Compartilho do sentimento do meu colega Luiz Santiago em suas críticas de Truque de Mestre e Truque de Mestre: O 2º Ato, em uma franquia que tem bons materiais para ser uma leve cinessérie de entretenimento e espetáculo visual, mas que continua batendo nas teclas erradas. Depois de dois filmes que já davam claros sinais de esgotamento, o primeiro pela derrapada no terceiro ato e o segundo pela ambição vazia de uma mitologia inflada, Truque de Mestre – O 3º Ato surge como aquela continuação que tenta tapar buracos jogando mais tinta na parede. E, como esperado, a tinta não seca. O terceiro filme mantém todos os vícios acumulados da franquia e parece dobrar a aposta justamente nos elementos que mais prejudicaram o 2º Ato: a artificial ideia dos Cavaleiros como justiceiros sociais, um sentimentalismo mal calculado, um moralismo bobo e uma drenagem quase completa do que realmente poderia fazer esta saga funcionar: a diversão do heist e das trapaças do grupo.
O longa insiste em vestir seus protagonistas com o manto de Robin Hoods contemporâneos, defensores da ética global e guerreiros iluminados contra magnatas corruptos, agora inchando o elenco com um trio de jovens ilusionistas que acabam por roubar o espaço do carismático quinteto de Jesse Eisenberg, Woody Harrelson, Dave Franco, Isla Fisher e Lizzy Caplan. Esse viés já havia corroído o segundo filme, transformando uma proposta que tinha tudo para ser divertida de mágicos trapaceiros fazendo truques elaborados para benefício próprio em uma narrativa com delírios de grandeza. Aqui, o problema se agrava. O 3º Ato abraça de vez essa pretensão messiânica, e o pouco de cinismo, egoísmo e jogo interno que tornava o grupo interessante no primeiro longa desaparece quase que por completo. Sem competição, vaidade e trapaça interna, temos discursos edificantes.
O roteiro cai, constantemente, na armadilha da exposição, uma característica crônica da série, mas aqui levada a um nível quase cômico. Grande parte do filme consiste em personagens parados em salas explicando o truque, explicando o plano, explicando a moral por trás do truque e explicando por que aquilo deveria ser impressionante. O princípio básico do cinema e da ilusão (ainda que em contextos diferentes) de “mostrar, não contar” é ignorado como se o filme tivesse medo de que o espectador não conseguisse acompanhar a trama. Só que esse excesso de fala não produz clareza, produz monotonia na sensação de assistir a um making-of inteiro sobre um truque que nunca foi realmente mostrado.
E esse talvez seja o maior problema do terceiro longa, sem set-pieces marcantes. A franquia, desde o início, parecia construída sobre a promessa de espetáculo visual, de engenharia cênica, de truques que brincassem com percepção, ritmo e criatividade. No lugar disso, o 3º Ato preferiu inclinar-se para a comédia, para a troca rápida de diálogos, para pequenos gags de personalidade, o mesmo tipo de humor que já era pontual no primeiro filme, mas que agora ocupa mais da metade da narrativa (todo aquele bloco do carro, por exemplo, é horrível).
As poucas tentativas de criar grandes sequências, como o clímax em Abu Dhabi, até têm um lampejo de inventividade, mas nada que se aproxime da energia que a franquia parecia perseguir lá atrás. A mansão com salas ilusórias, por exemplo, tinha potencial para ser um show de truques de perspectiva, mas o filme usa isso mais como um corredor divertido de referências. Falta virtuosismo técnico, falta inventividade, falta estética. Quase tudo parece mais barato, mais enxuto, mais preguiçoso.
Além disso, há um inchaço evidente no elenco. A tentativa de introduzir uma nova geração de mágicos ao mesmo tempo em que se mantém o elenco original dilui o carisma de ambos os grupos. O trio jovem tem momentos interessantes, mas não o suficiente para sustentar o protagonismo que o filme insiste em dar-lhes. Enquanto isso, os Cavaleiros originais viram coadjuvantes dentro de sua própria franquia. O filme parece não saber o que fazer com eles, tampouco como equilibrar suas dinâmicas com a presença dos novatos.
O resultado é que ninguém tem espaço dramático real, e o filme passa a depender de diálogos sentimentalistas e declarações de lealdade que soam artificiais, quase paródicas, sem falar da presença vilanesca genérica de uma Rosamund Pike completamente desperdiçada no papel. Esse acento melodramático é particularmente incômodo. Há uma insistência cansativa em verbalizar amizade, união, fraternidade, como se o roteiro precisasse reforçar uma emoção que não é construída organicamente. Cada cena parece querer provar que a equipe é uma família, como se fosse um Velozes & Furiosos mágico – essas obras precisam aprender com a trilogia Ocean’s Eleven.
Reconheço, porém, que o filme não é de todo intragável. Há momentos pontuais de carisma no elenco e algumas mágicas divertidas, principalmente no bloco da Lula (de longe a melhor presença humorística do filme). Algumas piadas funcionam, alguns truques menores têm charme, e a estrutura rítmica impede que o filme seja totalmente tedioso. O 3º Ato até passa rápido, mas não deixa nada para trás: nem espetáculo, nem surpresa, nem identidade.
Com tudo isso, a obra acaba sendo o pior tipo de filme ruim: aquele que é esquecível. Não há desastre cinematográfico, não há fiasco completo, mas há uma mediocridade lisa, uma falta de impacto, uma ausência total de inventividade que torna a sessão irrelevante. É um produto automático, uma repetição cansada de ideias já fracas, agora menos energéticas e mais moralizantes do que nunca. Uma franquia que prometia truques inteligentes, mas que termina com discursos e sentimentalismo barato. Talvez a única ilusão verdadeira aqui seja a de que um quarto filme faria alguma diferença.
Truque de Mestre – O 3º Ato (Now You See Me: Now You Don’t) — EUA, 2025
Direção: Ruben Fleischer
Roteiro: Michael Lesslie, Paul Wernick, Rhett Reese, Seth Grahame-Smith
Elenco: Jesse Eisenberg, Woody Harrelson, Dave Franco, Isla Fisher, Justice Smith, Dominic Sessa, Ariana Greenblatt, Lizzy Caplan, Rosamund Pike, Morgan Freeman
Duração: 112 min.
