Crítica | Turma da Mônica: Laços (2019)

“A gente é ou não é a Turma da Mônica?
Não, a gente é a Turma do Cebolinha.”

Uma reencarnação cinematográfica dos quadrinhos da Turma da Mônica está mais preocupada em se vender do que em criar, visto que a criação de um produto é mais urgente, nesse sentido, que a criação de uma obra de arte. Em muitos casos parecidos com esse, no que tange transpor marcas populares ao cinema, gera-se um resultado em suma preguiçoso, mesmo sendo certeiro no que o mercado, enfim, quer que os seus espectadores consumam. Os vieses comerciais principiam, por exemplo, um apreço pela nostalgia. Esse é um dos principais motores para um projeto, atualmente, começar sua jornada, quer seja uma nostalgia vazia ou uma que se consolida como parte de uma empreitada nova, revigorante e verdadeiramente única. Os quatro integrantes do clássico grupo ganham aqui reproduções em carne e osso, complementadas por trajes similares e coloridos. Os rostos reais das caricaturas que amamos, geração a geração, estampam pôsteres. Tais visuais garantiriam a venda, mesmo sem conteúdo – o que, pelos poderes de Sansão, não é o caso. Mas esse reencenamento que a adaptação para o cinema promove já passa por uma outra revisão, anterior à cinemática. Um primeiro passo para a Turma da Mônica não ser vista nas telonas em meio a um universo genérico ou sem gosto, entretanto, tão ímpar quanto o imaginário das pessoas.

Os personagens da adaptação para o cinema, na verdade, não são inspirados naqueles dos gibis mais populares, porém, nos apresentados por um projeto de quadrinhos autorais, a Graphic MSP. Homônimo ao longa-metragem em questão, o prestigiado Turma da Mônica: Laços, um romance gráfico, tornou-se rapidamente a opção principal para basear a primeira passagem da turminha de grandes amigos pelo cinema não-animado. Lá, os consagrados quadrinistas Lu Cafaggi e Victor Cafaggi reimaginaram, até com outros traços, os personagens originais de Maurício de Sousa, orquestrando uma abordagem intimista às desventuras de Mônica (Giulia Benite) e companhia pelas proximidades do Bairro do Limoeiro. Estando à procura do Floquinho, cachorro desaparecido de Cebolinha (Kevin Vechiatto), a premissa continua sendo a mesmíssima no longa, com Magali (Laura Rauseo) e Cascão (Gabriel Moreira) unindo-se à gangue. A maior mudança é a trama aumentada do antagonista misterioso, que parece o Pedro Pascal. O quarteto então parte em uma jornada mata adentro, que é permeada por presenças assustadoras e surpresas monstruosas. Em meio ao enredo, contudo, cada um dos quatro membros da Turma da Mônica – ou seria Turma do Cebolinha – confrontará as suas questões, aprendendo se é melhor construir laços ou amarrar nós.

Para a nossa sorte, o Bairro do Limoeiro, ambientação apresentada já nos primeiros minutos, está certamente representado com muito coração. Há, no longa, uma reverência constante ao universo de Maurício de Sousa, que encanta. Em uma mistura do realismo com o surrealismo, das verdades com as loucuras, esse mundo querido, que renasce nos cinemas, nunca descarta a fantasia para se tornar crível. Usam-se os trejeitos icônicos de personagens clássicos, suas tantas manias e características peculiares, para sustentar um conjunto que mistura os opostos: o excêntrico e o mundano. Cascão, a exemplo, não gosta mesmo de água, como nos gibis. Essa é uma noção acerca do personagem usada narrativamente, não apenas para ser comentada num caso ou outro. A mesma coisa acontece com Magali, usada como o “sujismundo” é, também sem pensar dramas sérios. Dessa maneira, as idiossincrasias são assumidas sem qualquer vergonha, mas para que, no fim das contas, culminem em uma verdade mais íntima, como em uma mensagem sobre amizade e compaixão. O mundo torna-se, na teoria, tão convidativo, instigante como promessa de magia, quanto sincero em sentimentos, porque a real mágica encontra-se nos relacionamentos. É uma pena, portanto, tais boas intenções não serem construídas com competência, pelos roteiristas.

