Crítica | Tudo Bem Quando Termina Bem / Bem Está o que Bem Acaba (1981)

estrelas 3,5

Diz a classificação literária mais aceita que Tudo Bem Quando Termina Bem é uma comédia de Shakespeare, embora haja uma parte dos estudiosos que negue essa classificação. O fato é que de comédia essa peça não tem nada. As situações estão mais para o drama e a tragédia, levando em consideração o luto, a doença, o desamor, o abandono e um sem-número de tristezas que vemos aparecer no decorrer dos atos.

A “vítima” de todas as dores é, mais uma vez, a mulher, e a maior desafortunada aqui é Helena, a jovem que consegue um feito incomum para o seu tempo (poder escolher o próprio marido) e ao fazê-lo, recebe o imediato desprezo e ódio do amado, que prefere ir para a guerra e perder os favores do rei a ter que desposá-la. O texto de Shakespeare acompanha, dentre outras pequenas e nada interessantes cenas de ligação, a via crucis de Helena para conquistar seu marido fujão, um feito que ao término da peça parece ter encontrado um resultado absurdamente artificial e uma espécie de conformismo trágico por parte do execrável Bertram.

A despeito da minha extrema antipatia em relação ao original, devo dizer que a montagem de Elijah Moshinsky para a série da BBC conseguiu contornar todo o lado insosso da peça, dando uma graça que não encontrei em nenhuma das duas leituras que fiz da obra, num espaço de alguns anos entre elas.

Em primeiro lugar, a caracterização das personagens e dos espaços cênicos na França e na Itália foram bem resolvidos pelo diretor com toques sutis na fotografia, opção por filmagens em internas (o que precisou de uma adaptação ou outra em relação ao cenário exposto na peça, mas nada tão diferente) e excelentes figurinos, especialmente para a corte francesa.

Como se trata de uma peça com pequenos episódios em diferentes lugares, essa adaptação seguiu o mesmo modelo de passagem, fazendo uso de uma edição que claramente indicava uma interrupção entre o fim de um bloco cênico e o início de outro. O fade foi o modelo básico utilizado na montagem, mas em nenhum momento se torna maçante para o espectador, que entende seu uso e vê nele uma forma orgânica e interessante de movimento entre os espaços da peça, que são muitos – e esse é um dos grandes problemas da obra original, acontecendo em muitos lugares e contando com cenas que não fariam falta se não existissem ali.

Infelizmente, nem todas as atuações dessa adaptação são boas. Talvez a apresentação mais fraca venha de Angela Down, que dá vida à desafortunada Helena. Mesmo vendo-a captar a essência da personagem, sua inexpressividade, fala extremamente mansa e subserviência me enjoam, exatamente como a personagem da peça. Mas ela tem um grande valor nas cenas dramáticas, com destaque para o seu único momento brilhante, a primeira entrevista com o rei, ainda convalescendo de uma doença mortal.

Tudo Bem Quando Termina Bem, ou, em outro título, Bem Está o Que Bem Acaba, é uma dramédia pouco inspirada de Shakespeare, uma de suas piores obras. A adaptação feita por Moshinsky trouxe cores e ânimo maiores para o texto original, que bem encenado, mostrou-se mais palatável, mas ainda manteve o amargo gosto do original, especialmente naquilo que se constitui o motor da obra: os dissabores de Helena para forçar através da honra (um golpe baixo) seu marido que lhe odiava, a aceitá-la, uma conquista que termina com cara de final feliz, mas, na minha visão, alguém tão desprezível e cínico como Bertram jamais se submeteria muito tempo àquela situação de esposo amoroso e fiel. Eis um dilema dramatúrgico.

Tudo Bem Quando Termina Bem (All’s Well That Ends Well) – Reino Unido, 1981
Direção:
Elijah Moshinsky
Roteiro: William Shakespeare
Elenco: Celia Johnson, Ian Charleson, Michael Hordern, Angela Down, Peter Jeffrey, Kevin Stoney, Donald Sinden, Robert Lindsay, Dominic Jephcott, Paul Brooke, Rosemary Leach, Pippa Guard, Joolia Cappleman.
Duração: 141 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.