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Crítica | Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer

por Luiz Santiago
634 views (a partir de agosto de 2020)

A série Twin Peaks teve dois grandes momentos durante a sua curta curação. A 1ª Temporada é um verdadeiro mar de criatividade e mistérios, com inserção de elementos espirituais ao longo da investigação do assassinato de Laura Palmer. Durante esse período, David Lynch e Mark Frost estiveram plenamente envolvidos com o show, garantindo a qualidade do produto televisionado e explicando o imenso sucesso que a série teve nos Estados Unidos e no mundo ao longo daquele ano. Já a 2ª Temporada é a que recebeu maior número de críticas negativas, e não é sem motivo. Primeiro, porque trata-se de um longo serial, com 22 episódios, sendo que apenas os 9 primeiros e os três últimos episódios fazem jus à fama e à qualidade esperada da série.

Apesar do fraco desenvolvimento do miolo da 2ª Temporada, seu término foi muito bom, abrindo uma série de portas para um terceiro serial, que só viria acontecer 25 anos depois, em The Return. Como uma forma de “ajustar” e “explicar” o máximo de coisas possíveis da série, Lynch e Frost produziram o longa Os Últimos Dias de Laura Palmer, que estreou em 16 de maio de 1992 no Festival de Cannes e recebeu vaias de praticamente toda a plateia. Seguiu-se aí uma imensa quantidade de críticas negativas à medida que o filme estreava ao redor do mundo e, para piorar a situação, o já esperado fracasso de bilheteria veio a reboque. Anos depois, como acontece com boa parte dos “filmes malditos” de bons diretores, Os Últimos Dias de Laura Palmer ganhou a exagerada e delirante tag de “obra-prima”, tornando-se um cult entre os novos espectadores de Twin Peaks.

É preciso considerar que embora não serja o horror que muitos críticos disseram na ocasião do lançamento, Os Últimos Dias de Laura Palmer não é nem de perto e nem de longe uma obra-prima. Tampouco é um excelente ou um inesquecível filme. Mesmo o mais facilmente impressionável dos espectadores é capaz de chegar à conclusão de que a obra possui muitos problemas de roteiro (a construção da história é picotada sem razão e tudo gira em torno de um desnecessário enigma narrativo; isso, quando deveria explicar e, em última instância, deixar uma linha de mistério subtendida, não fazer de toda a duração da fita uma coleção de grandes temas da série original); possui um problemático desenvolvimento de personagens e, ao menos como compensação, consegue ser realmente válido na parte final do bloco de Laura Palmer, com destaque para a sequência de seu assassinato, que é muito bem dirigida.

Mesmo com algumas ausências em relação ao elenco principal da série — a mais sentida é a da atriz Lara Flynn Boyle no papel de Donna, substituída por Moira Kelly –, toda a identidade e atmosfera das temporadas são sugeridas na película, mas falta algo para fazer com que essa atmosfera ganhe corpo e cresça na obra. Por se tratar de um prequel, o espectador espera que a trama forneça o máximo de elementos possíveis para sustentar o que vem depois, e exige-se que isto seja feito de maneira fluída, não por ser um prequel, claro, mas por ser uma das regras basilares de qualquer bom roteiro. E eis aqui um ponto indiscutível. Este filme tem um boa direção, tem boas atuações (Sheryl Lee é o grandioso destaque, pois está simplesmente maravilhosa!), excelente trilha sonora a cargo de Angelo Badalamenti, ótima fotografia, bons figurinos e direção de arte, mas o roteiro e a montagem simplesmente não funcionam. Aliás, são as duas coisas que se não fosse a âncora para a série, teriam feito deste filme algo definitivamente muito ruim.

Olhando o momento do lançamento, embora tenha havido muito exagero por parte da crítica, é perfeitamente possível compreender o por quê a opinião sobre o longa foi majoritariamente detratora. A truncagem do texto é tal, que chega um momento nas passagens entre blocos que o espectador se irrita por completo. Os cortes são uma verdadeira ciranda aleatória que só encontra uma maior força na linha de Laura Palmer e, ainda assim, sofre pela desnecessária interrupção para cenas claramente vindas de uma edição mal feita, oriunda de sequências maiores (o primeiro produto tinha 5 horas de duração, era óbvio que o corte para pouco mais de 2h sofreria na qualidade final).

