Crítica | Tristeza e Alegria

estrelas 4

A vida de qualquer pessoa é marcada por uma sequência de estados de espírito, normalmente resumidos em tristeza e alegria — considerando também a reta graduada de sentimentos que vai de um extremo a outro. Nenhum dos dois estados dura para sempre e ambos acabam tornando a vida uma luta constante para conseguir suportar a tristeza e encontrar, de novo e por um pequeno tempo, a alegria. É com base nessa dualidade da existência que o diretor Nils Malmros dirigiu Tristeza e Alegria, filme de roteiro cíclico que traz o cotidiano de um cineasta pragmático e uma professora maníaco-depressiva cujo estado de saúde mental vai se agravando ao longo do tempo.

A dinâmica do filme é bastante inteligente e, se colocarmos de lado a pequena confusão de tempos que a reta final nos traz — o único espaço de pouca coesão da fita — temos em mãos uma obra tocante, forte e de certa forma polêmica, dada a discussão explorada em vários canais: o fato de o cineasta Johannes (Jakob Cedergren, em uma interpretação que torna seu personagem simpático e antipático ao mesmo tempo) ter abalado negativamente o mundo de Signe (Helle Fagralid, em uma interpretação lancinante) e feito com que ele voltasse a ter ataques de ansiedade; a vontade de algumas pessoas em reintegrarem Signe à comunidade após o trágico acontecimento; e o relacionamento matrimonial entre Johannes e Signe, que devido aos problemas da mulher, acaba requerendo uma atenção toda especial, atenção esta que Johannes não está preparado para dar, posto que isso foge demais de seu estilo de vida e visão de mundo.

Mas é nesse ponto que as coisas ficam interessantes. Porque o roteiro mostra o passado em flashbacks, de maneira alternada, enquanto vemos a tragédia do presente definir posturas inimagináveis para o casal protagonista e as pessoas ao redor. A nossa imediata busca por culpados acaba caindo na armadilha do diretor, que entrelaça momentos de tristeza e alegria em que tanto uma parte quanto outra tem um papel importante. Não estamos diante de uma condenação, mas uma obra humana, que não se afasta, com apatia, das fraquezas, doenças e erros dos personagens, mas também não faz apologia clamando por circunstâncias atenuantes sobre os erros cometidos.

O elenco se apresenta muito bem na representação do drama familiar e é ajudado por coisas como a trilha sonora pontual, clássica, e a fotografia propositalmente afetada pela mudança das estações — percebam que o diretor nos passa a ideia de sentimentos vindos com a passagem do ano, o que acaba se tornando uma outra metáfora sobre a vida — e explorando muito bem os ambientes sombrios dos sets. A longa sequência de conversa entre Johannes e o psicólogo bate novamente nessa tecla, indo do final da manhã até o final da tarde, do alvorecer ao crepúsculo, outra indicação entre extremos (tristeza e alegria) e na qual está presa, mais fortemente, a memória do passado. Aí está o verdadeiro núcleo do filme, tanto que, passada essa conversa, a coesão entre as sequências fica comprometida, como já comentamos acima.

Nils Malmros dirige um conto sobre a tragédia e o perdão. Sobre o amor em vários tempos da vida. Sobre a necessidade de companhia, de proteger ou ser protegido. A obra desnuda o casal protagonista com devida importância e atenção às nuances comportamentais e ao papel de cada um deles na luta pela vida, apesar da morte. É um filme com uma linha ético-moral que vai esbarrar em muitos espectadores. E a discussão que poderá surgir daí sempre será uma mescla de experiências de vida, formas de ver o mundo e a relação de quem fala com os dois estados afetivos que dão nome ao filme.

Tristeza e Alegria (Sorg og glæde) — Dinamarca, 2013
Direção: Nils Malmros
Roteiro: Nils Malmros, John Mogensen
Elenco: Jakob Cedergren, Helle Fagralid, Ida Dwinger, Kristian Halken, Nicolas Bro, Helle Hertz, Niels Weyde, Søren Pilmark, Mads Hammer Larsen, Anders Brink Madsen, Henrik Vestergaard, Alexandre Willaume
Duração: 107 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.