muito mais atenção pelos abissais decotes do que pelo conjunto da obra. Lawrence não faz muito mais do que uma ponta glorificada carregada de chororôs e berreiros que não justifica toda a atenção que ela recebeu.

Trapaça – sem resistir ao trocadilho infame – engana o espectador ao se vender como algo mais complexo do que é. Ao repetir o tema à exaustão, sem dar trégua, David O. Russel entrega um trabalho inchado, de pouca carga dramática e que, apesar de ter muitos momentos interessantes e uma dupla de ótimas atuações, será muito mais lembrando em cinco ou dez anos pelos absurdos figurinos do que por qualquer outra coisa. Mas talvez o Sonho Americano seja raso e efêmero de verdade, quem sabe?

Trapaça (American Hustle, EUA – 2013)
Direção: David O. Russell
Roteiro: Eric Warren Singer, David O. Russell
Elenco: Christian Bale, Bradley Cooper, Amy Adams, Jeremy Renner, Jennifer Lawrence, Louis C.K., Jack Huston, Michael Peña, Shea Whigham, Alessandro Nivola, Elisabeth Röhm, Paul Herman
Duração: 138 min.

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8 comentários

Robson Costa 23 de novembro de 2020 - 13:20

Vi no cinema na época da estréia e gostei e só. Acabei de rever agora em 2020 e gostei muito mais. Achei tudo melhor no filme. Não sei se na época não tinha conseguido apreciar direito. Ainda há a sensação de que falta algo, alguma coisa que não sei explicar que deixaria ele perfeito, mas que não está lá. Mas, de qualquer forma, melhorou muito nessa segunda assistida e achei um filme excelente.

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planocritico 24 de novembro de 2020 - 12:21

Nunca voltei a rever esse filme e não sei se quero. Ele é bom, mas não fez “clique” para mim…

Abs,
Ritter.

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Ricardo Correa 7 de julho de 2014 - 21:09

Cara , carinha meu irmão : devo admitir que nos primeiros minutos de projeção eu me senti como que vendo uma novela , um folhetim que exacerbava demais o diálogo e não ia de encontro aos ” finalmentes ” – mas explico : minha expectativa era de um filme tipo mirabolante / reviravolta / de gato e rato saca? Ok mas assim que pude me recobrar desta hedionda espera pelo thriller que nunca haveria eu comecei a sim achar tudo muito brega , contudo esta mesma insistência que vc tanto salientou sobre o REAL tema do filme me puseram no caminho reto do que – apesar ou afinal – eu realmente deveria esperar desta narrativa …E eis que surgira través daquele caldo entornado todo – que a primeira vista me pareceu tão exangue – algo mais que humano ou demasiadamente humano e até sim por que não dizer : insano ! Porém e contudo crível em algum nível e que resvala muito bem nas atuações ou situações de seres que quem sabe buscam o mesmo ponto cego sem a mesma eficácia , lidando apenas com suas debilitadas limitações e /ou potencialidades para o bem ou pra o mal ou para meio termo em ambos , aderindo às emoções puramente humanas e falíveis – um passeio pela sim TRAPAÇA do ser eu que eu sou ou penso ser perante eu mesmo e todos os outros … Sim ok ! Vc pode pensar que Russel me convenceu por demasia , mas apesar de tudo não vejo seus intérpretes e principalmente seus personagens seguindo um mesmo tom filosófico ou psicológico …O mais legal é exatamente como cada um deles tem seu próprio modo de reagir e agir . Os diálogos ressuscitam nossa alma calada e vulnerável , nosso ser mesquinho e ok – metido a agri-doce – pra algum animal destemperado além do romance ou do poder do monetário viver …Enfim meu foco pendeu puramente pra as dimensões ditas humanistas e gritantes de cada personagem sem sua luta interna e externa por uma pobre ou nunca sobrevivência qualquer … Claríssimo : posso estar redondamente enganado no engodo do cinemático feitiço mas quer saber ? Foi bom pra mim !

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planocritico 9 de julho de 2014 - 01:44

Que bom que gostou do filme, Ricardo. Apesar de eu também ter gostado, não achei essa maravilha toda. Você parece ter apreciado bem mais do que eu, o que é ótimo! Abs, Ritter.

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Ricardo Correa 10 de julho de 2014 - 08:33

ok ok ok vc conseguiu adivinhar o nome que eu gostaria de ter …kkk!

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planocritico 10 de julho de 2014 - 15:19

Ai, caramba! Foi mal! Mil desculpas! Já até corrigi, Ricardo. – Ritter.

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Rafael Oliveira 6 de fevereiro de 2014 - 19:00

É bom filme, mas longe de merecer essa ovação toda. É um filme histérico e gritante demais, perdido em sua própria história. O que salva são as atuações (com exceção de J. Lawrence, que aqui está numa espécie de piloto automático) e a condução esperta de O. Russell.

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Ricardo Correa 10 de julho de 2014 - 08:32

Esta mesma histeria pode ser o trunfo que deixa o filme além do normal simplesmente moral…Não sei – sim também acredito que não seja o filme de uma vida – nada tão excepcional assim apenas correto e crível psicologicamente adiante do ambiente puramente insano do sonho americano -porém dentro de sua proposta creio ter ido além do que outros poderiam ter feito…

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