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Crítica | Tropas Estelares

por Ritter Fan
842 views (a partir de agosto de 2020)

O único inseto bom é o inseto morto!

Existem duas maneiras de se assistir Tropas Estelares: a errada, como uma ficção científica ultra-violenta de guerra em que humanos têm que dilacerar insetos alienígenas gigantes em algum lugar da galáxia e a certa, como uma inteligente sátira anti-belicista e anti-fascista ultra-violenta que tem humanos dilacerando insetos alienígenas gigantes em algum lugar da galáxia. O que Paul Verhoeven faz, aqui, é perfeitamente condizente com sua carreira como cineasta e uma certeira sátira de seu material fonte, o livro homônimo de Robert A. Heinlein tão acusado de fascismo e de glorificação do militarismo.

Mas existem sátiras e sátiras. As do primeiro tipo são aqueles que existem por si mesmas e chamam atenção momentânea, somente para serem esquecidas em seguida. As do segundo tipo permanecem com o espectador nem que seja subliminarmente, aos poucos abrindo caminho para realizações e conclusões que podem não ser exatamente óbvias a partir do momento em que elas acabam. E é óbvio que, em sendo um filme de Verhoeven, estamos falando, aqui, do segundo tipo de sátira, que ele aborda de maneira muito parecida com o expediente que usou em RoboCop, ou seja, interrompendo a narrativa com trechos de telejornais que, aqui, são adicionados de peças de propaganda de recrutamento e outras que não só funcionam, com seus exageros, para criar a perspectiva necessária, como também para contextualizar a história em si que começa já com a guerra entre humanos e insetos iniciada e retorna no tempo para contar a história das carreiras militares de John “Johnny” Rico (Casper Van Dien), que se alista no exército unicamente para seguir seus amigos e de Carmen Ibanez (Denise Richards), uma jovem que sempre sonhou em ser piloto e por quem Rico se interessa, além de, subsidiariamente, a de Isabelle “Dizzy” Flores (Dina Meyer), apaixonada por Rico e, muito de leve, também a de Carl Jenkins (Neil Patrick Harris), gênio e amigo de escola dos outros três.

O problema – se é que posso chamar isso de problema – é que Paul Verhoeven é esperto demais para o seu próprio bem e a crítica e a sátira de Tropas Estelares provavelmente passaram longe da compreensão de muita gente que à época do lançamento do filme e até hoje em dia prefere só enxergar a pancadaria da superfície seja para elogiá-la sem pensar, seja para odiá-la sem perceber a sutileza Esse talvez seja um filme que tivesse que começar com um aviso sobre como interpretá-lo, especialmente considerando a quantidade de gente que o taxou imediatamente de fascista e militarista, enquanto que ele é justamente o contrário porque Verhoeven propositalmente soube usar sua obra para estocar o material fonte de Heinlein, esse sim de abordagem no mínimo polêmica, ainda que o autor tenha se provado posteriormente como alguém de visão muito mais equilibrada do que deixou transparecer nessa obra em particular.

Na verdade, o trabalho cirúrgico foi mesmo de Edward Neumeier no roteiro que havia escrito para o que seria a versão original de Tropas EstelaresBug Hunt at Outpost Nine. Vendo as conexões com o romance belicista de Heinlein, a produção adquiriu os direitos sobre ela e o roteirista arregaçou as mangas para transformar seu trabalho em uma efetiva adaptação do livro, mas com o cuidado de inserir as já mencionadas abordagens satíricas. É particularmente interessante notar que, em termos narrativos, ou seja, em termos de história sendo contada, o roteiro é superior ao livro, uma exceção que confirma a regra das adaptações cinematográficas de obras literárias. Como a obra de Heinlein é, reduzindo em miúdos, um longo monólogo interno de Rico desde seu alistamento até seu triunfo como soldado de infantaria nesse futuro distópico em que só os veteranos das Forças Armadas é que são considerados cidadãos de uma federação planetária, há pouco espaço para o desenvolvimento de personagens, que são só citados aqui e ali, sem ganharem camadas ou mesmo personalidades completas. Neumeier, que fora responsável pelo roteiro de RoboCop, organiza o conteúdo do livro em células e pega personagens citados e os desenvolve como é o caso principalmente de Carmen, além de emprestar uma abrangência maior a esse fascinante mundo criado por Heinlein. A surpresa é o quão próximo os acontecimentos do filme são do livro mesmo com o foco saindo de Rico por diversas vezes e o quanto de sátira e crítica social Neumeier consegue inserir em seu texto.

