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Crítica | Twin Peaks – The Return: Part 11

por Luiz Santiago
179 views (a partir de agosto de 2020)

Spoilers! Confira as críticas para Twin Peaks – The Return (2017) clicando aqui. Confira as críticas para todas as publicações do Universo da série, clicando aqui.

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Ao mesmo tempo que nos angustia ver a série já em seu episódio 11 mantendo o lento ritmo de desenvolvimento das cosias — o que novamente traz à tona a preocupação e pré-aviso de que será um enorme erro de estrutura narrativa para toda a temporada se os muitos casos em andamento neste The Return forem encerrados às pressas, na dupla de capítulos finais –, é bem difícil para um espectador e fã do show não se sentir atraído pelas piscadelas em relação aos mistérios e pelas ligações entre personagens que, aos poucos, são reveladas.

O que percebemos, mesmo considerando o capítulo mais fraco do retorno até agora (Parte 10), é que após o estabelecimento de locais e intenções gerais dos personagens, passamos a ver indícios de ligação entre eles. Notem que a partir da Parte 7 os roteiros de Lynch e Frost não mais lançaram mão de reais introduções, antes, investiram de maneiras diferentes no retorno ou demonstração de “novas intenções” daqueles que já conhecíamos, tanto do lado místico do espelho, tal qual na Parte 8, quanto do lado comum na vida desses personagens, como vemos no presente episódio.

O maior problema dentre os blocos em andamento é certamente Cooper permanecer em estado catatônico. Ele já tomou café, já transou, já se encantou com um distintivo, já comeu torta de cereja… e nada. Um dos leitores aqui do PC apontou nos comentários da Parte 9 que talvez Cooper só acorde no final da temporada e o que eu disse a ele, deixo registrado oficialmente nesta crítica: esta possibilidade não me agrada. Independente de haver uma 4ª Temporada ou não (o que acho difícil, mas seria interessante), encostar Cooper por um serial inteiro não é, em nenhum aspecto dramático ou de construção de personagem, uma opção boa, aceitável ou digerível e eu peço às “Corujas que não são o que parecem” que isto não aconteça.

Por um momento até cogitei que Dougie não fosse o Good Cooper, mas, a esta altura do campeonato, já deveria ter aparecido “o verdadeiro”, se existisse outro, não é mesmo? Também não seria nada interessante passar um ano inteiro da série dando destaque a um falso Cooper em contraponto ao maligno Sr. C, que mesmo não tendo aparecido aqui, suas pegadas podem ser vistas em todo lugar — dele, ou de BOB — , formando um dos núcleos mais interessantes da série até o momento, a investigação de Albert, Gordon e Diane.

O encontro do corpo de Ruth e elementos misteriosos dos episódios passados se juntam aqui para mostrar mais uma tragédia, linha textual fortemente delineada pela competente direção de David Lynch, que não nos deixa tirar os olhos da tela por um momento. Independente do resultado final da temporada, a única coisa da qual não poderemos falar mal é da direção, que flui suavemente de bloco para bloco, mostrando com a devida elegância cada personagem e ingredientes necessários para nos manter interessados na narrativa.

O mapa que Hawk mostra para o Xerife Truman abre a possibilidade da busca se iniciar a seguir e é bom que isto venha em mais um episódio com ligações diversas, como o que tivemos nesta Parte 11, talvez até com mais vigor por parte da montagem, o que ajudaria bastante. Particularmente ainda acho que o ritmo das descobertas e sugestões do roteiro estão lentas, em vista da quantidade de episódios que ainda temos, mas não é um caso perdido, claro. É apenas um dilema de percepção.

Por outro lado, este dilema não conseguiu nos afastar do que os produtores prepararam para este capítulo. Cenas como a revelação de que Becky é filha de Shelly e Bobby (Mädchen Amick e Dana Ashbrook estão nada menos que gloriosos nesta sequência), o encadeamento da investigação que abriu a temporada ou mesmo a estranha e muito bem fotografada e musicalizada sequência no restaurante, com os Mitchum celebrando com Dougie o cheque milionário, nos fazem sorrir e apreciar o programa, colocando as preocupações de lado. Eis aí o benefício de se ver uma série nada fácil como esta, porém, guiada por um excelente diretor. Sempre haverá algo bom para se desfrutar.

Twin Peaks – The Return (3ª Temporada): Part 11 (EUA, 23 de julho de 2017)
Direção: David Lynch
Roteiro: Mark Frost, David Lynch
Elenco: Kyle MacLachlan, Mädchen Amick, Dana Ashbrook, Chrysta Bell, James Belushi, Brent Briscoe, Catherine E. Coulson, Giselle DaMier, Laura Dern, Josh Fadem, Miguel Ferrer, Robert Forster, Travis Frost, Balthazar Getty, James Grixoni, Michael Horse, Caleb Landry Jones, Robert Knepper, Jay Larson, Andréa Leal, Matthew Lillard, Peggy Lipton, Linas Phillips, Kimmy Robertson, Amanda Seyfried, Amy Shiels, Harry Dean Stanton
Duração: 57 min.

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15 comentários

Luís F B 26 de julho de 2017 - 19:08

Em resumo, a minha crítica sempre foi em relação a narrativas inúteis/cansativas/enroladoras. O episódio da bomba atômica (episódio 8?!) chegou a me entusiasmar, para em seguida eu voltar a ficar 5 minutos contemplando um mesmo enquadramento, tipo as 3 garçonetes num canto de sala…
Essa terceira temporada acabará servindo como uma obra puramente autoral, não-comercial… e com aquela sensação de que um filme em 18 episódios poderia contar a mesma coisa em 9 ou 10. Então será que é uma obra não-comercial mesmo, ou é comercial-às-avessas, para reafirmar estilo e agradar fãs?!

