Crítica | Tudo o que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo, Mas Tinha Medo de Perguntar

Introdutório no universo de Woody Allen, Tudo O Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo, Mas Tinha Medo de Perguntar é um ensaio do cineasta para o estilo de humor adotado nas décadas seguintes, algo ainda preambular em 1972, no entanto, não menos interessante. Conferido no contemporâneo de quem reflete a produção em 2020, a estrutura demonstra algum envelhecimento e determinadas “esquetes” que costuram o conjunto formado por sete histórias ao longo dos breves 87 minutos do filme. Dirigido por Allen, subsidiado pelo roteiro inspirado no livro homônimo de David Reuben, acompanhamos o cineasta também na posição de ator, um desempenho cômico que ajuda a narrativa a se tornar mais carismática e divertida. Logo em sua abertura, os coelhos pululantes, animais que sabemos, “amam atividade reprodutiva”, enchem a tela e descortinam as hilárias sequências que vão da Idade Média ao mundo moderno, seguidos da canção Let´s Misbehave, de Cole Poter, presença frequente na filmografia do diretor.

Primeira história: Os Afrodisíacos Funcionam? Woody Allen interpreta um homem envolto numa situação com a sua rainha e uma poção mágica. Aqui, a sátira ao inglês arcaico e aos tempos de Shakespeare é evidente, preparo para O Que é Sodomia? Na segunda esquete, fora do ambiente medieval, uma das mais famosas e rememoradas na história do cineasta, temos um médico que adentra numa duvidosa vida entregue aos desejos da zoofilia, tendo uma ovelha como sua companheira sexual. Interpretado por Gene Wilder, talentoso comediante, essa é uma das sequências que mais empolgam. Por Que Algumas Mulheres Tem Problema de Orgasmo? Polêmico para os dias atuais, o conteúdo flerta com o erotismo italiano e tem como ponto nevrálgico uma mulher supostamente frígida, mas que consegue ter orgasmos em situações em público. Nos desdobramentos seguintes, temos Os Travestis São Homossexuais? É outra abordagem polêmica, fruto de sua época, hoje questionável até mesmo pelo artigo inicial “o”, corrigido para “a” numa versão atualizada, mas que também poderia distorcer o contexto da história que talvez tenha uma nomenclatura pantanosa.

O Que São Perversões? Esse é o mote filmado em preto e branco da quinta sequência de Tudo O Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo, Mas Tinha Medo de Perguntar, com o seguinte enredo: um programa de televisão traz uma banca que precisa adivinhar qual a perversão sexual do convidado, história que precede Os Experimentos e as Pesquisas Sobre Sexo Feitos pelos Cientistas Médicos São Válidos? Aqui, de maneira divertida e exagerada, Woody Allen flerta com um pesquisador e uma jornalista que descobrem experiências científicas bizarras, numa alusão clara aos filmes de Ed Wood, com direito ao famoso seio gigantesco. Por fim, temos O Que Acontece Durante a Ejaculação? É o segmento que divide o palco do prêmio de melhor trecho do filme inteiro, com Woody Allen dando um show de histrionismo ao parodiar o interior do corpo humano numa perspectiva NASA, com a representação do ato sexual, do coito perfeito ao gigantesco embate dos espermatozoides em busca da fecundação. Tony Randall e Burt Reynolds dividem o segmento com Woody Allen e o resultado é satisfatório e além da média dos demais conteúdos, num filme que ainda apresentava o cineasta em fase de trabalho de conclusão de graduação, sem o vislumbre estético e intelectual de imagens, diálogos e conflitos de um doutor em linguagem cinematográfica, técnica que dominou ao passo que evoluiu, ao longo dos anos e das experimentações, enquanto diretor, roteirista e ator.

Mesmo nas histórias mais fracas, desniveladas por momentos inesquecíveis em paralelo aos trechos sem bom tempero humorístico, Tudo O Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo, Mas Tinha Medo de Perguntar traz um elenco num timing perfeito, bem conduzidos pela direção sempre marcante de Woody Allen, aqui verborrágico, tomado pelas neuroses que marcaram o seu cinema e desempenho dramático durante bastante tempo. Uma característica específica de sua grife ainda em processo de inicialização, com David M. Walsh na direção de fotografia, dedicada na missão de captar os melhores ângulos e movimentações dos personagens circundantes no design de produção de Dale Hennesy, comedido por questões orçamentárias, mas eficiente no propósito de transformar o conteúdo visual do roteiro pertinentes no contexto de cada segmento da narrativa. Chuck Gaspar, nos efeitos especiais, ajudou o cineasta na missão escabrosa de criar o seio gigante que tal como na ficção, pareceu ganhar vida própria e se tornou um caos nos bastidores, algo que quase foi cortado da versão final, segundo Woody Allen.

Os figurinos também funcionam muito bem, assinados por Ornie Lipen (masculinos) e G. Fern Weber (femininos), trajes que expõem de maneira exuberante as necessidades dramáticas dos personagens. Trabalhados numa linha de representação farsesca, os capítulos do livro de Reuben ganham uma tradução intersemiótica cheia de momentos de deboche, estilizadas por quem domina o campo da comédia inteligente, com espaço para o diletantismo sem o chamado desligamento do cérebro. Expressão comum para as pessoas que buscam se entreter supostamente sem “pensar sobre”, algo que sabemos, é questionável, pois impossível não pensar o “mínimo” enquanto se é espectador de qualquer filme, sejam as narrativas de Woody Allen ou as comédias românticas hollywoodianas. Esse estigma em torno da comédia, algo desde Aristóteles, ainda prossegue no presente, a tal crença da impossibilidade de reflexão no campo do humor, algo que o próprio cineasta, num olhar revisionista de sua carreira em Conversas Com Woody Allen, revela quando traça um panorama sobre os seus filmes dramáticos e cômicos. Algo para reflexão, concordam?

Tudo o que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo, Mas Tinha Medo de Perguntar (Everything You Always Wanted to Know About Sex * But Were Afraid to Ask – EUA, 1972)
Direção:
Woody Allen
Roteiro:
Woody Allen
Elenco:
Woody Allen, Gene Wilder, Louise Lasser, John Carradine, Louise Lasser, Anthony Quayle
Duração:
88 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.