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Crítica | Trumbo: Lista Negra

por Leonardo Campos
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Existe “algo” de muito atual em Trumbo – A Lista Negra, cinebiografia de um dos mais famosos roteiristas da história da indústria hollywoodiana, Dalton Trumbo, responsável por assinar o texto dramatúrgico filmes renomados, dentre eles, Spartacus e A Princesa e o Plebeu. Ao observar o desenvolvimento dos personagens, a condução da história e os acontecimentos políticos que permeiam o período interno da narrativa, percebemos que os nomes se modificam, o tempo e o espaço também, mas os embates políticos que dividem os eixos entre capitalistas e comunistas, direitos e esquerdos, bons e maus, bem como outras dualidades presentes em nossa conjuntura social continuam e continuarão firmes por eras.

Em tempos de crises, golpes políticos e perseguições que às vezes acabam tragicamente, a trajetória de Trumbo é uma representação cabal da tensa malha social que nos inserimos. Os temas ditos universais estão todos lá, gravitando em torno do protagonista: amor, ódio, traição, etc. Sob a direção de Jay Roach, guiado pelo roteiro de John McNamara, Trumbo – A Lista Negra é interessante e ponto de partida para debates acerca de um importante momento da memória do cinema no século XX.

Longe do cuidado narrativo peculiar ao personagem biografado, o roteiro tenta erguer uma história edificante e consegue, mas não deixa de demonstrar que poderia ter se esforçado para narrar melhor os fatos que por si só agoniam o espectador sem um filme para ilustrar. Diante disso, McNamara e Roach tinham uma missão nada fácil, cumprida dentro da média.

Brilhantemente interpretado por Bryan Granston, o personagem é a personificação da teimosia e do temperamento difícil, características que somam ao brilhantismo nas ideias e postura sempre corajosa. Chamado de “soviético de piscina”, Trumbo era um roteirista de sucesso, repleto de prestígio e circundante nos eventos sociais, mas que não deixava de defender os trabalhadores de classes menos abastadas, como por exemplo, os carpinteiros responsáveis pelos cenários de uma produção em que esteve envolvido. Tido como um dos Dez de Hollywood, Trumbo foi oprimido exaustivamente.

Certo dia, ele descobre que fora incluso na “lista negra” hollywoodiana, parte do projeto anticomunista de Joseph McCarthy, senador que esteve no comando do Comitê de Atividades Antiamericanas. Sem ter a possibilidade de assinar contrato com nenhum produtor de Hollywood, Trumbo adentra numa tenebrosa fase, período que mexe com duas searas basilares de sua vida: a pessoal e a profissional. A primeira por conta da crise diante da família, do nervosismo diante da opressão, o que respinga no trato com todos ao seu redor. O segundo por conta das limitações iniciais que se transformam em redução total de acesso ao sistema de produção, culminando até mesmo na escrita sob um pseudônimo.

Ele é constantemente perseguido pela midiática Hedda Hooper (Helen Mirren), personagem que causou furor com as suas notas de imprensa, responsável por enterrar muitas carreiras promissoras em Hollywood após a Segunda Guerra Mundial, isto é, o período conhecido por Guerra Fria, época de medo da ameaça comunista na terra do american way of life. Em 1948, a MPAA (Motion Picture Association of America) adentrou no processo de regularização da censura e os problemas pulularam, tendo a censura como forte inimiga da criatividade.

Esquemático, mas interessante, a cinebiografia se ergue com personagens envoltas numa redoma maniqueísta.  Os bonzinhos são muito legais, planos, perfeitos como a primeira versão da namorada idealizada do protagonista de Ruby Sparks – A Namorada Perfeita. Os malvados, no entanto, operam bem as suas ações maléficas. Não possuem dualidade, pois estão na trama para exercer, exclusivamente, a opressão diante dos projetos do protagonista, neste caso, Trumbo, num jogo bem arquitetado de oponentes e adjuvantes, tal como os manuais de roteiro exigem.