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Luiz Santiago 26 de julho de 2017 - 22:27

É uma grande pergunta. Eu quero muito crer que o Lynch e o Frost estão além disso, que eles não vão ceder, falando bem claro, à punhetagem intelectual de ficar uma obra meta-meta-meta cheia de símbolos que só eles entendem e que apenas as pessoas que adoram se impressionar com qualquer coisa louvam, exaltam e vivem chamando de obra-prima. Eu estou gostando desse retorno, mas beeeeem menos do que achei que ia gostar. Simplesmente porque adoro a séria dos anos 90.

Acho que só quando tudo acabar é que poderemos ter uma visão de tudo e ver se isso é mesmo só um mar de coisas pra reafirmar estilo ou se é, de fato, uma boa obra televisiva.

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Neto Ribeiro 26 de julho de 2017 - 00:16

Eu dei um grito quando percebi que Becky era filha de Shelly e Bobby. Aí fiquei bem decepcionado quando vi que eles já haviam se separado.

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Luiz Santiago 26 de julho de 2017 - 00:28

Pois é! E a cara do coitado do Bobby quando vê a Shelly com aquele escroque do Red??? Tadinho…

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bre.ribeiro 25 de julho de 2017 - 14:16

Haja paciência. .. se eu estou frustrado com o estado do cooper imagina quem passou 25 anos esperando pra ver isso!

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Luiz Santiago 25 de julho de 2017 - 23:59

Pois é!
Mas você não viu as temporadas 1 e 2?

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bre.ribeiro 26 de julho de 2017 - 07:41

Eu vi, mas vi tudo esse mês

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bre.ribeiro 29 de julho de 2017 - 14:29

Assisti sim, tudo esse mês!

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thewes 25 de julho de 2017 - 12:12

Cara, participo de alguns fóruns e o pessoal está entre “ame ou odeie” a terceira temporada de Twin Peaks. Em geral, estão odiando, pelo menos nos fóruns nacionais do qual faço parte. Antes de começar a ver a terceira temporada, olhei as duas primeiras novamente. Só posso dizer isso: estou fissurado! Olhei as sete primeiras partes da season 3 em um domingo! Suas críticas são boas demais. Abraço!

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Luiz Santiago 26 de julho de 2017 - 00:11

Muito obrigado, @disqus_ysC6fnzOjh:disqus! Twin Peaks vicia mesmo!
Pois é, eu faço parte de alguns grupos no FB que também estão mostrando opiniões bem menos elogiosas. Mas tem o oposto também. Tem os que acham tudo uma obra-prima. HAHAHAHHAHAH eu estou achando boa, mas bem longe de uma obra-prima. Vamos ver se na “foto geral” a coisa muda de figura.

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Douglas 25 de julho de 2017 - 09:37

Entendo perfeitamente tua frustração, mas acho que eu desde o início tô vendo as coisas mais dessa forma que essa resenha do AV Club aponta:
“The title of Twin Peaks’ revival—a title that originally seemed simple—is starting to feel momentous. “Twin Peaks: The Return” is not just the return of the show Twin Peaks or a return to the town of Twin Peaks. Eleven episodes into “Twin Peaks: The Return,” it’s becoming clear that this isn’t just a show’s unlikely return after more than 25 years; it’s a show about returning.
Maybe most of all, it’s about Agent Dale Cooper’s lingering return from a quarter-century on another plane. Like the frustrated driver yelling at Bobby Briggs (“We’re late! We have miles to go! Please, we have to get home!”), some viewers are frustrated with the patient, deliberate awakening of Dale Cooper. But the long chapters of Cooper shuffling through Dougie’s life aren’t a distraction from the story. They are the story”.

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Luiz Santiago 26 de julho de 2017 - 00:09

Eu concordo em parte com esse trecho da crítica que você colocou. A estrutura que o autor sugere é isso mesmo. Mas eu tenho problemas porque, querendo ou não, É uma continuação. Eu não estou achando ruim, mas a dispersão tem sido muito grande, sabe. Não é exatamente o que se imaginava do retorno…

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Neto Ribeiro 26 de julho de 2017 - 00:16

“Não é exatamente o que se imaginava do retorno…” EXATAMENTE

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Douglas 26 de julho de 2017 - 10:14

Pois é, te entendo perfeitamente…
Mas eu penso o seguinte: Se eu sigo o Llewelyn em Onde Os Fracos Não Têm Vez durante quase todo o filme, pra descobrir no final que o foco principal não era ele, minha reação inicial é tratar tudo o que aconteceu até ali como algo disperso e descartável. Porque não é o que eu imaginava. Depois eu penso que a jornada é, nesse caso, menos importante do que o que ela representa.
Eu acho que o Cooper não vai acordar nesse retorno. E eu acho que quando chegar o último episódio, nós vamos perceber que isso não faz muita diferença.
Ou eu posso estar falando um monte de besteira, talvez porque eu ache o Dougie mais divertido do que eu deveria, rs.
Enfim, essa terceira temporada tá sendo pra mim uma experiência ainda mais interessante que as duas primeiras.

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Luiz Santiago 26 de julho de 2017 - 13:58

Eu já to colocando as barbas de molho aqui, para caso o Cooper não acorde… ou só acorde no final. Não vai ser uma crítica pacífica não. hahahahahhaahaahhahhahha

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