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Crítica | Grande Tubarão Branco (Great White)

por Leonardo Campos
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Eles voltam. Sempre voltam. Desde o sucesso de Tubarão, dirigido por Steven Spielberg, com base no roteiro inspirado pelo romance homônimo de Peter Benchley, os tubarões ocupam lugar privilegiado no circuito de produções do subgênero horror ecológico, rentável e constantemente em renovação. Recentemente, Águas Rasas e Medo Profundo nos responderam ao básico questionamento sobre a funcionalidade de filmes sobre tubarões assassinos e seres humanos a batalhar pela sobrevivência. A resposta ao tópico é um sonoro sim. As produções com as feras marinhas podem funcionar bem, quando dirigidas e escritas por realizadores acima da média, como é o caso de Great White, narrativa australiana que faz parte do circuito mais sofisticado de produção. Antes de adentrar na análise específica do filme, uma breve explanação: há dois tipos de filmes com tubarões assassinos.

O primeiro é o grupo de narrativas derivadas do clássico moderno de Spielberg, conjunto que compreende os já mencionados anteriormente, o primeiro Do Fundo do Mar, o estilo documental de Mar Aberto, dentre poucos outros. O segundo grupo é formado de paródias escancaras, como a franquia Sharknado, bem como as imitações ruins do filme de 1975 e as aberrações com tubarões mutantes de várias cabeças, exorcizados, natalinos, enfim, há até um filme de pesadelos com os reis dos mares, sendo estas últimas, produções de nicho, direcionadas aos consumidores do que se convencionou a chamar de cultura trash. Diante do exposto, o que faz Great White ser parte das produções do primeiro grupo?

Mesmo que a direção de Martin Wilson falhe em alguns trechos, permitindo ao filme naufragar em momentos de marasmo, o horror ecológico escrito por Michael Boughen se diferencia das produções banais por trazer uma estrutura narrativa que não vulgariza o tema, trabalhando com os tubarões dentro de uma ótica mais próxima do realismo, da busca pelo tratamento dos conflitos com tensão, sem tempo para piadas, excesso de efeitos visuais ruins e diálogos pífios, como geralmente ocorre com as produções do segundo grupo. Não há mutações causadas por despejo de produtos químicos ou experiências laboratoriais. O que temos aqui é um acidente de hidroplano que abre precedente para deixar quatro personagens à deriva numa região de recifes australianos, local distante de tudo, com comunicação limitada, zona patrulhada por tubarões-brancos aparentemente sedentos por alimento, haja vista a parca oferta de comida, causada por questões ambientais, etc.

Compõem o grupo: Kaz (Katrina Bowden) e Charlie (Aaron Jakubenko), casal que atua como guia de viagem pela região, acompanhados de Benny (Te Kohe Tuhaka). Na missão que ocasiona a crise, eles levam Joji (Tim Kano) e Michelle (Kimie Tsukakoshi) para visitar o lugar distante. Interessada em jogar as cinzas de um ente familiar que tinha memórias fortes da região, Michelle logo é tomada pela sensação de pavor ao contemplar um cadáver trazido pela maré, abandonado na paradisíaca praia. Aparentemente devorado em partes por uma criatura marinha, o corpo é o primeiro catalisador de tensão, pois junto dos restos há um celular ainda carregado. A foto da tela inicial indica que o homem em questão não estava por ali sozinho. Enquanto Kaz, Charlie e Benny pretendem sobrevoar a área para tentar realizar o resgate da companhia do cadáver, o casal pagante não parece mais interessado em se manter na região. Esse confronto de interesses gera alguma tensão, mas nada suficientemente trabalhado para ampliar o tom dramático do filme que permanece o tempo todo com os nervos dos personagens dosados por um estranho equilíbrio emocional diante de uma situação tão adversa. Aqui, o roteiro deveria trabalhar melhor.

Logo, eles partem para o hidroavião e o inesperado acontece. Sofrem um acidente, caem nas perigosas águas e enquanto o único meio viável de torno para o continente afunda, transferem o que podem para um bote que será o meio de manutenção da sobrevivência. O grupo descobre que nos destroços do barco que mantinha o casal que aparece na abertura do filme, há o cadáver flutuante da companheira do cadáver encontrado na praia. Vitimados por tubarões-brancos famintos e tomados por muita fúria, os personagens batalham para não morrer, mas logicamente, o roteiro que nos pede vários momentos de suspensão da descrença cria a sua trilha de corpos, com ataques discretos, trabalhados com truques para disfarçar o orçamento moderado para efeitos visuais e animatrônicos que permitissem uma permanência maior dos tubarões em cena. As criaturas aparecem, mas poderiam ser mais participativas, haja vista a necessidade de manter visível a ameaça que nos convence sobre os perigos enfrentados pelo grupo.

Como prega a cartilha do subgênero, diferenças criarão conflitos no bote, numa narrativa que falha em ser menos dinâmica que o esperado e óbvia demais em seu desenvolvimento pouco criativo. Ainda assim, a direção de fotografia de Tony O’Loughan produz imagens subaquáticas com boa qualidade para manutenção da tensão em alguns (poucos) trechos de fazer roer as unhas, momentos de temor ampliados com a textura percussiva de Tim Count na trilha sonora. Um filme que reforça a minha tese sobre tubarões, exorcismos e assassinos mascarados no cinema, projeto que chamo de A Persistência da Memória. Até quando os tubarões estarão em cena? Pelo que podemos observar nas chamadas de lançamentos futuros, há ao menos quatro filmes de porte médio sobre estas feras marinhas. Pelo que podemos vislumbrar neste panorama, os tubarões continuarão persistentes no bojo da nossa memória cultural coletiva.

Grande Tubarão Branco (Great White) — Austrália, 2021.
Direção: Martin Wilson
Roteiro: Michael Boughen
Elenco: Katrina Bowden, Aaron Jakubenko, Tim Kano, Kimie Tsukakoshi, Te Kohe Tuhaka
Duração: 98 min.

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