Crítica | True Detective – 3ª Temporada

  • Leia, aqui, as críticas das demais temporadas.

Em 2014, Nic Pizzolatto encantou o mundo com a 1ª temporada de True Detective, estrelando Woody Harrelson e Matthew McConaughey. Todo mundo queria mais histórias detetivescas vindas da mente do showrunner e, sem demoras, já no ano seguinte, a HBO providenciou a 2ª temporada, desta vez estrelada por Colin FarrellTaylor Kitsch. A proposta de antologia resultou em uma história estruturalmente completamente diferente e muita gente saiu desapontada da experiência. Isso deixou True Detective na geladeira por um bom tempo.

Mas Pizzolatto e a HBO são insistentes e, quatro anos depois, lançaram a esperada 3ª temporada, desta vez inspirando-se na aclamada 1ª, ou seja, usando uma narrativa não-linear que nos carrega do presente, com entrevistas com a polícia, para o passado, por meio de flashbacks que começam a apresentar crimes terríveis. Mas, para não ficar apenas um “copia e cola” estrutural, o showrunner lida não com dois, mas sim com três (principalmente) linhas temporais e um protagonista que, em uma delas, sofre dos primeiros sinais de Alzheimer, tornando a memória um dos temas centrais da temporada. Dessa forma, ele é bem-sucedido em empregar frescor narrativo mantendo um bom grau de familiaridade com a história original, ainda que o novo caso seja mais “simples” e “mundano” do que aquele que os detetives Rust e Marty lidaram.

No entanto, o que realmente importa na nova temporada é o protagonismo de Mahershala Ali como o detetive e ex-fuzileiro/rastreador no Vietnam Wayne Hays em Arkansas, na região dos Ozarks. Curiosamente, a 3ª temporada de True Detective acabou no mesmo dia em que o ator levava seu segundo Oscar em três anos por Melhor Ator Coadjuvante e, ao que tudo indica, ele é um candidato forte para abocanhar um Emmy e um Globo de Ouro em futuro próximo por seu trabalho triplo aqui. Ali teve que criar e recriar seu estoico personagem em três momentos temporais diferentes – 1980, 1990 e 2015 – convencendo-nos dos efeitos do tempo sobre ele e o que ele faz é absolutamente inebriante.

Começando em 1990 e, depois, lidando com os três momentos em que o detetive Hays, de formas diferentes, investiga o mesmo crime – o desaparecimento de dois irmãos, uma menina e um menino em uma tarde de 1980 -, a narrativa exige um detetive novato nos anos 80, outro experiente, mas desgostoso, nos anos 90 e um senhor aposentado e com problemas de memória nos anos 2000. Se a temporada fosse filmada ao longo de 35 anos – como se fosse um Boyhood criminal – talvez o resultado não fosse tão incrível. Ali erige meticulosamente seu personagem e é um mestre ao estabelecer as conexões necessárias para que não haja solução de continuidade entre o Hays que vemos em 1980 e o de 2015, algo que as transições temporais de Jeremy Saulnier, Daniel Sackheim e do próprio Pizzolatto, que formam a trinca de diretores, conseguem amplificar, por vezes quase criando “paradoxos”.

Os trejeitos corporais de Hays velhinho são de fazer cair o queixo, assim como os momentos em que Ali, com apenas um olhar, transmite a mensagem de que o personagem, agora, esqueceu-se de tudo. Chega a ser assustador, especialmente contrastado-o com a versão oitentista de Hays, altivo, mas quieto e extremamente detalhista e inteligente. A sutil abordagem do ato de envelhecer é um dos triunfos dos roteiros.

