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Crítica | Tubarão – Um Relato Sobre a Depressão, de Pablo Diego Garcia

por Leonardo Campos
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A depressão é um dos principais males dos últimos tempos e com o advento da democratização da informação e do conhecimento na internet e nas redes sociais, passou a ser melhor compreendida por muita gente que sequer entendia os mecanismos devastadores que engendram a sua ação na vida de um ser humano. Por outro lado, neste esquema de informação mais fácil, há um processo de banalização da doença, constantemente debatida por pessoas sem qualquer especialização no assunto. Se há um momento de menor expressão de sentimentos, a pessoa já é diagnosticada por amigos, conhecidos e até mesmo por psiquiatras sem gabarito, afoitos pela quantidade de atendimentos diários, em detrimento da qualidade dos mesmos.

Essa última afirmação, inclusive, não é baseada em relato algum da internet ou do texto Tubarão – Um Relato Sobre a Depressão, do jovem e talentoso dramaturgo Pablo Diego Garcia. É algo baseado numa experiência minha, compartilhada por outras pessoas que já passaram ou ainda atravessam as agruras desse caminho perverso que a vida impõe para alguns indivíduos, situação que não pode ser explicada de maneira exata para todos os seus casos, haja vista as peculiaridades no enraizamento desta celeuma na vida de cada pessoa acometida pela situação. A figura do homem no meio do oceano, perturbado por uma força da natureza que pretende fazê-lo se atirar ao mar e largar tudo traz reminiscências de Hemingway em O Velho e o Mar, mesmo que o autor da peça teatral sequer saiba disso, tamanha a presença do clássico literário no imaginário cultural.

O que se sabe é que a depressão é um mal bastante conceituado na mídia e na produção cultural, mas deturpado por muita gente. Quando uma pessoa desinformada se depara com o perfil do Instagram do autor deste livro, a reação é imediata. Como pode? Ele é um cara bonito, cheio de vida, sempre alegre nas fotos, pode ter o relacionamento que quiser a qualquer momento, está dentro dos padrões de beleza e no que a sociedade convencionou a chamar de “gato”, dentre outras tantas aparentes, mas que não traduzem a realidade dos fatos. Pablo Diego Garcia produz teatro, demonstra amplitude em conhecimentos gerais, isto é, parece uma pessoa bem informada, culta, com os devidos códigos para transpassar por diversos espaços da esfera social cotidiana. Na exibição de seu sorriso nas imagens que circulam em suas redes sociais e nalguns textos sobre o seu trabalho na internet, a depressão é a última coisa que passa pela cabeça de um leitor desavisado. Mas ela estava lá, aparentemente não mais, no entanto, em constante trabalho de afastamento. O autor deixa a entender que venceu o processo em sua alegórica jornada de 39 páginas, descritas com sinceridade em Tubarão – Um Relato Sobre a Depressão.

Ainda em processo de transposição para o suporte físico, a publicação veiculada pela Amazon Kindle nos apresenta o texto em seu estado bruto, mas já publicado. Há alguma necessidade de revisão entre um ponto e outro, mas a semântica estrutural se encontra impecável. Ele expõe a sua história, mas trata de experiências que dialogam com problemas da coletividade. As cobranças, as pressões, as mudanças de valores, dentre outros esquemas que tecem a malha da vida cotidiana, numa tessitura perversa que nem todos conseguem dar conta de acompanhar. Escrita para expurgar o seu histórico, o texto para ser encenado por um único personagem também é repleto de rubricas diluídas em cada exposição do personagem, num monólogo interno intenso e poderoso, que acaba exatamente no momento certo, sem se deixar perder pela ambição de filosofar mais e acabar tornando o material ambiciosamente dispersivo demais. No texto, acompanhamos a trajetória de uma pessoa em luta contra uma força vertiginosamente, mais firme que a nossa vontade de continuar a viver. Será no embate entre as suas energias e os impactos da depressão que ameaça arruinar a sua vida que Tubarão – Um Relato Sobre a Depressão se desenvolve.

O animal escolhido não podia ser melhor: o tubarão, criatura marinha conhecida pelos hábitos solitários, pela constante travessia, por não parar e sempre estar em busca de algo. Ele é alegoria da ansiedade do autor, mas também é a fera que metaforiza a depressão, presente no mar onde o personagem se encontra à deriva. Das profundezas, ele emerge constantemente, num aviso rotineiro sobre a sua presença, interessado em destruir a embarcação. O tubarão, tal como o imaginário popular secular em torno das criaturas marinhas misteriosas, representa o monstro devorador da vida, o ser disposto a estraçalhar qualquer esperança de um homem perdido em meio a finitude do oceano. Ele é tratado fisicamente, num ótimo jogo semiótico do dramaturgo, mas carece de mais presença em cena, ainda que alegoricamente, para nos fazer mais próximos da sensação de horror que um problema de ordem psicológica causa na vida de um ser humano.

Em sua travessia poética e metafórica, o animal marinho mais poderoso dos oceanos, ao menos no bojo da ficção, aparece muito menos do que deveria, mas não atrapalha Pablo Diego Garcia na condução da sua mensagem de empoderamento diante de algo que parece bem mais forte do que nós mesmos. O texto ainda é larva, pronta para se metamorfosear e se transformar num belo espetáculo, algo que diante de uma direção firme e na interpretação de um ator qualificado, imersivo e equilibrado, pode se tornar uma peça inesquecível para a sua plateia. Sem apelar para o drama fácil, com as frases de efeito de uma “palestra coach”, o texto de Garcia foi escrito com simplicidade, como algo extraído de dentro de si, sem apelar para construções artificiais e banais sobre os impactos da depressão em sua trajetória, material que poderia ter ganhado outro caminho se não tivesse encontrado alguém sensato para o desenvolvimento textual teatral. Ao falar de sua história sem romantizar as coisas, o autor traduz a sua trajetória numa escrita confessional e poderosa, algo que conforme mencionado, precisa ir para os palcos com uma produção cuidadosa para não se perder na imensidão do oceano de ideias expostas. Ah, e ter uma cenografia magnética, claro!

Tubarão – Um Relato Sobre Depressão (Brasil, 2020)
Autor: Pablo Diego Garcia
Editora: Amazon Kindle
Páginas: 39

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