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Crítica | Turning Gate (Saenghwalui Balgyeon)

por Gabriel Zupiroli
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Hong Sang-soo é um cineasta que trabalha principalmente com situações dramáticas, amorosas e melancólicas. Sem se utilizar, no entanto, de uma encenação apelativa, que busca capturar o espectador através da convergência de elementos já batidos, o autor contrariamente opta quase sempre por uma mise-en-scène direta, alheia a muitos movimentos de câmera e à música, interessada sobretudo em uma posição observadora quase incômoda, que transfere o poder de julgamento praticamente apenas ao sujeito que consome a obra. Lançado em 2002, On the Occasion of Remembering the Turning Gate – que, sem um título brasileiro oficial é conhecido aqui apenas como Turning Gate – não foge à regra de sua elaboração e se debruça novamente sobre relações afetivas e sexuais contemporâneas de gosto agridoce, desinteressadas e que trazem uma melancolia árida à tela.

Partindo de uma trama simples e que se baseia nas tradicionais dualidades através das quais trabalha o cineasta, o filme acompanha Gyung-soo, um solitário e apático ator que, em uma viagem para visitar um velho amigo escritor, acaba por conhecer e se envolver com duas mulheres muito diferentes, Myung-suuk e Seon-young. Através de dinâmicas tão distantes de qualquer naturalidade que chegam a atingir uma plasticidade, os encontros entre o protagonista apartado de qualquer possibilidade de sentir se esclarece e traz, seguindo seu filme anterior, A Virgem Desnudada por Seus Celibatários, a característica destrutiva que cerca os relacionamentos contemporâneos.

Ainda que sem os zoom que viria a utilizar intensivamente no futuro, Turning Gate já carrega em seu semblante todo o espectro decadente e realista que está presente em todo o cinema de Sang-soo. Como um sucessor de seus filmes anteriores – e dessa vez apostando em uma lentidão maior ainda -, aqui o cineasta se interessa mais em adentrar o que reverbera na interioridade fragmentada e vazia daquele personagem, ao invés de se debruçar nos frutos das relações em si. Na primeira parte, desenvolve o romance não apenas vagarosamente, como também de forma mais crua, menos mediada pelo sentimento. Gyung-soo e Myung-suuk se encaixam como se carregando sentimentos opostos pautados por um desespero: para ela, o amor – sempre instantâneo – que surge do nada como chave de escape para sua própria solidão, e, para ele, a oportunidade de encontrar nesta parceira um envolvimento que o retire da nulidade sob a qual toda sua vida vinha acontecendo até então. Tudo isso reforçado pela câmera estática, aquela presença tímida, mas observadora, contendo alguns ângulos que, ao mesmo tempo que são banais, podem soar também estranhos ao olhar comum.

Já na segunda metade, Sang-soo elabora com mais fineza o romance em tela. Não apenas se desconecta daquela vagarosidade anterior, mas também subverte a própria primeira metade da narrativa – como o faz em diversos outros filmes – e coloca, agora, o protagonista na posição de portador de um amor espontâneo. Como se desarticulado pela infeliz relação anterior, Gyung-soo toma o papel da primeira amante para se tornar o sujeito desesperado e desestabilizado emocionalmente perante uma companheira que o corresponde, mas que carrega em si o signo da ilegalidade estampado em um casamento minimamente curioso.

Assim, o diretor articula duas dinâmicas afetivas quase numa esteira progressiva de acontecimentos. Evidenciando esse caráter destrutivo das relações que se desenvolvem sem o mínimo contato recíproco, joga o espectador diante da dualidade de maneira brusca, incômoda, ressaltando sempre o vazio que resta. O sexo, por exemplo, surge como um elemento de conexão claramente nocivo, sendo que se manifesta das duas vezes como fruto de encaixes forçados, de envolvimentos que, por partirem de personagem perdidos, não deveriam estar ali.

E Gyung-soo ecoa todo este vazio. Repete frases pretensamente filosóficas que ouve de outras pessoas para selar sua própria crueldade – “Mesmo sendo difícil ser um humano, não vamos nos transformar em monstros” – e escreve sua história como uma repetição do mito que ouve durante a primeira metade do longa. Na lenda do Portão do Regresso – o Turning Gate do título -, um plebeu é decapitado por um rei ao se apaixonar por sua filha. Entretanto, reencarna como uma cobra e se enrola no corpo da princesa, deixando-a à beira da morte. Após ouvir o conselho de um sacerdote, ela se dirige a um templo e promete à cobra que voltará com comida caso a espere, mas nunca retorna.

A cobra então decide adentrar o templo, mas sob forte tempestade que se inicia, foge rapidamente pelo portão denominado, agora, o Portão do Regresso. Gyung-soo encarna em si o espírito do plebeu ao se apaixonar por Seon-young, a mulher casada, que foge prometendo retornar, mas adentra o portão de sua casa. Sob a forte chuva, decide segui-la para, ao se deparar com tudo fechado, retornar a sua própria condição vazia. O que potencializa tudo isso é como o mito surge: não como mera ilustração, mas como consequência. Quase tudo no cinema de Sang-soo está conectado por uma lógica de ação e consequência, sempre moldando ações mediadas por uma violência sutil, mas intensa.

Turning Gate surge como um forte bloco em um cinema a se construir. Sucedendo positivamente seu filme anterior, o cineasta cada vez mais aprimora os meios pelos quais encena, sem deixar de experimentar com o formalismo da linguagem e procurar, assim, lapidar cada vez mais sua arte aparentemente desinteressada, mas paradoxalmente observadora e incisiva.

Turning Gate (Saenghwalui balgyeon) – Coreia do Sul, 2002
Direção: Hong Sang-soo
Roteiro: Hong Sang-soo
Elenco: Kim Sang-kyung, Choo Sang-mi, Ye Ji-won, Kim Hak-seon
Duração: 115 min.

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