Uma boa ilustração para a afirmação é a personagem de Helen Mirren. Despida de humanização, ela funciona apenas para o mal. Inserida na narrativa apenas para ser a antagonista padrão, que por sinal, aparece pouco em cena, diante da sua importância nos conflitos gerados na vida do protagonista, Hedda Hooper, tal como Edward G. Robinson (o “traidor”), mereciam construções mais esféricas, tendo em vista tornar a história potencialmente dramática em algo, talvez, arrebatador. Devo ressaltar, no entanto, que Trumbo – A Lista Negra está longe de ser um filme ruim.

Diante do exposto, a questão: isso é um problema? Não necessariamente, pois por mais que os personagens estejam nessa “malha xadrez” tecida com perspectivas duais, avançam como tipos interessantes, mesmo que caricatos. No entanto, caso fossem construídos com mais humanidade, talvez funcionassem de maneira favorável ao filme em si, tornando a experiência dramática mais humana e psicologicamente aprofundada, o que injetaria um tom mais crítico ao que é apresentado ao espectador.

Conduzido pela trilha sonora de Theodore Shapiro, Trumbo – A Lista Negra faz o possível de acordo com o roteiro entregue por McNamara. A direção de fotografia de Jim Denault capta adequadamente os ambientes e situações, com eficientes momentos dramáticos. O design de produção de Mark Ricker idem. A montagem de Alan Baumgarten emprega constantes elipses, o que dá ritmo ao filme. São profissionais que unidos, reconstituem uma época de contrastes, de brilho e trevas, questões tão duais quanto os personagens descritos anteriormente.

Lançado em 2015, o filme resgata uma memória potencialmente dramática, vergonha total para a história de uma nação tão avançada culturalmente. Ao longo de seus 124 minutos, Trumbo – A Lista Negra nos apresenta a deterioração de um artista, conhecido por seu processo peculiar de escrever dentro de uma banheira, tal como Marat, jornalista influente na época da Revolução Francesa. Ele foi um “gênio” limitado pelas investidas de Joseph McCarthy, político que acusou, sem provas, além de julgar e até mesmo “eliminar” pessoas tidas como comunistas.

Conforme os dados, o macartismo vigiou 653 pessoas entre 1953 e 1954. Uma verdadeira paranoia. Como complemento, Culpado por Suspeita, de Irwin Winkler, pode ser uma narrativa para somar nas ilustrações de uma época conhecida pela limitação da arte diante de posturas políticas, fase onde “vigiar e punir” era a regra básica do momento. Tenso.

Trumbo: Lista Negra (Trumbo, EUA, 2015)
Direção: Jay Roach
Roteiro: John McNamara baseado no livro de Bruce Cook
Elenco: Bryan Cranston, Helen Mirren, John Goodman, Diane Lane, David Maldonado, David James Elliott, Louis C.K., Roger Bart, Adewale Agbage, Elle Fanning, Dean O’Gorman, Rick Kelly
Duração: 124 minutos.

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7 comentários

Diego/SM 22 de maio de 2020 - 23:27

Putz, nenhum comentário para este filme? (Isso que tô atrasado 5 anos!)… Cara, achei muito bom – embora sinta também que pudesse ser ainda melhor e acho que essa impressão se “explica” neste trecho aí da crítica mesmo:

“No entanto, caso fossem construídos com mais humanidade, talvez funcionassem de maneira favorável ao filme em si, tornando a experiência dramática mais humana e psicologicamente aprofundada, o que injetaria um tom mais crítico ao que é apresentado ao espectador.”

Mas, enfim… bom filme sim (acho que daria no mínimo uma meia estrela a mais), com uma interessante lição/contextualização sobre um determinado recorte da História do Cinema (e, de fundo, da História em si, claro), pra quem gosta da matéria (como eu, que, no entanto, conhecia muito pouco dos fatos ali ressaltados).

E acaba sendo hoje uma bela e justa homenagem ao recentemente finado Kirk Douglas também… – e pensar, a propósito, que um filme como “Spartacus” talvez fosse boicotado por uma barulhenta e confusa parcela da nossa população brasileira nos dias de hoje, não?… (Para ver que tempos estranhos que vivemos mesmo)

Duas falas muito marcantes, por sinal:

“Eles só se preocupam com essa nova guerra. Eles amam uma guerra e esta é muito boa, porque é vaga, assustadora e cara.”

