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Crítica | Três Cristos

por Fernando Campos
236 views (a partir de agosto de 2020)

Durante grande parte do século XX, pessoas com problemas mentais severos eram “tratadas” com procedimentos extremamente duros, como a lobotomia, coma induzido e eletro choque. Sem contar nos espaços deploráveis que esses pacientes eram e ainda são colocados em algumas partes do mundo. Não à toa, a luta antimanicomial persiste até hoje. Agindo como um espelho da sociedade, a arte diversas vezes debateu esses processos de saúde mental, sendo Um Estranho no Ninho o exemplo mais conhecido.

Em 2017, o diretor Jon Avnet, conhecido por Tomates Verdes Fritos, realizou Três Cristos, que aborda essa temática por intermédio de um roteiro baseado em fatos reais. O longa apresenta o Dr. Alan Stone (Richard Gere), que precisar tratar três pacientes esquizofrênicos e paranoicos no Hospital Estadual Ypsilanti, em Michigan. Cada um deles acredita ser Jesus Cristo e, contrariando as normas da época, Alan decide tratá-los fazendo-os conviver diariamente.

A película abre de forma bastante promissora, trazendo legendas que pontuam como ocorriam tratamentos mentais na época e apresentando o protagonista como um sujeito disposto a questionar alguns processos obviamente errados. Além disso, o roteiro inteligentemente estimula o público a seguir a história ao mostrar de cara que o experimento deu errado, fazendo-nos perguntar por quê.

Porém, o que começa de forma entusiasmante, se transforma em um filme clichê e pouco profundo. Tematicamente, o longa nunca consegue transmitir algo além da importância de tratar pacientes de forma humana, uma mensagem importante, sem dúvida, mas que fica clara na abertura. É frustrante perceber que a obra de Avnet sequer tenta trazer algo a mais sobre a psique humana ou sobre a psicologia. A mensagem fica clara no início e nada  de interessante surge depois disso. Portanto, o filme foca apenas em humanizar os três cristos e aproximá-los da audiência, como se os próprios realizadores não vissem potencial nos personagens para a construção de arcos independentes.

Além disso, mesmo analisando a obra apenas por um viés teológico, a obra é pobre. As três versões de Cristo soam mais como estereótipos do que como figuras que realmente se vêem como um ser sagrado. Ou seja, a oportunidade de debater diferentes faces de Cristo também é desperdiçada. No entanoto, vale ressaltar o esforço que Peter Dinklage, Walton Goggins e Bradley Whitford colocam em seus papéis, construindo personagens cativantes. O maior destaque fica para Goggins, que ressalta a oscilação de Leon, indo da intimidação ao companheirismo sem parecer exagerado.

Porém, o único foco do roteiro está no arco do Dr. Stone. Para isso, o longa aposta em um possível triângulo amoroso que jamais convence; um drama familiar pouco explorado; e um segredo sobre o passado de Stone que passa longe de emocionar. Para piorar, Richard Gere está apenas razoável, pouco acrescentando a um personagem escrito de forma comum. Ele é carismático, mas só.

De positivo, temos a direção de Avnet, mostrando-se eficiente ao pontuar nuances emocionais do longa. Veja, por exemplo, como no segundo ato o diretor opta por tons quentes, enquanto o experimento está dando certo; já no terço final a fotografia de surge em cores frias, uma vez que o experimento passa a enfrentar dificuldades. Já a montagem acerta ao intercalar cenas em momentos chave da película, criando alguma tensão.

Contudo, a sensação que fica ao final de Três Cristos é que a produção não passa de um imenso potencial desperdiçado. A premissa interessante e repleta de possibilidades, como uma discussão psicológica ou teológica, dá lugar a uma obra previsível e que se interessa apenas em ter uma mensagem agradável no fim. Ainda que a estratégia simplista seja executada de forma aceitável, o resultado é apenas um filme good vibes genérico.

Três Cristos (Three Christs) – EUA, 2017
Direção:
Jon Avnet
Roteiro:
Jon Avnet, Eric Nazarian
Elenco:
Richard Gere, Peter Dinklage, Walton Goggins, Bradley Whitford, Charlotte Hope, Julianna Margulies, Kevin Pollak, James Monroe Iglehart, Stephen Hoot, Jane Alexander, Julian Acosta, Danny Deferrari, Chris Bannow
Duração:
117 min

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