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Crítica | Tropas Estelares, de Robert A. Heinlein

por Ritter Fan
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Lembram do prelúdio de 2001 – Uma Odisseia no Espaço em que Stanley Kubrick e Arthur C. Clarke deixam claro que o que marca a Humanidade como a conhecemos é a descoberta da arma, em uma sequência clássica que faz a transição para um satélite militar? Isso sempre ficou em minha mente e, décadas depois, nunca consegui encontrar evidências – em todo meu amadorismo, lógico – de que a natureza humana não seja essencialmente marcada pela beligerância e que a geopolítica mundial não tenha sido determinada fundamentalmente por conflitos armados em diferentes escalas pelas mais diversas razões.

Mas isso não quer de forma alguma dizer que eu – ou Kubrick ou Clarke – seja a favor da guerra. Uma coisa é ela ser inevitável (até prova em contrário), outra bem diferente é levantar sua bandeira e caminhar nessa direção, ainda que, em alguns casos, levantar a bandeira também seja inevitável (vide revoluções contra governos ditatoriais e protestos contra desigualdades econômicas e raciais). São questões muito diferentes e sem conexão necessária. Esse tipo de raciocínio, que sabe separar uma coisa da outra, é um exercício necessário para a leitura de Tropas Estelares, talvez a mais famosa obra do romancista americano Robert A. Heinlein em razão de seu sucesso à época que lhe valeu seu segundo Hugo Award e que muitos analistas consideram como sendo o ponto de virada na carreira literária do autor, com seu amadurecimento e posterior lançamento de maravilhas como Um Estranho Numa Terra EstranhaThe Moon Is a Harsh Mistress (se alguém souber se esse segundo livro foi um dia publicado no Brasil e seu respectivo título, agradeceria se pudesse mencionar nos comentários).

Afinal, a leitura de Tropas Estelares talvez leve à conclusão inevitável de que o militarismo que o autor deixa evidente como sendo a visão desse futuro da Terra que ele descreve é também sua visão pessoal. E Heinlein torna essa conclusão ainda mais fácil, já que o romance não é particularmente voltado para uma trama ou uma história completamente desenvolvida, com personagens bem construídos, sendo muito mais a visão quase exclusiva de seu protagonista, o jovem Rico, a partir do momento em que ele resolve alistar-se no exército como um ato de rebeldia, acompanhando-o ao longo de sua carreira e de seu amadurecimento e usando-o como porta-voz para discussões filosóficas sobre o papel dos militares, da disciplina rígida que inclui castigos físicos, da restrição ao voto (apenas os militares veteranos têm direito ao voto nessa Federação Terrana) e, claro, da guerra. E, como se isso não bastasse, o próprio Heinlein nunca escondeu que decidiu escrever o livro – inclusive paralisando seu trabalho em Um Estranho Numa Terra Estranha – como um protesto contra a decisão do então presidente Eisenhower de parar os testes nucleares americanos, para deixar clara sua visão sobre o papel dos militares.

E sua visão é fortemente irônica e agressiva. Inescapável a conclusão de que os alienígenas aracnídeos (chamados de “bugs” ou “insetos”) contra quem a Federação trava uma guerra espacial são os substitutos para a União Soviética durante a Guerra Fria (basta reparar como a mente comunal dos bichos tenta criticar diretamente o comunismo), assim como é inescapável a lógica fria de Heinlein sobre o imperialismo e o expansionismo territorial como instrumento de sobrevivência para a humanidade, algo que faz seu trabalho resvalar fortemente no fascismo, ponto mais relevante da crítica contrária ao autor. Minha conclusão sobre a ironia de Heinlein, porém, somente é possível depois de uma análise mais ampla de sua bibliografia, algo que obviamente não será objeto de comentários amplos aqui.