O roteiro adaptado, primeiramente, não se preocupa com os arcos dos protagonistas. Embora recorrentemente parem de andar para alguma conversa acontecer, os meninos estão estagnados. Consequentemente a isso, a presença de Daniel Rezende mostra ser importante para remediar estragos. O cineasta, por sua vez, encontra poesia no caminhar dos jovens, mesmo enquanto os roteiristas esquecem de renovar os seus dramas e dar novos passos aos impasses pessoais. Tão importante quanto as aventuras vividas pelo quarteto é o que eles aprendem por fim, assim como as conexões criadas entre um e outro. Há questões até apresentadas, mas que são pessimamente argumentadas: como Cebolinha ser o amigo tóxico do grupo, que os outros amam mesmo o garoto tentando os afastar. Já Mônica, que é xingada pelo menino, reveste-se num casco aparentemente impermeável, mas que está rachando-se. Fora o sequestro, a turma tem, portanto, problemáticas internas. Contudo, o roteiro não consegue delinear tais tramas na narrativa. Para cada um destes personagens, assim sendo, cabem exageros que sofrem um processo de amenização e também engrandecimento – como o Sansão ser tão poderoso. Isso é mais presente, porém, na abordagem de Rezende a cenas específicas que em alguma compreensão, no roteiro, das nuances existentes.

O cineasta, enquanto o texto é expositivo, possui uma pegada mais permissiva a sugestões em como dirige. Em certas ocasiões, que mostram sua competência para visualizar as verdades em caricaturas, Daniel preocupa-se em estender cenas de cunho dramático por uns instantes a mais. Assim, permite os atores-mirins absorverem as emoções dos seus papéis, sentirem os pesos que carregam. Numa situação em que o seu personagem confronta Mônica, por exemplo, Vechiatto, muito passivo-agressivo, é capturado por um plano fechado que externa a insatisfação dos seus olhos. Porém, o momento mais impactante, no que tange a progressão dramática da jornada dos moleques, é a cena que desconstrói Mônica, pois parte de uma revisão humanista a noções antes vistas como místicas. Giulia, no mais, prova ser um excelente casting para Mônica, pois mistura agressividade com sarcasmo. Novamente, uma pena esses segmentos estarem espaçados em um enredo que não os constrói propriamente. Por que, ademais, os pais dos jovens são mostrados procurando os seus filhos, se em momento algum eles têm qualquer relevância para a história? E por que uma péssima música do Tiago Iorc precisa tocar? A trajetória e suas passagens expõem, naturalmente, um coleguismo sincero, sem precisar de canções sentimentalistas para se apoiarem.

Mas como auge de um entretenimento de primeiríssima mão, contrapondo questões dramáticas inoperantes, a sequência com o Louco (Rodrigo Santoro) exemplifica a competência de Rezende como reimaginador de uma mídia a outra. O longa, por isso, pode não sustentar uma aventura que convença ter impactado a Turma da Mônica, contudo, é enviesado ao espectador. Este segmento é merecedor de um comentário à parte, ao passo que também é um segmento um tanto à parte do restante da narrativa. Ou seja, mesmo com a pobreza do roteiro, que poderia usar o personagem como catapulta para uma transformação em Cebolinha – uma única mudança cronológica serviria -, Rezende consegue usufruir positivamente desta aparição episódica. A sua montagem é certeira, costurando plano a plano com um senso esquizofrênico que permanece permitindo a cena ser compreensível, ao mesmo tempo que é puramente uma maluquice só. O Louco, portanto, vai se teletransportando e confundindo Cebolinha, sem que o protagonista, por sua vez, precise comentar sobre as loucuras que presencia. Rodrigo Santoro interpreta o seu corpo com muita agilidade e espirituosidade, executando primorosamente uma caricatura, que é tão excessiva quanto a obra consegue ser. O realismo é misturado à magia em um longa, porém, que poderia nos enlaçar mais.

Turma da Mônica: Laços – Brasil, 2019
Direção: Daniel Rezende
Roteiro: Lu Cafaggi, Luiz Bolognesi, Thiago Dottori, Vitor Cafaggi
Elenco: Giulia Benite, Kevin Vechiatto, Laura Rauseo, Gabriel Moreira, Rodrigo Santoro, Paulo Vilhena, Monica Iozzi, Fafá Rennó, Ana Carolina Godoy, Angélica di Paula, Luiz Pacini, Beto Schultz, Adriano Paixão, Ravel Cabral, Ítalo Viana, Leandro Ramos
Duração: 97 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.