Crítica | Tudo Que Quero

Tudo que Quero (2017) plano critico

Baseando-se em sua própria peça de teatro, Michael Golamco escreveu em Tudo que Quero (2017) uma história muito importante sobre uma jovem autista chamada Wendy (muito bem interpretada por Dakota Fanning), que deseja participar de um concurso para novos roteiros de Star Trek, promovido pela Paramount Pictures. Focando especificamente em uma viagem ao Deep Space Nine, Wendy concebe uma bela história, ligada às limitações sociais de Spock e sua grande lealdade aos amigos, assim como a sua necessidade de independência e descobertas pessoais, tudo isso em uma realidade diferente e absurdamente assustadora para ele, exatamente o que se passava com a autora da obra naquele momento.

O roteiro de Golamco não dá muito tempo para abstrair o cenário. Passamos imediatamente para a rotina da personagem de Dakota Fanning, que em muitos aspectos se assemelha a de um outro filme que aborda um personagem com comportamento alheio ao padrão social, o Ned de Sun Dogs (2017). Através da personagem de Toni Collette, presenciamos o treinamento ou tratamento comportamental de Wendy, tanto no controle de seus ataques de raiva quanto na forma como ela deve lidar com adversidades no mundo. A direção de Ben Lewin faz um bom trabalho nesse início, criando um bom uso do cenário e da forma como Wendy se insere nele. Não há quase nenhum momento de estranheza ou rejeição por parte do espectador, mesmo tendo poucos detalhes da trama para fixar os pés. Os problemas, de fato, só viriam mais adiante.

Enquanto mostra cenas do dia a dia da protagonista e sua forma peculiar de lidar com a realidade — é lícito dizer que o roteiro poderia ter investido muito mais nisso do que em imensas coincidências e semi-milagres, como faz no desenvolvimento da fita –, o diretor se sai bem. Os grandes impasses narrativos começam a acontecer quando a jornada de Wendy até a Paramount se torna um sinal verde para as mais absurdas coincidências de roteiro, a ponto de o espectador ser afastado do drama porque não consegue comprar o tipo de encontros com pessoas e coisas que vão ajudar a jovem no caminho. Nem a trilha sonora usada como espetáculo, nem a fotografia ou abordagem road movie do segundo ato mudam essa impressão. Para um tema tão sério e para um tratamento conceitualmente realista, como é a intenção aqui, essas facilidades diminuem a força da história, abrindo as portas para coisas igualmente questionáveis, como a inserção praticamente nula do filho de Scottie e a posição de Audrey em relação à irmã.

O grande trunfo em Tudo Que Quero é a maneira tocante com que o sonho é perseguido pela protagonista, a despeito de seus problemas no desenvolvimento de linguagem, nos processos de comunicação e na interação social. Há uma relação bastante calorosa por parte de alguns coadjuvantes que aparecem no caminho de Wendy (o policial vivido por Patton Oswalt é o principal deles), e esse lado da trama, com pessoas que realmente se importam em ajudar a quem precisa (De Encontro Com a Vida, um filme da mesma safra que Tudo Que Quero — e que indico fortemente para quem gostou da temática aqui –, também traz esse tipo de relação) fazem da obra um feel good com boa dose de realismo e, ao menos no desfecho, sem exageros de vitórias impossíveis. Um filme para entender diferenças, para dialogar com limitações e para falar de gentilezas.

Tudo que Quero (Please Stand By) — EUA, 2017
Direção: Ben Lewin
Roteiro: Michael Golamco
Elenco: Dakota Fanning, Toni Collette, Alice Eve, River Alexander, Marla Gibbs, Jessica Rothe, Michael Stahl-David, Stephanie Allynne, Matty Cardarople, Matt Corboy, B Z Cullins, William Stanford Davis, Elaine Anne Furst, Edward Hong, Heath McGough, Patton Oswalt, Tony Revolori, Robin Weigert
Duração: 93 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.