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Crítica | Twin Peaks: O Mistério

por Roberto Honorato
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  • É impossível falar sobre esse filme sem entregar informações vitais da série original Twin Peaks e do filme Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer. Então, SPOILERS à frente!

Por mais que hoje seja considerado um marco da televisão, o seriado Twin Peaks nunca foi um sucesso de audiência tão grande quanto muitos imaginam durante sua exibição original, mas agradou a crítica e uma parte bastante fiel de espectadores, que ficaram impressionados com a criação de Mark Frost e David Lynch. É uma pena que, por conta de pressão da própria emissora, a dupla tenha sido forçada a revelar o seu grande mistério logo na segunda temporada. “Quem matou Laura Palmer” era um mistério tão grande e intrigante que, quando entregue para o público, o próprio Lynch se sentiu traído ao ponto de deixar a série por uma boa parte de seu segundo ano, que infelizmente acabou sendo seu último.

Nas palavras do próprio Lynch, o assassinato Laura Palmer era “o ganso dos ovos de ouro”, e por isso sua intenção nunca foi desvendá-lo. Ainda assim, Twin Peaks era um universo rico em detalhes, irresistível demais para não ser revisitado. Foi assim que tivemos o lançamento do filme Twin Peaks: Os Últimos dias de Laura Palmer, que devolveu para ele a chance de desenvolver a história da maneira que bem entendesse, talvez até concluindo de maneira satisfatória diversos arcos e pontas soltas que a segunda temporada deixou antes de seu cancelamento. 

É claro que, Lynch sendo Lynch, jamais consideraria entregar respostas que, mais uma vez, pudessem privar o público de todo o fascínio pelo mistério e a possibilidade de fazer com que cada espectador tenha interpretações válidas, ainda assim completamente diferentes. Para deixar todos mais curiosos, sem contar irritados (convenhamos, o diretor do penteado estiloso e quinhentos maços de cigarro por dia se diverte com a frustração de uma parcela do público que vive desesperada por respostas), Lynch decidiu ambientar a trama do longa antes dos eventos da série original. O filme foi recebido com reações mistas, mas é difícil não admitir que ele tenha sido feito quase exclusivamente para aqueles que já tinham o costume de elaborar teorias sobre cada elemento do universo da série.

Isso pode não ter sido o que os fãs esperavam, mas ainda que não responda os ganchos deixados pelo fim da segunda temporada, o longa explora o que sempre foi essencial para Twin Peaks, que é a própria cidade e seus habitantes (sejam eles falando normalmente ou ao contrário). Tivemos a chance de conhecer melhor Laura Palmer em seus últimos momentos antes do fatídico dia em que foi encontrada morta e “enrolada em plástico”, assim como outras subtramas que fortalecem as motivações de alguns personagens para o que estava por vir. Contudo, por conta das restrições do estúdio, muito do filme precisou ser cortado para chegar em uma duração aceitável, o que excluiu alguns segmentos importantíssimos, que veriam à luz apenas duas décadas depois, por conta de Twin Peaks: O Mistério, uma coleção de cenas deletadas e estendidas de Os Últimos Dias de Laura Palmer.

Como dá pra ver pelo título original, Missing Pieces (As Peças que Faltam), à primeira vista esse parece ser apenas um apanhado de sequências aleatórias que foram descartadas do filme original por não serem consideradas essenciais. O engraçado é que, por mais que seja estruturado de maneira bem simples, apresentando as cenas deletadas e estendidas em forma aparentemente cronológica em comparação com o filme, o que é apresentado em O Mistério consegue não só expandir e desenvolver melhor algumas partes, como traz uma perspectiva completamente diferente de alguns eventos.