Mas esses elementos críticos à exata compreensão de Tropas Estelares vêm também do lado visual, revelando o cuidado de Verhoeven em cada detalhe, a começar da escalação de seu elenco principal. No lugar de escolher talento dramático, que seria o caminho óbvio a ser trilhado, o diretor escolheu, acima de tudo, a beleza arquetípica: pele imaculada, olhos claros, dentes brancos, músculos torneados, cabelos lisos e cheios. Tentei ser satírico aqui, mas vou ser direto, pois, ao mencionar “beleza arquetípica”, quis dizer a “beleza arquetípica ariana”, já que o que vemos são jovens que são caracterizados de forma a orgulharem Hitler em sua psicopatia da “raça pura”. E, mesmo com um elenco limitado dramaticamente (vamos combinar que Van Dien e Richards podem até ser lindos, mas são dois dos piores atores que já singraram as telonas), para o objetivo do filme, eles mais do que cumprem seu papel, entregando à perfeição os Übermensch de Nietzsche, que foram abraçados de forma retorcida pelo genocida nazista.

Se a ultra-violência, os exageros constantes e o exército formado de homens e mulheres “perfeitos” não fossem pistas suficientes, os figurinos que Verhoeven encomendou a Ellen Mirojnick refletem os da Wermacht e também – no caso dos oficiais de inteligência – dos Camisas-Negras de Mussolini. Indo um pouco mais além, uma das peças publicitárias que vemos no decorrer da produção é um excelente reencenamento da sequência da manifestação ao ar livre que é possível ser conferida em Triunfo da Vontade, de Leni Riefenstahl. Ou seja, o cineasta não deixa pedra sobre pedra aqui desde que o espectador esteja disposto a ir além do “filme sobre soldados que matam insetos monstruosos em um planeta distante”.

Mas esse filme sobre soldados que matam insetos monstruosos em um planeta distante também é executado de maneira muito eficiente. É bem verdade que o roteiro de Neumeier não é exatamente fluido, por ele ter escolhido uma estrutura episódica que nem sempre funciona muito bem, mas Verhoeven transporta a visão do roteirista para as telonas de maneira muito competente, com sequências complexas repletas de figurantes em tomadas gerais de tirar o fôlego, além de um CGI de priscas eras que, por incrível que pareça, envelheceu muito bem. E os monstrengos feitos com animatrônicos e efeitos práticos são do mais alto gabarito, com ótimo realismo – dentro da “irrealidade” da sátira que constrói, claro – e enormes oportunidades para muito gore e muitas vísceras de baratas gigantes.

Tropas Estelares é uma grande e inteligente adaptação do polêmico livro homônimo, além de ser uma eficientíssima sátira de seu conteúdo, tudo em um pacote coeso, repleto de exageros bombásticos, atuações canastronas como deveriam mesmo ser e efeitos que sobrevivem ao teste do tempo. É Verhoeven na veia para ninguém botar defeito!

Tropas Estelares (Starship Troopers, EUA – 1997)
Direção: Paul Verhoeven
Roteiro: Edward Neumeier (baseado em romance de Robert A. Heinlein)
Elenco: Casper Van Dien, Dina Meyer, Denise Richards, Jake Busey, Neil Patrick Harris, Clancy Brown, Seth Gilliam, Patrick Muldoon, Michael Ironside, Rue McClanahan, Marshall Bell, Eric Bruskotter, Matt Levin, Blake Lindsley, Anthony Ruivivar, Christopher Curry, Lenore Kasdorf, Denise Dowse, Brenda Strong
Duração: 129 min.

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22 comentários

Hugo Andrade 3 de julho de 2020 - 11:13

Adoro esse filmes, lembro até hoje que esperei a fita chegar na locadora pra pegar no 1 dia. Ah, e nos anos 90, eu achava a Denise Richards, a coisa mais linda do mundo!

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planocritico 3 de julho de 2020 - 12:48

Esse filme demais e ela é mesmo linda.

Abs,
Ritter.

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Danilo Cezar Araújo De Oliveir 30 de junho de 2020 - 19:31

Todo ator ruim já fez um filmaço, inclusive o Casper. Nunca mais vi ele atuando em filme assim

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planocritico 30 de junho de 2020 - 20:20

Minha desconfiança é que ele foi escalado porque é ruim…

Abs,
Ritter.

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Rodrigo Jambeiro 27 de junho de 2020 - 11:35

Filmão!

Eu particularmente acho que Verhoeven foi um verdadeiro guerreiro em Hollywood. Mesmo quando entregavam a ele projetos blockbuster, ele não se rendia, mantendo a veia autoral,
e sempre provocando ou satirizando. A crítica americana que, no entanto, insistia em entendê-lo apenas como diretor de encomenda, ignorando o subtexto dos seus filmes, talvez inclusive por se recusar a discutir temas delicados da cultura deles (neste filme, por exemplo, toda a questão do imperialismo e militarismo americano).

