Crítica | Tusk (1980)

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Todo diretor tem o seu pior filme, não é mesmo? E para o chileno Alejandro Jodorowsky, este posto pertence, sem sombra de dúvida, ao seu trabalho de retorno à França, lançado em 1980: Tusk. Jodorowsky começou sua carreira na naquele país, tendo inclusive dirigido ali um curta-metragem (A Gravata), mas mudou-se para o México e foi lá que se tornou conhecido, através dos seus dois principais longa, El Topo (1970) e A Montanha Sagrada (1973).

Um hiato de 7 anos separou A Montanha Sagrada de Tusk, período no qual o diretor esteve produzindo o que deveria ser “o mais incrível filme de todos os tempos”, a sua famosa não-executada versão de Duna. Como o projeto não avançou para os ‘finalmentes‘, o cineasta se engajou em outra realização, a adaptação — filmada na Índia — de Poo Lorn of the Elephants, fábula de Reginald Campbell. O roteiro aqui é Jodorowsky, escrito ao lado de Jeffrey O’Kelly e Nicholas Niciphor e nele vemos uma história que se passa na Índia colonizada pelos ingleses.

A abertura e os primeiros minutos do longa são ótimos. Sim, eles diferem de tudo o que o diretor tinha feito até aquele momento (já vi fazerem algumas comparações estéticas com Fando e Lis mas não concordo com isso não), no entanto, trazem uma interessante captura de realidade social e também mística, algo que será até que bem desenvolvido ao longo da fita, com belas doses de comédia e, infelizmente, entrecortada por uma linha narrativa de “bandidos locais”, numa pegada meio acid western que fica bem deslocada…

Também é importante deixar registrado que o diretor sempre trabalhou sob a premissa de “personagens buscando algo” e aqui isso também acontece, mas não de uma maneira óbvia. E talvez este seja o maior problema da obra, que inicialmente estabelece uma rica família britânica da qual John (Anton Diffring) é o líder, mas nada do que se vê como foco da principal dessa parte do enredo irá sobreviver à grande mudança final. Os componentes sociais são os que falam mais alto nesse momento da obra, mas isso também não é novo para o diretor. Quando presenciamos o nascimento de Elise (Cyrielle Clair) no mesmo dia do elefante a quem seria dado o nome de Tusk, e com quem Elise criaria uma íntima e misteriosa relação de empatia, o destino do filme nos parece claro e, acima de tudo, muito interessante.

As tomadas nas paisagens ao redor da casa colonial e o futuro conflito entre o ‘colonizador’ (pai) e a ‘nativa’ (filha) são o grande destaque da primeira hora da trama. Nesse espaço, é difícil o espectador odiar algo. Infelizmente, as cópias restantes desse filme estão em péssima qualidade (sua distribuição, por motivos compreensíveis, foi escassa), mas mesmo assim, vemos que o capricho visual do diretor se manteve. Até o congelamento em frames aquarelados, onde um bloco dá lugar a outro (e que irritam muito no começo do filme), começam a ficar mais interessantes e até necessários no miolo da obra. Tudo parece bem. Até que o americano de nome Richard (Christopher Mitchum) convence o patriarca John a uma empreitada de caçada de elefantes junto ao líder político local.

E é então que os dissabores do roteiro começam a aparecer em uma quantidade assustadoramente alta, levando o filme de uma boa fábula com tons místicos para o fundo do poço de uma novela insossa com história de amor e moral redentora para alguém que um dia já fora muito rico (e ao menos nesses aspectos, o mesmo poço no qual caiu Fritz Lang em seu Sepulcro Indiano). Fica difícil compreender como todo o espetáculo da obra foi utilizado para tornar o elefante uma espécie de super-herói malfadado, com tenebrosas cenas de sua “vitória sobre os humanos maldosos“. Em igual medida, o roteiro dá uma guinada para o sequestro de Elise (?) e uma intragável colocação de seu par romântico como se fosse alguém por quem ela mantivera o mínimo de interesse ao longo do filme (spoilers: não manteve).

Ainda é possível salvar algo visual ligado à realidade de abnegação por parte do pai; e o filme ainda ganha muitos pontos pelo bom aproveitamento do local e da construção narrativa em sua primeira hora, mas daí para frente, Tusk se perde e jamais volta para os trilhos, tornando-se o pior e mais estranhamente finalizado longa de Jodorowsky, mesmo que ainda traga uma série de caraterísticas típicas do diretor. Tudo considerado, não devemos taxar a obra como ruim. Mas para o padrão-Jodorowsky, trata-se daquelas realizações medíocres que nos incomoda muito mais do que se viessem de um outro diretor.

Tusk (França, 1980)
Direção: Alejandro Jodorowsky
Roteiro: Alejandro Jodorowsky, Jeffrey O’Kelly, Nicholas Niciphor (baseado na obra de Reginald Campbell)
Elenco: Cyrielle Clair, Anton Diffring, Serge Merlin, Christopher Mitchum, Michel Peyrelon, Tudor Gates
Duração: 115 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.