A nossa sorte é que mesmo diante do caos, há informações valiosas fornecidas ao público da série, porém, quem nunca viu o programa simplesmente estará diante de um enigma. Este é um filme para iniciados e isso faz dele uma porta de entrada para a discussão de alguns mistérios de Twin Peaks. Pena que a intenção inicial, de ser um “primeiro contato” para novos espectadores, não tenha sido alcançada. A despeito disso, a obra ainda é uma marca interessante na filmografia de David Lynch.

Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer (Twin Peaks: Fire Walk with Me) — EUA, 1992
Direção: David Lynch
Roteiro: David Lynch, Robert Engels
Elenco: Sheryl Lee, Ray Wise, Mädchen Amick, Dana Ashbrook, Phoebe Augustine, David Bowie, Eric DaRe, Miguel Ferrer, Pamela Gidley, Heather Graham, Chris Isaak, Moira Kelly, Peggy Lipton, James Marshall, Jürgen Prochnow, Harry Dean Stanton, Kiefer Sutherland, Lenny von Dohlen, Grace Zabriskie, Kyle MacLachlan, Frances Bay, Catherine E. Coulson, Michael J. Anderson, Frank Silva, Walter Olkewicz, Al Strobel.
Duração: 135 min.

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14 comentários

Douglas 23 de janeiro de 2020 - 11:12

Eu levei exatamente 25 anos para assistir a série, claro, ela estreou quando eu ainda não nascido, e só fui saber dela quando a terceira temporada estreou, fiquei bastante curioso, pois achei que na Netflix (onde a série foi distribuída no brasil) teria todas as temporadas, porém não tinha. Foi aí que começou minha jornada em busca dos episódios, e confesso que, UAU! No primeiro momento eu achei bem tediosa e vergonhosa a série, claro por conta da época em que ela foi gravada, mas com o decorrer dos episódios eu comecei a ter um apresso pelos personagens, Agente Cooper, Laura, Annie, Sherry e a personagem que até então ninguém tinha visto o rosto, DIANE. Lynch e Frost simplesmente nos entregaram uma das séries mais geniais que já tivemos!

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 23 de janeiro de 2020 - 11:42

A Twin Peaks original está na minha lista de favoritas de todos os tempos! Já O Retorno, não gosto tanto assim…

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Lu Souza 18 de novembro de 2017 - 03:11

Estou comentando aqui a essa altura porque já assisti toda a série e o filme, mas ainda estou revendo e lendo a respeito de tanto que essa obra genial me impressionou. Pra mim, a melhor série. Pois para quem gostou, pode parecer uma estória legal com um emaranhado de bizarrices no sense. Mas pra quem conhece Lynch sabe que tudo tem um porquê, nada é por acaso. E acredito que assistindo somente uma vez, muito se perde. Sou apaixonada pelo Dale Cooper. Vibrei com o retorno dele do Black Lodge. E a atuação o Lynch como Gordon Cole é demais. Sem contar no 8°ep da temp 3, histórico. E a Laura Palmer? De uma beleza e ao mesmo tempo algo que causa medo.
Parabéns ao Lynch. O filme foi bastante importante pra mim, já que assisti depois das duas primeiras temporadas, e confesso que o final da segunda perdeu o foco, mas o filme resgatou. 🌟🌟🌟🌟🌟

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Luiz Santiago 18 de novembro de 2017 - 05:50

Acho o filme no mesmo nível dos episódios “marromeno” da 2ª Temporada, que volta a ser genial no final.

Sobre a 3ª Temporada, temos críticas para todos os episódios aqui. Depois dê uma passada por lá para falarmos sobre alguns de seus favoritos!

