Crítica | True Lies (1994)

“Que tipo de mulher doente leva até as bandejas de cubo de gelo?”

Quando Nova Iorque sofreu da perda causada pelos atentados terroristas de 11 de setembro, James Cameron cancelou os seus planos por uma continuação de True Lies – que, por algum motivo, não recebeu tradução em terras tupiniquins. De acordo com o cineasta, o terrorismo não mais poderia ser explorado da maneira como, em 1994, o explorara, ou seja, um tanto quanto comicamente. Há quem, portanto, critique as ameaças apresentadas nesse seu longa de ação. Contudo, a verdade é que elas não importam verdadeiramente. Os tais terroristas, trajados entre a caricatura e o arquétipo, e inclusive a mulher fatal, interpretada por Tia Carrere, estão servindo a uma proposta, que é misturar gêneros. Uma cena em que a câmera dos vilões desliga durante um monólogo exemplifica a visão da obra. James Cameron, no caso, se interessa por uma comédia que se entrelaça com a ação, como é a própria narrativa dos terroristas emaranhando-se com a jornada matrimonial dos protagonistas, precisando resolver os seus impasses domésticos e suas mentiras. Para esse James Bond austríaco, terminar uma missão também significa retornar a sua família. Esse é um combinado que, dentro das circunstâncias de True Lies, não mostra precisão em todas as ocasiões, no entanto, conseguirá concretizar uma consistência e um propósito coesos.

Mais relevante que a trama de investigação que acontece superficialmente é a conspiração que Harry (Arnold Schwarzenegger), um espião, organiza contra sua própria esposa, que acredita estar o traindo. Helen (Jamie Lee Curtis), entretanto, não tem conhecimento da verdadeira profissão de seu marido, porque pensa estar casada com um mero vendedor. Do refresco de um 007 às avessas, traçam-se piadas e cotidiano a um cinema ainda espetacular. Cameron, para conseguir transpor um extremo ao outro, do extraordinário ao ordinário, usufrui do seu bom tato enquanto cineasta, porém, também do seu controle como roteirista. Por exemplo, a escalação certeira de Schwarzenegger vai de encontro a muitas frases de efeito, que são colocadas intencionalmente para surtir um efeito cômico marcante no espectador, acompanhando o quão naturalmente Arnie é canastrão. Mesmo assim, a obra nunca se encaminha completamente a um escracho dessa sua pretensa seriedade, independente de existir, numa oportunidade, uma perseguição do protagonista a uma moto, mas estando Harry justo a cavalgar. Em contrapartida, Cameron trata com mais afeto as questões familiares no momento de as resolver, mostrando se importar com aquelas dinâmicas – apesar de, particularmente, a entre a garota e seu pai nunca convencer o suficiente, mais avulsa.

O cineasta entende como inserir alma nos arrasa-quarteirões, supostamente gratuitos e comuns, como poucos, porque aceita, em vários casos, os caminhos simples como resolução a pretextos grandiloquentes demais. O charme mora nessa sinceridade, em oposição a uma megalomania que reitera a pretensão dos autores paulatinamente. Cameron profunde a subversão, o novo, como premissa, mas ao passo que retoma o clássico como fim. Claro que as inovações técnicas ou o interesse por trazer um evento cinematográfico ao mundo são maiores em outros clássicos, como Titanic ou Avatar. Mas a tese é a mesma: trazer as inovações, as subversões, as pirotecnias, para reconfigurar, em última instância, uma ideia teoricamente mais banal, apesar de engrandecida por justamente estar presa às amarras dos espetáculos audiovisuais. Pois James Cameron mantém, paralelamente ao seu projeto sobre matrimônio, traição, amor e família, uma pose de cinema de ação de primeiro grau, com efeitos visuais grandiosos – a explosão da ponte merece um destaque particular – e sequências grandiosas. Já o terceiro ato traz o protagonista pilotando um jato tão absurdamente que, de tal maneira, confere-se certo teor cômico, um ar de entretenimento puro, a algo que, em outros contextos, seria visto como sisudo. É a proeza técnica dando valor ao comum.

Assim sendo, o diretor orquestra uma metamorfose contínua de gêneros e escopos, partindo do mundano para chegar ao absurdo e vice-versa. As consequências dessa trama de traição encaixam-se naturalmente com a progressão narrativa – pequenas rupturas apenas -, e Harry torna-se cada vez mais e mais possesso. Jamie Lee Curtis, então, adentra no terror causado pelo seu marido, tendo que dançar sensualmente para o próprio – ao passo que a cena acontece, Cameron não perde o teor cômico de vista. O seu psicológico é torturado, a interpretação sente isso, porém, se True Lies chega ao ponto de permitir um soco na cara de Harry já é muito. Quem sofre as consequências, na verdade, é Simon (Bill Paxton), personagem curioso – e que retorna na cena conclusiva, um pouco patética em excesso. O cineasta, vide a polêmica relacionada ao abuso de poder e machismo, até sugere problematizar pontualmente as ações do personagem, com o seu parceiro, vivido por Tom Arnold, apontando o quão doentias certas ações são. Mas a sugestão nunca chega a ser ultrapassada a ponto de tornar-se uma questão a ser explorada. O propósito é alcançar, com absurdismos e renovações, a confirmação do amor. O longa-metragem permanece, todavia, numa zona mais segura, menos provocativa, mas não menos eficiente pelo que se propõe.

Frente a uma quantidade enorme de mentiras, a única resposta para os personagens mora nas verdades que compartilham mutuamente. Com isso, True Lies não compreende para si as mais densas condições dramáticas possíveis – portanto, não questiona esse matrimônio, as ações tomadas e as verdades não contadas. Do contrário, o longa-metragem opta por sustentar uma simpatia mais amena por meio de sua constante transformação em identidade. Ela renova-se o tempo inteiro, em narrativa e gênero, para, enfim, surpreendentemente reafirmar uma base, um pensamento clássico. Desse modo, termina-se emergindo um ponto em comum à jornada: a necessidade por se reestabelecer um amor que existe, embora omisso. Por tantos âmbitos distintos, a consistência impressiona, mesmo com as mutações e misturas. Tendo mais de duas horas de duração, Cameron costura clímax à clímax. Quando incomoda um pouco a mais, no segmento derradeiro – com o jato controlado por Harry -, que soa ser uma prolongação desajeitada do imediatamente anterior, mantém a criatividade, a espirituosidade. A execução engrandece outra vez a capacidade de Cameron em comandar projetos ambiciosos como esse, embora “ordinários” no fim, vendo nos arrasa-quarteirões a possibilidade de inventar, reinventar e retomar o que quiser.

True Lies – EUA, 1994
Direção: James Cameron
Roteiro: James Cameron
Elenco: Arnold Schwarzenegger, Jamie Lee Curtis, Tom Arnold, Bill Paxton, Tia Carrere, Art Malik, Eliza Dushku, Grant Heslov, Charlton Heston, Marshall Manesh
Duração: 141 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.