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Crítica | Twin Peaks – The Return: Part 14

por Luiz Santiago
223 views (a partir de agosto de 2020)

Spoilers! Confira as críticas para Twin Peaks – The Return (2017) clicando aqui. Confira as críticas para todas as publicações do Universo da série, clicando aqui.

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Um bom número de conversas que tive com leitores nas últimas semanas foram sobre o ritmo dos episódios desse retorno de Twin Peaks e o quanto isso tem sido progressivamente frustrante, apesar de a maioria de nós estar gostando do serial como um todo. Então chega a Parte 14 e o senso de unidade da série, mesmo com o ponto de contemplação (agora sim, correto) e “lentidão narrativa” (também utilizado corretamente) em evidência, ganha asas e começa a nos dar todos os indícios possíveis para se fechar o ciclo, o que é um ganho imenso para o programa. Considerando que os dois últimos episódios serão exibidos no mesmo dia, temos apenas mais 3 semanas de Twin Peaks e já era de se esperar que as coisas começassem a acontecer. É tarde. Mas é melhor que nada.

O primeiro grande momento do capítulo vem quando descobrimos sobre o primeiro caso Blue Rose, que se passou em 1975. Como estamos falando de uma fusão de tempos e parece que voltamos ao excelente dilema das “forças despertando”, algo que já havia sido sugerido nos episódios 1, 2 e 3 deste retorno, a conversa sobre os casos Blue Rose se torna orgânica e traz para análise algo que Tammy (Chrysta Bell) disse para Albert (Miguel Ferrer), referindo-se ao desaparecimento não natural da mulher que abriu o famoso caso da rosa azul. Tammy compara isso à Tulpa, que é um conceito dentro do misticismo que fala sobre um corpo ou objeto criado apenas através de poderes mentais, vindo do ideal tibetano de “emanação” e “manifestação”.

Levemos em consideração o portal entre mundos que aparece próximo ao Jack Rabbit’s Palace, para onde Bobby (Dana Ashbrook), Andy (Harry Goaz), Hawk (Michael Horse) e o Xerife Truman (Robert Forster) vão, cumprindo o esperado encontro marcado pelo Major. Para ser sincero, dado o estardalhaço feito em relação à data e ao espaço onde isto aconteceria, eu esperava que fosse algo mais impactante, mas não estou descontente com o que veio. O roteiro aqui está azeitado e foi organizado bem o bastante para fazer com que os 55 minutos do episódio estivessem plenamente conectados, dando importância conjunta para todos os blocos, exatamente como deveria ser. Neste lugar, os policiais encontram a personagem Naido (Nae Yuuki), a mulher sem olhos que ajudou Cooper em sua passagem do Black Lodge para a nossa dimensão e depois desapareceu no espaço, na Parte 3. Quem é ela? Qual o seu verdadeiro papel? Ela parece ter o mesmo tipo de bloqueio dos indivíduos fora de suas dimensões originais. É possível esperar daí algo importante nos próximos episódios.

A montagem desta Parte 14 conseguiu um dos melhores lugares em toda a temporada. E novamente destaco a organicidade dos eventos do roteiro, porque não adianta simplesmente uma boa presença técnica (como foi em toda a série, dede a estreia) e um texto que sofre de injustificável paralisia (como no caso de pelo menos 5 episódios até agora). A leveza com que a passagem de um momento para outro ocorre aqui é aplaudível, além do fato de todo o excesso ter sido cortado e dado lugar para algo objetivo, mesmo que suas indicações ainda estejam por se revelar de forma mais ampla, como o sonho de Cole com Monica Bellucci e a reflexão sobre sonhos dentro de sonhos e o próprio questionamento da realidade (a parcela de fãs que sustentam a ideia de que todo esse The Return está se passando na mente de Audrey, que está em coma, deve fazer festa nesse momento).

À medida que passamos de bloco para bloco a fotografia ganha mais contraste, até que em sequências noturnas temos dois acontecimentos de destaque. O primeiro, a conversa entre James Hurley (James Marshall), agora trabalhando como segurança no The Great Northern Hotel, e Freddie Sykes (Jake Wardle), o garoto da luva verde — o Punho de Ferro de Twin Peaks — que encontrou o “Bombeiro” (Carel Struycken) e recebeu dele uma direção, da mesma forma que Andy, ao ser levado para um dos Lodges, teve visões do cânone da história secreta de Twin Peaks e saiu resoluto do local, salvando Naido e abrindo as portas para um futuro mistério. A cena entre James e Freddie é simples, mas com boas informações; um diálogo muito bem levado pelos dois atores, com uma direção dinâmica e entorno mais escuro, acabando com um cliffhanger para o que James pode encontrar em sua ronda noturna. Teria alguma coisa a ver com o barulho que se ouvia dentro do Hotel? 