Mesmo assim, é importante contextualizar Tropas Estelares como uma resposta raivosa e amarga a uma posição anti-comunista não incomum para diversos autores e cineastas durante os anos 50 e 60. Mas, mais do que isso, é importante saber separar o joio do trigo, perceber o que é condenável e o que é admirável. Infelizmente não vivemos em uma Utopia em que podemos largar as armas e simplesmente amar uns aos outros. E não, isso não quer dizer que sou a favor do “porte de arma” como os mais apressados concluirão, mas sim apenas que as Forças Militares não são exatamente dispensáveis ou que sempre devam ser encaradas com temor. Se alguma coisa, a forte disciplina é algo a ser visto com bons olhos, pois, sem disciplina, não se alcança muita coisa, assim como não se alcança muita coisa apenas esperando recompensas enquanto se repousa em berço esplêndido. Claro que as punições físicas advogadas no livro precisam ser vistas com estranheza, ainda que Heinlein compare cuidar de uma criança a treinar um cachorrinho, exagero que dá azo à conclusão de que ele usou de ironia em meio ao que escreveu.

E essa ironia fica ainda mais presente com a leitura de suas obras posteriores, inclusive e especialmente a imediatamente posterior, a já citada Um Estranho Numa Terra Estranha em que sua distopia quase totalitarista, com fortes pitadas teocráticas é colocada em xeque pela chegada de um Humano que cresceu entre marcianos. Quem é o Heinlein verdadeiro, se as visões de Tropas Estelares, se interpretadas como escritas, são inconciliáveis com a de seu livro seguinte? Ou será que a conclusão é que Heinlein está em algum lugar no meio, entendendo a importância dos militares como algo inevitável, mas que, como em qualquer democracia, eles precisam ser o instrumento de defesa de um país em caso de provocação?

Não é fácil ler Tropas Estelares seja pela forma pregadora como seu autor escreve usando Rico como porta-voz de propaganda do exército, seja pela falta de desenvolvimento dos personagens, que, com exceção do protagonista, entram e saem da narrativa na medida do necessário. E é obviamente mais difícil ainda quando a visão de dentro é a única visão quase que constantemente, com os debates existentes – e que ficam restritos a um dos professores de Rico – sendo já trabalhados, em sua origem, para se chegar a uma conclusão de cartas marcadas. Por outro lado, fica o desafio de se ler algo que em tese é repugnante somente para construir sua própria análise crítica contra o que ele escreve, tentando conciliá-la com o que viria em seguida em sua carreira, tarefa ainda mais complexa.

Além disso, olhando sob os aspectos puramente sci-fi da obra, vemos, aqui, se não o nascedouro de praticamente todo o arcabouço narrativo de “guerras espaciais”, com exoesqueletos, marines espaciais e descrições realistas de batalhas, pelo menos sua clara popularização que polinizaria incontáveis obras posteriores do gênero seja na literatura ou no audiovisual. É como um pequeno tratado sobre militarismo sci-fi que, nesse aspecto restrito, nunca foi sequer arranhado

A utopia militar expansionista de Robert A. Heinlein não é o tipo de leitura que muitos procuram hoje em dia. Mas fugir da raia, taxar a obra de fascista sem ler e passar longe dela soltando platitudes genéricas também não é a resposta. Somos seres beligerantes e a guerra está em nosso sangue, por assim dizer. Heinlein só coloca no papel, de seu jeito direto e agressivo, o que não queremos enfrentar para provar seu ponto e provocar discussões. Só descobriremos que talvez não sejamos definidos pelo osso usado como arma para dominação territorial se olharmos para o osso, para o território e para os nossos supostos inimigos com o objetivo de procurar alternativas e só podemos procurá-las se entendermos bem o que cada decisão gera de consequências. Estamos prontos para esse debate?

Tropas Estelares (Starship Troopers, EUA – 1959)
Autor: Robert A. Heinlein
Editora original: G. P. Putnam’s Sons
Data original de publicação: 05 de novembro de 1959
Editora no Brasil: Editora Aleph
Data de publicação no Brasil (edição da Aleph): 14 de agosto de 2015
Tradução (edição da Aleph): Carlos Angelo
Páginas (edição da Aleph): 368

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