Crítica | Tudo o Que Tivemos

“É esse o meu bebê?”

Outro projeto cinematográfico a explorar os sentimentos que percorrem a convivência com uma pessoa condicionada ao Alzheimer, Tudo o Que Tivemos apresenta impasses interessantes a uma rotina tão frustrante. Há uma visão conservadora, mas não menos verdadeira, no amor que Bert (Robert Foster) nutre por Ruth (Blythe Danner). O marido precisa enfrentar as suas próprias convicções no cuidado de sua querida esposa. Ele não quer enviá-la para um outro lugar, onde seria tratada com mais objetividade e segurança, porque encara como seu dever manter o amor, que carrega há décadas pela esposa, até os seus últimos segundos. Nesse meio tempo, portanto entram os filhos do casal, pensando que poderão mudar a cabeça do pai. Tudo o Que Tivemos, paralelamente a isso, encaminhará jornadas mais pessoais a cada um dos membros dessa família.

Nesse passo, a obra sustenta-se muito mais nas pessoas em volta de Ruth do que em Ruth em si, vivendo estágios já um pouco avançados da doença. Assim sendo, quando a personagem possui momentos de claridade, Elizabeth Chomko, responsável tanto pela direção quanto pelo roteiro, dá muita atenção à reação dos demais atores. Blythe Danner, por sua vez, consegue desses instantes rápidos extrair uma interpretação que vai além das camadas mais caricatas de interpretar uma senhora esquecida. Em contrapartida a isso, existe um pouco de redundância nas passagens usadas para evidenciar a perda progressiva de memória de Ruth. Mas ao menos Chomko as usa para, acima de tudo, pensar o que será daqueles em volta da mulher quando ela não conseguir mais reaver nem um traço sequer de seu passado. Tudo o que tivemos se esvairá caso esquecido?

O maior problema de Tudo o Que Tivemos, contudo, reside em não conseguir consolidar com toda a potência possível um questionamento aos vínculos entre os membros dessa família desunida. Other People, por exemplo, um projeto recente que trabalhou o câncer dentro desse mesmo espaço, soube pincelar melhor suas intenções e questões mediante um prenúncio fúnebre. Se Elizabeth Chomko não tem muito senso de progressão narrativa ou até mesmo construção de uma tristeza compartilhada que une uma família, ao menos a cineasta possui sensibilidade o suficiente para explorar as nuances de significados abstratos, como memória. Os enquadramentos, em planos mais fechados, que unem Britty (Hilary Swank) de sua mãe resgatam a dimensão do amor que existe na ocasião. Mas pouco ultrapassa isso, no entanto, e Michael Shannon é desperdiçado.

Essas tentativas do longa-metragem em adentrar na intimidade da sua protagonista também fracassam consideravelmente. Os problemas começam pelo roteiro, em primeira instância, que apresenta uma vertente psicológica da personagem de maneira um tanto expositiva. Contudo, enquadramentos como os mostrados mais para frente no enredo conversariam por si só com o espectador, apresentando competentemente o cerne da questão: Bridget sentindo-se só. Por exemplo, quando a personagem retorna para sua casa, cenas mostram o seu cotidiano, em que está longe do marido. Os membros de uma família, no caso, estão separados e sozinhos, mesmo que sentados em uma mesma mesa de jantar. Com isso, o filme enfoca-se em demasia num dos seus menos interessantes pontos. O amor e as conexões que relembram o passado perdem peso.

Vendo por uma outra instância, é o relacionamento entre os pais de Britty que engrandece o material. Elizabeth Chomko usa bem da problemática e, consequentemente, do confronto que norteia os personagens para nos notificar imediatamente de uma dependência enorme que Bert tem de Ruth – ou seja, o quanto significa o tudo que tiveram. O seu gracioso roteiro é abarrotado de cenas mais tocantes, com um texto pontualmente afiado, que são usadas com muita eficiência. Desenvolve-se um vínculo pessoal entre o público e a obra – mas, às vezes, complementado por uma trilha-sonora excessivamente intrusiva. O que importa são as pessoas e memórias, mesmo aquelas já esquecidas por um ou outro alguém. Elas permanecem existindo no olhar de uma pessoa a outra, um parente ao outro, pois é um olhar carregado de passado e carregado de amor.

Tudo o Que Tivemos (What They Had) – EUA, 2018
Direção: Elizabeth Chomko
Roteiro: Elizabeth Chomko
Elenco: Hilary Swank, Michael Shannon, Robert Forster, Blythe Danner, Taissa Farmiga, Aimee Garcia, Josh Lucas, Jay Montepare, Jennifer Robideau
Duração: 101 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.