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Crítica | Trocas Macabras

por Marcelo Sobrinho
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O diretor norte-americano Fraser Clarke Heston, ainda jovem e pouco experiente no ano de 1993, decidiu adaptar para o cinema o romance Trocas Macabras, do também americano Stephen King. Apesar de não ter alcançado resultados tão grandiosos e tão marcantes quanto outras adaptações (o exemplo máximo, para mim, será sempre O Iluminado, de Stanley Kubrick), o filme de Heston merece uma oportunidade, pois ainda tem algo a dizer. O diretor consegue elaborar uma atmosfera de tensão suficientemente boa para capturar seu espectador, em uma história que versa sobre o tema mais óbvio do gênero de terror – o mal e o diabo, mas sem se render às suas roupagens mais tradicionais e desgastadas. Não se espere, no longa-metragem, a aparição de demônios estereotipados ou de entidades visualmente terrificantes. Não se trata de nada disso. Felizmente.

O enredo narra a chegada do velho antiquário Leland Gaunt à cidade de Castle Rock, perturbando completamente seu funcionamento natural. Em sua loja, ele vende objetos aos habitantes com grande valor sentimental para eles, acessando suas lembranças mais recônditas e dolorosas e seus sentimentos mais maléficos. O preço a se pagar por suas relíquias é exposto ao comprador: realizar algum ato aterrorizante contra outro morador da cidade. O primeiro a se envolver no festim diabólico é um menino ingênuo. Após ele, muitos outros virão à loja de Gaunt, um a um, tornando a cidade um antro de terror e degeneração moral. É interessante como o filme expõe a operação do mal dentro dos limites de Castle Rock. Não é por meio de acontecimentos sobrenaturais nem de feitiçaria que a ordem das coisas é agitada, mas sim por meio da revelação da maldade represada dentro dos próprios habitantes, movidos por seus preconceitos e por seus traumas guardados, mas jamais esquecidos.

A ideia central do romance de Stephen King e da adaptação bastante razoável de Heston traz alguma inspiração contida, a meu ver, tanto em Edgar Allan Poe como em Goethe. A ideia do mal revelando-se a partir da subversão da ordem construída de longa data pelos habitantes de uma pequena cidade me lembra o conto O Diabo no Campanário, de Poe, obra que o francês  Claude Debussy transformou em uma ópera inacabada. No conto do americano, um demônio travesso invade o campanário da igreja e badala seu sino no horário errado, perturbando a própria noção de tempo da cidade. Quanto à inspiração em Goethe, podemos pensar no diabo encarnado de Trocas Macabras como um eco distante de Mefistófeles, demônio para o qual Fausto vende sua alma na obra homônima. A concepção de um diabo ardiloso, que negocia as almas que deseja levar ao inferno, é bastante sentida no filme.

Quanto à parte técnica do longa-metragem, é um alívio notar que o elenco é bom o bastante para não descambar para as atuações canhestras e constrangedoras de outras adaptações do mestre contemporâneo do terror (o que ocorre de modo quase insuportável, por exemplo,  em Colheita Maldita). Ed Harris mostra-se o bom ator de sempre e, junto a ele, temos outros nomes de peso, como Max von Sydow e Bonnie Bedelia. Quanto ao restante, o filme não recusa os problemas que geralmente encontro no gênero. A fotografia não atrai. É simples e com limitadíssima elaboração estética. A direção é convencional, bem comportada e óbvia. Nada verdadeiramente autoral, como era possível encontrar no talentoso Shyamalan do início de carreira, por exemplo. As estereotipias e os cacoetes do terror estão lá em grande medida, embora não levados à exaustão. Mas, se não brilhante, Trocas Macabras consegue ao menos não comprometer de todo a boa história que conta.

A adaptação de 1993 é pouco conhecida dentro do território de filmes baseados na obra de Stephen King. Há algo de injusto nisso. Obras muito mais toscas e limitadas ainda são consideradas clássicos do gênero de suspense e terror, mesmo fazendo cinema de tão má qualidade. O filme de Fraser Clarke Heston está longe de ser uma obra-prima, mas, ao menos, é capaz de entregar uma sessão agradável e com pitadas de reflexão sobre a maldade humana.

Trocas Macabras (Needful Things) — EUA, 1993
Direção: Fraser C. Heston
Roteiro: W.D. Richter (baseado no livro de Stephen King)
Elenco: Max von Sydow, Ed Harris, Bonnie Bedelia,  Amanda Plummer, J.T. Walsh,  Ray McKinnon, Duncan Fraser, Valri Bromfield, William Morgan Sheppard
Duração: 120 min.

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2 comentários

Rodrigo Bertozzi 13 de outubro de 2018 - 20:53

O romance original é sensacional. Uma ideia simples , o ódio e a farsa entre nós – com uma pitada demoníaca! O filme – com todos os seus defeitos – que não dei bola – faz uma boa forma de como o ser humano é maleável ! 4 estrelas

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Cleber Rosa 2 de janeiro de 2018 - 15:30

Ótimo filme…uma bela adaptação de uma obra do King..muito melhor que varios filmes baseados nas obras dele.

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