Os clássicos nunca morrem. Quando não são revistos ou lançados em novas mídias, ou nalgumas vezes, refilmados, ganham documentários sobre os seus respectivos legados e impactos culturais. É o caso do comemorativo Tubarão: Por Trás do Clássico é um documentário que celebra os 50 anos do icônico filme de Steven Spielberg, lançado em 1975. Disponível na plataforma de streaming Disney+, a produção dirigida por Laurent Bouzereau, sob a parceria da Amblin Documentaries, explora os bastidores da criação do filme que revolucionou o cinema. A narrativa dinâmica e cuidadosamente editada examina o processo desde a adaptação do romance de Peter Benchley até o seu impacto nas bilheteiras e na cultura cinematográfica. Com imagens inéditas, incluindo vídeos caseiros e takes desconhecidos, ao longo de seus 90 minutos, a obra revela a visão e os desafios enfrentados na produção, como os problemas climáticos e as falhas do tubarão mecânico que quase comprometeram as filmagens.
Além de recontar a trajetória do filme, o documentário também oferece a perspectiva de Spielberg, que reflete sobre os obstáculos que tiveram que ser superados ao longo do projeto. Ele comenta sobre a tensão e incerteza que marcaram o processo criativo, enfatizando como essas dificuldades moldaram o resultado final. O sucesso de Tubarão não só lotou as salas de cinema, mas também estabeleceu um novo padrão para os filmes de suspense e aventura, consagrando-se como um marco na história do cinema. Através de depoimentos e memórias, Tubarão: Por Trás do Clássico não apenas homenageia a obra-prima de Spielberg, mas também proporciona uma visão aprofundada da evolução da indústria cinematográfica nas últimas cinco décadas. É uma intrigante e envolvente aula de linguagem, para além das questões comerciais que engendram o processo de composição e exibição no cinema.
Em seu desenvolvimento, o documentário aborda não apenas a produção do icônico filme, mas também suas consequências sociais, como o “efeito Tubarão”, que gerou uma onda de medo entre os banhistas após o seu lançamento. Ao explorar como esse medo, amplificado pela obra, se transformou em um legado de admiração e respeito pelo tubarão, um predador muitas vezes mal compreendido, mas também dizimado por pessoas que entendiam nesta fera marinha uma ameaça. Para enriquecer a narrativa, foram feitas entrevistas com membros da equipe de filmagem, cineastas, defensores do animal e atores que participaram do filme, como Carl Gottlieb, Lorraine Gary, Jeffrey Kramer e Ian Shaw, filho do falecido protagonista Robert Shaw. A presença de Joe Alves, designer de produção, e de John Williams, responsável pela trilha sonora marcante, também contribui para a profundidade do projeto.
Ademais, a produção também oferece aos espectadores uma imersão no processo de criação cinematográfica, destacando a importância de Tubarão na cultura pop e sua influência contínua no cinema e na conservação dos tubarões até hoje. A obra revela como, apesar dos desafios enfrentados nas gravações, o filme driblou as adversidades e se consolidou como uma referência para as próximas gerações. Através de depoimentos e reflexões, o documentário ilustra a trajetória de um clássico que não apenas entretenha, mas também promove a conscientização sobre a preservação dos tubarões e a complexidade de sua imagem na sociedade contemporânea. Coeso, o documentário destaca as dificuldades enfrentadas durante as filmagens, mas também celebra o impacto duradouro do filme, icônico em seu esquema de desenvolvimento e conexão com as plateias, propostas de marketing, dentre outros tópicos.
Assim, além de explorar suas implicações sociais e ambientais, Tubarão: A História de um Clássico também inclui uma seleção de cineastas e fãs contemporâneos, tais como JJ Abrams, Emily Blunt, James Cameron, Cameron Crowe, George Lucas, Greg Nicotero, Jordan Peele, Steven Soderbergh, Guillermo del Toro e Robert Zemeckis. Esses artistas refletem sobre como o clássico influenciou seu próprio trabalho e o panorama cinematográfico como um todo, destacando a importância duradoura do filme na evolução da indústria do cinema e na imersão do público em histórias sobre o mar. O documentário também proporciona uma explanação de questões pessoais de Wendy Benchley, esposa do falecido autor do romance homônimo traduzido para o cinema, uma defensora proeminente da política oceânica e da voz que se ergue a favor dos tubarões. Juntamente com seus filhos, Tracy Benchley Turner e Clayton Benchley, e seu irmão Nat Benchley, eles oferecem um vislumbre raro da inspiração da vida real que alimentou o romance best-seller inicialmente responsável pela história.