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Theo Canhameiro 25 de maio de 2020 - 09:36

Eu estou procurando o filme e o único que eu achei foi o conjunto de cenas deletadas do filme mesmo. Conheci a sério com o Diario secreto de Laura Palmer que eu li e depois achei a terceira temporada… depois que descobri a série de 1990, fiquei fascinado. Assisti e primeira e segunda temporadas, comecei a terceira (que agora começou a fazer sentido), mas queria muito ver o filme e ler os dois livros sobre a história de twin peaks e o dossiê final. Poucas séries chamaram a minha atenção assim.

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 25 de maio de 2020 - 12:18

Vale super a pena mergulhar nesse Universo! Twin Peaks já foi uma das minhas séries favoritas, tenho ainda um carinho muito grande por ela. Espero que se divirta com The Return!

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curiosa gospel 5 de julho de 2017 - 16:17

só aqui mesmo pra esse filme ter 3 estrelas
nos outros ele é citado pela bomba que é

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Luiz Santiago 5 de julho de 2017 - 17:53

Pois é. “Aqui” no Plano Crítico, que não tem rabo preso com nada e nem se segue o mote “só porque os outros dizem, deve ser verdade”. A gente não copia nota dos colegas críticos. A gente não é todo mundo. A gente não é “outros lugares”. A gente tem opinião própria. A gente confere as obras, analisa as obras e dá a nota que julgamos que ela merece. É bem simples, não é alta ciência. Se você lesse o texto com atenção e se dispusesse a falar sobre ele, ao invés de lamber as botas de opiniões estabelecidas em “outros lugares” e minimizar uma opinião ou espaço que não te mima, dizendo exatamente o que você quer ouvir, talvez fosse a oportunidade de crescer um pouquinho em ideia. Crescer. Um pouquinho. Em ideia. Grave isso aí. E tente alguma vez.

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curiosa gospel 5 de julho de 2017 - 18:15

resumindo aqui no Plano Crítico qualquer coisa referente a Twin peaks não tem nada de negativo, haja visto que tem gente que compra fita cassete de aúdios de um personagem

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Luiz Santiago 5 de julho de 2017 - 18:23

Leia a crítica do filme. Você é muito impressionada com estrelas, @curiosagospel:disqus.

No dia em que Twin Peaks tiver algo negativo para ser dito, se for eu o responsável pela crítica, será dito. Não tem segredo nenhum aí também.

“tem gente que compra fita cassete de aúdios de um personagem”.

Quem é que compra K7 em 2017??? O que K7 tem a ver com avaliação negativa de Twin Peaks? Bebeu muito vinho da santa ceia, foi?

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Neto Ribeiro 4 de julho de 2017 - 06:53

Eu achei Fire Walk With Me excelente. A abordagem dele, para mim, é a correta para a série. Crua, inescrupulosa e visceral. As “últimas horas” da Laura Palmer são apavorantes e o final no Black Lodge é uma coisa linda de se ver.

Ah, e pra ser sincero, eu adorei a Moira Kelly como Donna, achei ela carismática e confesso que gostaria que Lynch a trouxesse de volta no revival, o que não foi o caso.

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Luiz Santiago 4 de julho de 2017 - 09:04

Nossas visões são bem diferentes nos dois pontos que você levantou, hehehehe.

Mesmo para padrões da série achei o filme apenas “ok”, quase medíocre. Eu não consigo aceitar essa montagem picotada e aleatória, aquela introdução com a investigação do assassinato de Teresa Banks que parece que não serviu pra absolutamente nada, porque o filme (tenta) focar em Laura Palmer e as coisas acabam não tendo muito sentido, mesmo o Leland tendo o casinho com ela… Não sei, não me desceu. Não fosse pela direção do Lynch, que é ótima, e pela atuação da Sheryl Lee, além dos setores estéticos mesmo, putz, seria um filme beeeem beeeeem ruim mesmo. Roteiro e montagem aqui são sofríveis, na minha opinião.

Quanto a Moira Kelly, não gostei dela não. Não sei dizer exatamente por quê, mas ela não me convenceu como Donna.

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Lu Souza 18 de novembro de 2017 - 11:23

Também não gostei da Moira Kelly. Gostaria de saber por que a Donna “original” não participou do filme nem da terceira temporada.

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Luiz Santiago 18 de novembro de 2017 - 11:50

Ela alegou problemas de agenda…

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