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Crítica | Trinity e Seus Companheiros

por Luiz Santiago
222 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 3,5

Arizona, final do século XIX. Joe Thanks (Terence Hill) está à procura de um parceiro que o ajude a colocar em prática um plano cujo objetivo é tirar das mãos do corrupto Major Cabot (Patrick McGoohan) a quantia de 300 mil dólares. Como não se trata de uma tarefa fácil, Joe (também chamado “Ninguém” em dado momento da fita) usará de ardis que misturam aventuras comuns do “selvagem oeste americano” e toda a malandragem possível para levar o seu plano a cabo.

Em 1975 o western spaghetti dava claros sinais de cansaço, sustentando-se com alguma folga apenas dentro dos roteiros cômicos, como é o caso de Trinity e Seus Companheiros, mantendo o interesse do público muito mais pela mitologia criada nos anos anteriores do que pela popularidade e ânsia dos espectadores em relação aos filmes desse gênero. Algumas produções contavam com a sorte de um elenco bastante querido e de grande simpatia, como também acontece no presente longa.

Co-produzido pela Rafran Cinematografica*, Trinity e Seus Companheiros teve a sequência pré-créditos – a melhor do longa, diga-se de passagem – dirigida por Sergio Leone, que usou de muitos elementos técnicos aplicados em sua Trilogia dos Dólares e Era Uma Vez no Oeste, todavia, sem grandes ambições.

Mas Leone não queria mais dirigir westerns, por isso, após finalizar a última cena da introdução, deixou o cargo nas mãos de Damiano Damiani, diretor versátil, com passagem por muitos títulos de gêneros distintos com destaque para O Sicário, Pizza Connection e Confissões de um Comissário de Polícia ao Procurador da República, além de um Zapata western chamado Gringo – Uma Bala para o General (1966).

Como já foi dito, o roteiro de Trinity e Seus Companheiros se sustenta a partir de um enredo cômico, trilha que o western spaghetti seguia com relativo sucesso desde o início da década de 70. O grande problema, nesse sentido, é que mesmo concebido como uma brincadeira, o longa traz sequências de caráter pastelão muitas vezes apelativas demais e, infelizmente, afastadas do humor inteligente que pontua o restante da obra. Para completar essa má abordagem, vemos muitas vezes a piada substituir e não integrar o conteúdo, o que torna o roteiro bastante irregular, com intricados e confusos planos (alguns desnecessários) e cenas que seriam melhor se fossem cortadas na edição final.

Talvez se não tivesse um início tão bem dirigido e um caráter de abordagem tão interessante em outros momentos, o espectador entendesse melhor o tom geral da fita e não a levasse tão a sério. Seu tratamento irregular, no entanto, nos faz vê-la como uma produção que tem sequências notáveis, mas falha vergonhosamente ao forjar um riso que viria naturalmente como veio em outras cenas – maior exemplo disso é a primeira sequência após os créditos, quando Joe chega à cidade e vai falar com Doc Foster (personagem do ótimo Klaus Kinski em uma paródia de ‘Doc Holiday’). A interação entre os dois personagens, os diálogos e as brincadeiras recebem ótima figuração de Damiani na direção e humor inteligente de sobra no roteiro.

A trilha sonora de Ennio Morricone dá corpo comum à história, sobressaindo-se mais no tom cômico de pequenos temas circenses do que nas orquestrações que passam longe de suas melhores partituras para westerns.

O grande destaque técnico do filme vai para a fotografia de Giuseppe Ruzzolini (Quando Explode a Vingança, 1971), com sua bela iluminação de luz atenuada, sem grandes contrastes, dando ao público a sensação de calor e “felicidade” imagética durante toda a projeção.

Trinity e Seus Companheiros é um filme visualmente muito bonito, com uma direção que funciona parcialmente e um roteiro irregular, mas que cativa o público e consegue se concluir bem após a soma de suas partes. Esta é daquelas obras que o espectador sabe que tem coisa errada mas que provavelmente irá voltar a vê-la por vontade própria e sem sacrifício algum.

* Rafran Cinematografica: produtora e distribuidora de Sergio Leone responsável direta ou intermediária pela produção e/ou distribuição de alguns importantes filmes: Era Uma Vez no Oeste (1968), Quando Explode a Vingança (1971), Meu Nome é Ninguém (1973), Trinity e Seus Companheiros (1975) e Era Uma Vez na América (1984).

Trinity e Seus Companheiros (Un genio, due compari, un pollo) – Itália, França, Alemanha Ocidental, 1975
Direção:
Damiano Damiani, Sergio Leone
Roteiro: Damiano Damiani, Ernesto Gastaldi, Fulvio Morsella
Elenco: Terence Hill, Miou-Miou, Robert Charlebois, Patrick McGoohan, Raimund Harmstorf, Piero Vida, Rik Battaglia, Mario Valgoi, Mario Brega, Friedrich von Ledebur, Jean Martin, Klaus Kinski
Duração: 126 min.

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4 comentários

Handerson Ornelas. 2 de agosto de 2014 - 11:53

Ops, parece que estou enganado, o tema não é desse filme, existem mais do Trinity, né?

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Luiz Santiago 2 de agosto de 2014 - 14:44

Hahaha, comentei isso na sua outra entrada. É isso mesmo, o tema que você apontou é de um outro filme, um dos meus spaghettis favoritos, por sinal.
A série Trinity tem um montão de filmes. A mais conhecida, pelo menos aqui no Brasil, é a dos filmes interpretados pela dupla Terrence Hill e Bud Spencer. Se tiver oportunidade, veja esse “Chamam-me Trinity”.
E no caso desse aqui, “Trinity e Seus Companheiros”, é um filme bom, mas tem um tom cômico que exagera bastante em alguns momentos. A despeito de tudo, ele tem uma fotografia linda e uma introdução que praticamente vale todo o filme. hahahha

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Handerson Ornelas. 2 de agosto de 2014 - 11:50

Caramba, excelente crítica, Luiz!
Ainda não assisti esse filme, mas escuto meu pai falar dele desde quando eu era criança, acho o tema do filme o melhor de western com aquele clássico assobio despretensioso haha
https://www.youtube.com/watch?v=AlZeceNfm5U

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Luiz Santiago 2 de agosto de 2014 - 14:41

Valeu, man!
Esse tema é sensacional mesmo, mas ele é de um outro longa, um ótimo, aliás, “Chamam-me Trinity” de 1970.

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