Pequenos momentos como uma interação entre Laura (Sheryl Lee) e Donna (dessa vez interpretada por Moira Kelly) explicam algumas cenas estranhas de Os Últimos Dias, como a troca de diálogos em que mencionam um muffin. Outra parte pequena em O Mistério acaba ecoando com força no filme anterior, como o momento em que o Dr. Hayward (Warren Frost) tem uma entrega para Laura, e menciona como ela não precisa se preocupar pois em breve “os anjos retornarão, e quando você vir o que foi mandado para ajudá-la, você vai chorar de alegria”. Aqui isso serve como um daqueles momentos agridoces e melancólicos de Twin Peaks, mas no contexto geral, acaba sendo uma cena indispensável, já que reflete os minutos finais de Os Últimos Dias, em que a protagonista vive exatamente o que foi descrito pelo doutor. 

Também há coisas de menor impacto na trama geral, como o segmento em que Josie (Joan Chen) e Pete Martell (Jack Nance) ficam alguns minutos debatendo sobre o tamanho dos blocos de madeira com um cliente idoso e confuso. É algo aparentemente sem peso no mistério geral, mas contribui para o charme do cotidiano que Twin Peaks retrata muito bem. Porém, para quem procura respostas, O Mistério traz algumas, como revelar o que Phillip Jeffries (David Bowie) estava fazendo na Argentina – uma das sequências mais bizarras e curiosamente reveladoras do longa, mostrando melhor a relação da personagem com os saltos temporais e uma informação que só viria a ser melhor compreendida na futura série Twin Peaks: O Retorno, o revival de 2017 ambientado vinte e cinco anos após a segunda temporada. 

Por falar na segunda temporada, o que mais deixou o público angustiado em Os Últimos Dias foi a ausência de material que explicasse qualquer coisa relacionada ao que ficou em aberto por anos. Felizmente, aqui temos três segmentos importantes que se passam exatamente depois do último episódio da temporada, o primeiro deles sendo uma versão estendida da cena em que o agente Dale Cooper (Kyle MacLachlan) é encontrado em seu quarto, com sangue escorrendo pelo rosto após ter forçado sua cabeça contra um espelho; o segundo é o reencontro de Cooper com o Braço, ou Homem de Outro Lugar (Michael J. Anderson), quando percebe que está preso no Black Lodge. Já o terceiro caso, provavelmente o mais revelador de todos, responde a pergunta que deixou os fãs esperando por duas décadas: “Como está Annie?”. Pelo que parece, Annie (Heather Graham) foi levada às pressas para um hospital, e mesmo em péssimas condições, está viva e segura, mas carrega sequelas por conta de sua experiência traumática. 

De certa forma, O Mistério e Os Últimos Dias de Laura Palmer acabam funcionando sozinhos, mas ganham muito mais força assistidos de uma só vez, o que faz dessa coleção de cenas deletadas e estendidas mais do que apenas complemento, mas algo necessário, que faz os dois parecerem inseparáveis. É claro que ainda sofre por conta da estrutura, que não faz dessa obra uma narrativa tão contida quanto a do filme anterior, mas todo o drama de Laura e o ciclo de violência crescente na pequena cidade de Twin Peaks sempre foram o foco de Lynch, e por mais que ele tenha nos ensinado a importância de não depender demais de soluções, O Mistério é chave para compreendermos melhor a história. Realmente, essas eram algumas das peças que faltavam, e é uma pena termos demorado para ver como grande parte delas sempre foram tão importantes desde o início.

Twin Peaks: O Mistério (Twin Peaks: The Missing Pieces) – Coreia do Sul, 2015
Direção: David Lynch
Roteiro: David Lynch, Mark Frost e Robert Engels
Elenco: Chris Isaak, Kiefer Sutherland, Sandra Kinder, Gary Bullock, Kyle MacLachlan, David Bowie, Michael J. Anderson, Frances Bay, Frank Silva, Sheryl Lee, David Lynch, Miguel Ferrer, Dana Ashbrook, Moira Kelly, Ray Wise, Jack Nance, Joan Chen, Peggy Lipton, Mädchen Amick
Duração: 91 min.

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