Mas, apesar de Ali ser, do começo ao fim, o centro das atenções, não podemos simplesmente nos esquecer de Stephen Dorff como Roland West, parceiro de Hays, já que a temporada também lida com a força de uma amizade ao longo de várias décadas. Sim, é uma amizade inquieta, cheia de problemas, mas os laços que Hays e West criam são inegáveis e Dorff entrega um trabalho digno, ainda que naturalmente fique à sombra do de Ali. Na verdade, diria até que o papel foi construído com o objetivo de ficar “abaixo” do de Ali, mas não como um demérito, e sim para criar um equilíbrio de personalidades, mas sempre de maneira deferencial a Hays, já que é ele que se mostra o grande detetive aqui usando suas habilidades de caçador e rastreador durante a guerra. Fechando a quadra principal de atores, há Carmen Ejogo como Amelia, uma professora de primário que se torna interesse amoroso de Hays em outro relacionamento hesitante dada a personalidade do detetive e Scoot McNairy como Tom Purcell, pai das crianças desaparecidas, com o ator tendo espaço para sua melhor e mais sofrida performance até agora.

Indo além dos atores, a direção de arte é mais uma vez excepcional, algo que, claro, é marca registrada da HBO como um todo e de True Detective em particular. O cuidado com a reconstrução dos ambientes e a diferenciação entre eles é estupenda, assim como a cidadezinha onde o crime acontece, um daqueles lugares desesperançosos, lúgubres e que vivem ao redor de uma grande empresa que não são exceção na chamada middle America. Essa ambientação e e essa atmosfera dão azo ao sempre presente sub-texto de preconceito racial da temporada. Ele fica ali, debaixo da superfície, volta e meia vindo à tona de diversas maneiras diferentes, com o detetive Hays muito consciente dessa opressão, mas sem jamais colocar o problema como algo a ser resolvido, mas sim como um “fato da vida”, o que torna tudo ainda mais doloroso.

Como disse mais acima, o caso em si é mais mundano, bem menos interessante, por si só, do que a abordagem macabra da 1ª temporada ou a politicagem e corrupção da 2ª. Mas, como lida com crianças, é fácil prender nossa atenção, mesmo que a resolução efetiva seja desapontadoramente didática, literalmente com uma conversa bem explicadinha em torno de uma mesa, em um momento anti-climático que esvazia um pouco o poder da narrativa. No entanto, uma coisa deve ficar clara: há uma lógica boa para a história e os esforços de Hays e West ao longo das décadas não se perdem. É apenas uma resolução extremamente preguiçosa que nos leva a um epílogo que, confesso, até agora não sei se realmente gostei. Não entrarei em nenhum spoiler aqui, mas os momentos finais da temporada, apesar de mais uma vez assombrarem pela atuação de Ali, tiram um pouco da atmosfera pesada que a narrativa vinha construindo, o que pode ser visto como algo que fere de morte o espírito quase niilista da série como um todo.

A 3ª temporada de True Detective joga seguro ao voltar para uma estrutura narrativa familiar e talvez até esperada por quem adorou a 1ª e detestou a 2ª temporada, mas isso elimina um pouco da ousadia que Pizzolatto vinha mostrando. De toda forma, no final das contas, o que fica de verdade em nossa mente é a atuação incomparável de Mahershala Ali. O resto é detalhe.

True Detective (Idem, EUA – 13 de janeiro a 24 de fevereiro de 2019)
Showrunner: Nic Pizzolatto
Direção: Jeremy Saulnier, Daniel Sackheim, Nic Pizzolatto
Roteiro: Nic Pizzolatto, David Milch, Graham Gordy
Elenco: Mahershala Ali, Stephen Dorff, Carmen Ejogo, Scoot McNairy, Ray Fisher, Mamie Gummer, Josh Hopkins, Jodi Balfour, Deborah Ayorinde, Lonnie Chavis, Rhys Wakefield, Michael Greyeyes, Jon Tenney, Brett Cullen, Sarah Gadon, Emily Nelson, Brandon Flynn, Michael Graziadei, Scott Shepherd, Michael Rooker, Steven Williams
Duração: 480 min. aprox.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.