Por meios destes depoimentos, temos não só a humanização da narrativa, mas também um processo de conexão desta obra-prima cinematográfica à realidade, sublinhando o impacto que Tubarão exerceu não apenas como um clássico de entretenimento, mas como um ponto de partida para debates significativos sobre a conservação marinha e a representação dos tubarões na cultura popular moderna. Como por aqui, diversos documentários sobre este clássico já foram analisados, mesmo que as discussões em torno do filme desta vez apresentem novidades, muitas coisas já foram ditas em narrativas anteriores. Por isso, um dos tópicos nevrálgicos que acredito, tornem esta produção um ótimo serviço de celebração da memória cinematográfica, é a dinâmica do curioso e inesquecível “efeito Tubarão”. Mas, afinal, caro leitor, o que foi exatamente este fenômeno? Explico. O longa-metragem retrata um grande tubarão branco que aterroriza uma pacata cidade costeira, provocando pânico entre seus habitantes e turistas.
Desta maneira, desde o seu lançamento, o filme despertou um temor generalizado em relação ao mar e seus habitantes. As cenas impactantes de ataques e a icônica textura percussiva de Williams contribuíram para criar uma atmosfera de tensão que se enraizou na cultura popular. O filme se tornou um clássico, mas seu legado trouxe também consequências negativas. Após a exibição, muitas pessoas começaram a evitar o mar, temendo um ataque de tubarão. Esse fenômeno, conhecido como “Efeito Tubarão”, resultou em um aumento das vendas de trajes de banho para proteger a pele e um declínio no turismo em praias que, anteriormente, eram muito populares. O medo do tubarão tornou-se uma característica comum na civilização ocidental. Mesmo décadas após o lançamento do filme, muitos ainda sentem receio ao entrar no oceano. Infelizmente, essa percepção distorcida é alimentada pela desinformação sobre o comportamento real dos tubarões, que na verdade são muito mais ameaçados do que os humanos. O filme ajudou a perpetuar uma imagem de malícia associada a estas criaturas majestosas, levando a um aumento de mitos e inseguranças, por isso, temos até um relato de Spielberg sobre arrependimento em torno do impacto cultural de seu filme.
Em contrapartida, alguns anos após esse efeito, a popularidade de Tubarão também levantou questões sobre a preservação das espécies marinhas. À medida que o medo aumentou, também cresceu a preocupação com a conservação dos tubarões, cujas populações começaram a declinar devido à pesca excessiva e à destruição de habitats. O filme gerou um espaço de discussão sobre a necessidade de proteção dos ecossistemas marinhos e das espécies que os habitam. Organizações ambientais e conservacionistas se valeram do filme como uma oportunidade para educar o público sobre a importância dos tubarões no equilíbrio ecossistêmico e os riscos associados à sua extinção. Mais adiante, diversos movimentos de conservação tiveram seus esforços amplificados por este fenômeno cultural. Documentários, campanhas e iniciativas educacionais começaram a aparecer, buscando desmistificar os tubarões e mostrar seu verdadeiro papel no ecossistema marinho. No entanto, esses esforços enfrentaram o desafio de combater uma narrativa estabelecida. E, que, frequentemente coloca os tubarões como vilões, enfatizando a necessidade urgente de reverter essa imagem negativa.
Em linhas gerais, leitor, um documentário muito informativo, dinâmico e que funciona não apenas como debate cinematográfico, mas aula sobre meio ambiente e intervenção humana. Assista.
Tubarão: Por Trás do Clássico (Jaws @ 50: The Definitive Inside Story) — EUA, 2025
Direção: Laurent Bouzereau
Com: Steven Spielberg, Lorraine Gary, Emily Blunt, J.J.Abrams, Guillermo del Toro, Jordan Peele, Steven Soderbergh, James Cameron, Carl Gottlieb, John Williams, Cameron Crowe, Jeffrey Kramer, Ian Shaw, Greg Nicotero
Duração: 88 min.