Crítica | Travessia (2015)

Não lembro de ter visto imagem alguma de Salvador, no viés cinematográfico, equivalente ao que João Gabriel, diretor e roteirista de Travessia, faz em seu filme. Esqueça as imagens do Pelourinho e do Farol da Barra. Captações aéreas da orla e do Farol de Itapuã? Também não. Os trios elétricos, o estereótipo da festividade cotidiana e a imponência do Elevador Lacerda dão lugar para uma direção de fotografia opressora. É uma cidade noturna, assombrosa, cheia de mistérios, ambiente urbano por onde trafegam personagens moribundos, em existências psicologicamente agonizantes.

A temática não chega a ser algo oriundo da “telemaquia” homérica, isto é, o filho em busca do pai, mas chega próximo. Os personagens que trafegam nesta “travessia” vivem na clássica crise familiar abordada largamente pela literatura, teatro, cinema, etc. No filme, Roberto (Chico Diaz) é um homem amargurado pela distância do filho Júlio (Caio Castro), afastado após diferenças exaltadas com a morte da mãe, personagem que aparece vagamente na narrativa por meio de uma cena do jovem rapaz na casa da tia, a vislumbrar o passado olhando uma foto. A ausência materna é motivo de uma atmosfera de luto. É o clima que por sinal, atravessa todo o filme.

Júlio deseja acessar o dinheiro que consta na conta de sua mãe, mas por motivos legais, seu pai é quem tem acesso aos valores poupados. É um conflito que se estabelece poucas vezes na história, mas algo significativo para o acirramento dos ânimos exaltados. Em suas travessias, ambos não conseguem se encontrar. Enquanto o filho vive no mundo das festas noturnas, envolto nas armadilhas do álcool e de outras drogas, o pai vaga com um colega de trabalho entre o ambiente profissional, uma zona de prostituição e o caminho de casa, até certa noite, atropelar uma criança à caminha da cidade baixa.

Se a sua vida já estava péssima, agora se torna pior. O trânsito, por sinal, é parte integrante do desenvolvimento dos conflitos, dos personagens e de seus relacionamentos. Embriagado, Roberto presta socorro ao garoto, mas nega-se a realizar o teste do bafômetro na delegacia. O responsável de plantão deixa claro: se a criança morrer, ele poderá ser processado e pegar vários anos de prisão. Com sensação de culpa corrosiva, o pai de Júlio carrega o acontecimento e si e o transforma em potência para catalisar a mudança em sua vida. Interessante observar que enquanto o pai caminha pelas vias da redenção, o filho desce ladeira abaixo.

Júlio desloca-se pela cidade de motocicleta. O capacete com a viseira aberta é a representação do seu caráter irresponsável, rebelde e inconsequente. Com ojeriza ao pai, evita o contato em todas as possíveis situações interacionais. Um dia, no entanto, o jogo é virado pelo avesso, pois uma tragédia mudará o destino de todos os personagens que gravitam em torno do eixo central da história. A questão é que a mudança se torna uma cena imaginada pelo espectador, pois o filme segue a linha de produções independentes sem desfechos, típicos das demandas industriais. Por um lado é poético, por outro é tedioso, pois a sensação que temos é de ter assistido algo inconclusivo.

Acostumados com a dieta dos três atos amarrados, com personagens repletos de conflitos dramáticos e evolução da forma plana para a esférica, com direito aos diálogos com lição de moral e ensinamento, encontramos na “travessia” de João Gabriel um modo próprio, não exatamente deslocado dos modelos industriais, mas livre do ato de narrar por meio do suporte cinematográfico. Oriundo dos curtas e vídeos publicitários, o cineasta faz a sua estreia com muito vigor, numa orquestra de imagens bem coordenadas para a transmissão das mensagens que o filme pretende enviar ao seu público.

Não são duas, tampouco três, mas várias as possíveis interpretações. Caio Castro, acostumado com o piloto automático das novelas que exigem pouco de seu talento, assume o seu personagem com inspiração, tal como Chico Diaz, ator que é praticamente bom em todos os tipos que interpreta. Ao longo de seus 90 minutos, as travessias noturnas pelas vias urbanas se comportam como contrastes com as poucas cenas de praia da produção, situada em locais que não buscaram demarcar exatamente o espaço, como se o mar caudaloso que aparece fosse universal, oriundo de qualquer lugar.

Lançado em 2015, Travessia é um drama que reflete o contemporâneo no cinema brasileiro, seara de realização que avançou esteticamente nos últimos anos e se dedicou na abordagem de temáticas mais variadas. Filmes do tipo levam o que há de melhor em termos de imagem para os festivais internacionais, num movimento de aquecimento audiovisual predecessor ao projeto de desmonte atual, aparentemente inspirado nas escolhas dos primeiros anos da década de 1990, algo que talvez, logo em breve, nos faça caminhar por um “novo Cinema da Retomada”.

Travessia — (Brasil, 2015)
Direção: João Gabriel
Roteiro: João Gabriel
Elenco: Amaurih Oliveira, Caio Castro, Camilla Camargo, Cao Monteiro, Chico Díaz, Cyria Coentro
Duração: 90 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.