Crítica | Tubarão Parte 2 – Edição Bem-Humorada, de Luís Fernando Veríssimo (org.)

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A paródia é um recurso da linguagem que permite aos seres humanos o debate humorado sobre determinadas enunciações artísticas e eventos sociais. Para funcionar, torna-se muito importante que o interpretador conheça o código, pois sem isso, o processo não se completa entre emissor e receptor. Lançada em 1977, Tubarão Parte 2 – Edição Bem-Humorada é uma coletânea de crônicas, charges e tirinhas que satirizam o fenômeno Tubarão, de Steven Spielberg. Logo de cara, o material parece bem interessante. A capa de Edgar Vasques realiza um trabalho eficiente ao emular elementos do cartaz original e transformá-lo para a proposta.

Organizado por Luís Fernando Veríssimo, nome de maior destaque na publicação, acompanhado de outros tantos, dentre eles, críticos de cinema, escritores e humoristas brasileiros, o livro possui um feixe gigantesco de altos e baixos. Alguns textos são bem intrigantes, divertidos, mas por se tratar de uma sátira, seria necessário haver compromisso dos envolvidos em selecionar textos que fossem em sua totalidade, engraçados e atraentes. É o que não acontece em mais da metade do material, aparentemente inofensivo até o momento em que as piadas xenofóbicas e raciais ganham espaço e comprovam a dificuldade do grupo em produzir humor sem ser grosseiro.

Na abertura, o grupo recorre ao verbete “tubarão”, pesquisado no Pequeno Dicionário da Língua Portuguesa, de Aurélio Buarque de Hollanda. Destacado, o excerto informa que é a designação genérica dos grandes seláquios, mas também um vocábulo que faz referência ao comerciante ganancioso no bojo da indústria, interessado em sempre aumentar os seus lucros. Até o momento, nada demais. Somos apresentados aos autores brevemente, numa folha de rosto divertida, com uma imagem de alguns homens em busca de um tubarão submerso para acertá-lo com as suas armas, lápis e canetas transformados em arpões. Um jogo de imagens preambulares instigantes.

Adiante, temos a apresentação, com um breve texto que expõe os interesses dos envolvidos: flertar de forma humorada com o filme de Spielberg, material que segundo exposto, “é uma história razoável com truques engenhosos, investimentos em milhões de dólares e um dos maiores fenômenos de bilheteria do século”. Munidos por suas armas, isto é, pinceis e máquinas de datilografar, eles garantem que envolverão o leitor no outro lado “da gozação da história”. Os trabalhos começam com o chargista e caricaturista Edgar Vasques, autor de diversos livros e com experiência como ilustrador no jornal Folha da Manhã.

Suas charges e ilustrações apresentam Moby Dick a questionar, numa poltrona de diretor de cinema, munida de uma bengala, o talento das antigas gerações, num divertido flerte entre a ideia de arte e indústria. Seria, então, a baleia do romance de Melville a arte requintada, enquanto o filme de Spielberg apenas uma obra de entretenimento? Noutro trecho, o ilustrador apresenta um tubarão “real” observando o gigantesco Bruce do filme e o chamando de cyborg, algo farsante. Depois de Vasques, o crítico de cinema Luiz Carlos Merten, também oriundo do jornal Folha da Manhã, além da experiência no Diário de Notícias, entrega ao leitor uma crítica negativa ao filme de Spielberg, tratada como uma produção grandiosa, mas supostamente vazia.

Depois, o chargista Ronaldo Westermann traça algumas imagens extremamente fracas, sem graça alguma. Ele relaciona o tubarão do filme com empresários, faz algumas conexões forçadas, mas não alcança êxito diante do que já fora apresentado anteriormente no material de Edgar Vasques. Luís Fernando Veríssimo é o próximo. Jornalista e escritor que dispensam grandes apresentações, sua participação no livro está dividida entre imagens e textos. Há uma paródia do filme na crônica Garras, proposta para a realização de um filme do tema aqui no Brasil, dentro de nossas condições industriais. O autor também investe em algumas tirinhas e charges pouco expressivas, acompanhadas por uma suposta enquete sobre pessoas após uma sessão do filme.

Roberto Canini, desenhista da Editora Abril, também entrega algumas ilustrações bem inexpressivas, seguido de José Guaraci Fraga, outro membro do jornal Folha da Manhã, responsável por imagens com um pouco mais de graça. A tradicional imagem da marca Emulsão Scott é modificada, com um tubarão no lugar do enorme atum carregado pelo pescador. E só. As demais são apenas mais engraçadinhas que os anteriores. Quem dá continuidade é o cartunista Francisco Juska Júnior, do Jornal da Manhã, presença menos interessante por trabalhar dando voltas em irritantes estereótipos, como um tubarão que evita comer uma vítima por ser um nordestino, imagem grotesca de alguém desdentado, com aparência esfomeada, etc. Um horror.

Renato Pereira, da TV Excelsior, assina um artigo de opinião sobre o fenômeno midiático em torno de Tubarão, bem como algumas paródias em formato de conto, estruturado de maneira ainda mais reduzida que o padrão do gênero literário, todas cheias de boas intenções, focados na relação entre a fera marinha e outros animais. O esforço, no entanto, não foi suficiente para a inexpressiva abordagem literária fraca e sem inspiração suficiente para justificar a sua presença na publicação. Chargista da Zero-Hora, Marco Aurélio também entrega um conjunto de charges bem razoáveis, menos interessantes que o material ofertado por Sérgio Batsow, do mesmo veículo de comunicação, mais talentoso ao relacionar o mito Tubarão com o herói Shazam em sua primeira imagem. As demais são bem simplórias, tal como a produção de Santiago, que encerra o livro, conteúdo pouco interessante e razoavelmente humorado.

Ademais, o que podemos considerar é que Tubarão Parte 2 – Edição Bem-Humorada é uma coletânea que mergulha no humor para ridicularizar o filme que quatro décadas depois, ainda é uma referência importante para compreensão dos anos 1970, bem como um guia impecável de expressão da linguagem cinematográfica, algo visto aqui apenas como uma produção de grande orçamento, mas aparente pouco valor artístico. Com mais baixos que altos, a publicação apresenta grandes nomes do humor no jornalismo brasileiro dos anos 1980 e 1990, todos com crise de inspiração, afinal, se o interesse é criticar por meio da charge e da caricatura, não é preciso apenas a conexão entre emissores e receptores em relação ao conteúdo do código. É preciso ter a mínima graça, não é mesmo?

Tubarão Parte 2 – Edição Bem-Humorada (Brasil, 1977)
Autores: Luís Fernando Veríssimo, Luiz Carlos Merten, Edgar Vasques
Editora: LPM
Páginas: 126

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.