Tanto é que até hoje, alguns de seus filmes lá, aparentemente, permanecem incompreendidos. Showgirls, por exemplo, ainda é abominado. Outros, como Robocop e Vingador do Futuro, produtores procuraram fazer remakes sob a perspectiva rasa que os originais eram “bregas”.

E eu ainda não me esqueço do dia em que deram a ele a framboesa de ouro de pior diretor (por Showgirls) e ele apareceu para buscar (algo inédito, até então). Acho que enquanto ele teve paciência de lá permanecer, ele pelo menos se divertiu rsrs.

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planocritico 27 de junho de 2020 - 13:37

Ele realmente conseguiu manter a pegada autoral mesmo trabalhando dentro da máquina hollywoodiana.

Abs,
Ritter.

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Anônimo 4 de janeiro de 2021 - 18:58
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planocritico 5 de janeiro de 2021 - 00:13

Já vi sim e não é tão ruim quanto dizem. Estou até devendo uma crítica aqui para o site!

Abs,
Ritter.

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Miguel Machado 27 de junho de 2020 - 06:13

A sequelas é que foram uma desgraça de todo tamanho

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planocritico 27 de junho de 2020 - 10:27

Nunca vi nenhuma e não sei se quero ver…

Abs,
Ritter.

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Claudio 26 de junho de 2020 - 16:56

Demorei pra ver esse filme. Vi em DVD ( ou teria sido em videocassete?), em 99. Gostei muito e continuei gostando quando revi há 1 ano.
Sou muito fan do Verhoeven, acho que gosto de todos os filme que vi dele ( até showgirls, me julgue rs), ele lembra aqueles comediantes que contam a piada e permanece com o rosto impassível, pois seus filmes nunca ( ou quase nunca) falam sobre o que é exposto de forma escancarada na tela.

Responder
planocritico 26 de junho de 2020 - 16:56

Boa descrição do estilo Verhoeven de filmar. Nada é mesmo o que parece. Ele faz, joga para o espectador e espera que nós entendamos a moral da história sem didatismos imbecilizantes!

Sobre Showgirls, esse será o próximo filme dele que eu farei a crítica!

Abs,
Ritter.

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Claudio 26 de junho de 2020 - 17:16

Ansioso por sua opinião sobre showgirls. Eu particularmente gosto, me chamam de louco, mas talvez eu seja mesmo.

Responder
planocritico 26 de junho de 2020 - 18:46

Passou no Telecine tem poucos dias e eu gravei. (Re)Verei em breve!

Abs,
Ritter.

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Flavio Batista Dos Santos 26 de junho de 2020 - 13:01

Vi no cinema e já na época notei esse tom de sátira. Pra mim funcionou tanto pelas cenas de ação, qto pela crítica ultra violenta e ainda assim humorada. Um pequeno clássico cult.
Na epoca, fiquei com crush na Dizzy e me impressionei com tamanho da cabeçorra do piloto que briga com o Rico e meio q toma a Denise Richards dele.
Acho ele, por exemplo, melhor do que Marte ataca com seu elenco estelar.

Responder
planocritico 26 de junho de 2020 - 15:37

Sim. Gostei na época do lançamento no cinema e depois, já macaco velho. Muito bom. Bem melhor que Marte Ataca…

Abs,
Ritter.

Responder
Claudio 26 de junho de 2020 - 16:56

Demorei pra ver esse filme. Vi em DVD ( ou teria sido em videocassete?), em 99. Gostei muito e continuei gostando quando revi há 1 ano.
Sou muito fan do Verhoeven, acho que gosto de todos os filme que vi dele ( até showgirls, me julgue rs), ele lembra aqueles comediantes que contam a piada e permanece com o rosto impassível, pois seus filmes nunca ( ou quase nunca) falam sobre o que é exposto de forma escancarada na tela.

Responder
Marco Antonio 26 de junho de 2020 - 12:01

Assisti semana passada. Ainda continua muito bom!!!

Responder
planocritico 26 de junho de 2020 - 16:14

Impressionante como os efeitos sobreviveram ao tempo!

Abs,
Ritter.

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Fórmula Finesse 26 de junho de 2020 - 10:21

Filmaço!!! A sequência em que eles mostram o “interrogatório” de uma espécie de líder insecto-espacial (uma agulha ou lança de tortura, espetando o bicho) – rsrsrsrsrsr…TOTALMENTE Robocop, totalmente genial.

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planocritico 26 de junho de 2020 - 17:08

Sim! Muito bom mesmo!

Abs,
Ritter.

Responder
Lee Batista 27 de junho de 2020 - 20:59

Acho todos os filmes dele cultuados até hoje, Showgirls é um deles que foi tanto criticado. Excelente diretor.

Outro diretor que se foi semana passada o Joel Shumacher, tinha filmes maravilhosos, O cliente foi um sucesso arrebatador na época, um de que eu curto muito é (Um Dia de Fúria).

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