“Há muita gente raivosa e ignorante no mundo. Parecem estar se procriando em número recorde”

Rsssss

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Marcelo Silva 11 de junho de 2017 - 03:42

Só pela forma como argumentou no texto e nas respostas aos comentários da para perceber o que de fato incomodou no filme. Poderia ao menos ser mais explícito e falar abertamente. Bem, a maioria dos sites achou um bom filme e não deu essa ênfase a esses supostos defeitos, até pq a hostilização gratuita em relação a pessoas da lista negra existiu, é um dado histórico comprovado em diversas fontes. Não entendo o que de ”infantil” tem nisso, até porque, como podemos ver nos carinhas que surgem no Br recentemente e vêem comunismo até debaixo da cama, é uma marca notória desse tipo de pensamento ainda hoje, imagine no contexto de guerra fria.. Enfim, no fim das contas a critica aqui foi mais ideológica do que em relação aos aspectos técnicos do filme, que foram apenas o pretexto para alfinetar aquilo que não gostou por outros motivos. Faz parte, mas não sei pq não deixar explícito logo quais pontos de fato estão sendo questionados na produção.

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LexGirl 2 de fevereiro de 2016 - 04:16

Mais uma vez uma critica excelente. Acho o filme muito pouco inspirado, sem momentos nenhum de emoção. Amo a Diane Lane e acho que ela tá muito mal aproveitada no filme. Aparece dá um olhar de desgosto pro marido e pronto acabou. Não gostei da Helen Mirren nesse filme, amo ela, mas aqui tá com cara de vilã de novela mexicana. Enfim, o único momento em que me emocionei de verdade foi quando mostrou o trecho real da entrevista do Trumbo, nessa hora eu chorei. Parabéns pelas criticas Matheus.

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Matheus Fragata 2 de fevereiro de 2016 - 21:59

Opa, Lex! Tudo bom? Muito obrigado! Concordo com tudo que apontou. Helen Mirren, coitada, sofreu com um papel tão estúpido. Até em Red está menos pior hahaha. Aquele trecho final é bem legal mesmo. Disso eu gostei bastante.

Obrigado, mais uma vez!

Abraço!

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none 28 de janeiro de 2016 - 21:49

olá, gostaria q vcs fizessem uma critica a respeito do novo album da rihanna, seria interessantíssimo ver vcs avaliando um album pop. abraços

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Victor Vilani 28 de janeiro de 2016 - 14:11

Concordo com muitos dos pontos que indicou, Matheus. Todavia, não entendi quando você critica a “esquerdização” do filme e a “vitimação” do filme. Por mais que, pelo que pude ver, você possua uma ideologia neoliberal, não é possível negar o horror que foi o marcartismo que existiu no período — desmistificando a ideia de que somente a URSS viveu um 1984. E acredito que tanto o diretor quanto os atores conseguiram fazer isso muito bem, sem demonstrar uma “vitimização”, e sim uma verossimilhança com a realidade. De qualquer modo, gostei bastante dos pontos que relevou.

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Matheus Fragata 28 de janeiro de 2016 - 15:17

Victor, veja bem, eu não critico a tentativa do viés esquerdista do filme. Eu critico como isso é mal utilizado e que rapidamente é superado pelo filme sem nenhum desenvolvimento. Como disse, ele pincela boas ideias como ao apresentar Trumbo como um integrante da esquerda festiva que preza muito pelas suas liberdades individuais. E sim, ele vitimiza Trumbo além da conta. Ele é hostilizado gratuitamente, os agressores são superficiais e imbecis – até mesmo o próprio roteiro crítica essa característica.

O macartismo é mais um nome para perseguição ideológica. Esse tipo abuso estatal sempre vai existir nos dois lados da História, já que os homens são pequenos por natureza. Ao menos o macartismo foi ultrapassado em uma década e é reconhecido como uma vergonha histórica até hoje. Completamente indefensável. Porém, me espanta que pouca gente admite os horrores do Grande Expurgo ou de tantos, inúmeros, outros episódios de perseguição ideológica cometidos por regimes esquerdistas durante o século XX.

Agradeço o comentário! Abs!

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