O segundo acontecimento se dá com Sarah Palmer (Grace Zabriskie), que “tira o rosto”, exatamente como Laura o fez, no Black Lodge, e provavelmente manifestou ali a criatura que devorou os dois jovens na sala com a caixa de vidro, logo no começo da série. Toda a sequência é tensa, com uma partitura suave e pontual acompanhando os eventos; uma fotografia de cor quente que nos confunde, poque ao mesmo tempo que indica boa recepção dos indivíduos no bar dá a entender uma ameaça vindoura, que se justifica pela “mordida” que o homem recebe no final, além de contar com uma excelente atuação de Grace Zabriskie.

Aqui descobrimos que Diane (Laura Dern) é meia-irmã de Janey-E Jones (Naomi Watts), apontando para mais um importante vínculo na série; e vemos também a recolocação de Philip Jeffries (personagem vivido por David Bowie em Os Últimos Dias de Laura Palmer) na história, indicando uma duplicidade num relato de Cole sobre sonhos do presente que trazem lembranças do passado. Esse agrupamento de variantes e a interessante forma como foi feito na Parte 14 acendeu as esperanças para um final cheio de imersão e mistérios, como nas duas temporadas passadas. Não falta muito para chegarmos ao fim e descobrir o que existe além da cortina. Se é que existe algo de novo lá.

Twin Peaks – The Return (3ª Temporada): Part 14 (EUA, 13 de agosto de 2017)
Direção: David Lynch
Roteiro: Mark Frost, David Lynch
Elenco: Grace Zabriskie, Chrysta Bell, Miguel Ferrer, Dana Ashbrook, Harry Goaz, Robert Forster, Michael Horse, Nae Yuuki, James Marshall, Jake Wardle, Carel Struycken, Laura Dern
Duração: 55 min.

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29 comentários

JC 31 de março de 2021 - 10:37

Finalmente andou o seriado! Aeeee!

😛

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Luiz Santiago 31 de março de 2021 - 12:22

AEEEE CARALHOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO

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Fernando Coelhion 1 de novembro de 2017 - 10:27

Já sou da parcela que está adorando a temporada nova. Que puta gênio é David de Lynch hein? Ele consegue inventar tantas histórias que dariam pelo menos umas 5 temporadas para explorar e explicar tudo

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Luiz Santiago 1 de novembro de 2017 - 13:36

Acho ele um excelente diretor e ele junto do Frost com esses roteiros é realmente muito bom. Infelizmente só achei a temporada no todo muito boa. Nada de genial ou gloriosa ou memorável. É uma temporada muito boa. Em técnica, é outra história. Mas nesse julgamento temos que considerar os dois lados e para mim, depois daquele último episódio… Mas enfim. Falaremos dele quando você chegar lá hehehehehe

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Fernando Coelhion 1 de novembro de 2017 - 14:34

Li todos os seus reviews. Assisto e venho ler aqui. Parabéns, escreve muito bem! E Twin Peaks é uma série boa de “mastigar” né? Não é algo muito obvio mesmo, tipo Stranger Things (kkk). Falando nisso, o simbolismo das “lodges” deixam o Upside Down de ST no chinelo…mas enfim, preciso ver a segunda temporada deles também. Vou começar assim que terminar Twin Peaks!!

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Luiz Santiago 1 de novembro de 2017 - 16:19

Obrigado, @disqus_rGs1MAm4tV:disqus!
Ah, é aqui é outro nível! São coisas de um realismo mágico que encantam demais. E é uma temática que eu simplesmente adoro. Só gostaria que a coisa toda tivesse não tivesse dependido taaaaaaaaaaaaanto do subjetivo do público. Particularmente não vejo com bons olhos roteiros que são finalizados (no desenvolvimento não vejo problema, porque é uma estratégia narrativa super válida e interessante) com esse lado de “pode ser tudo, não pode ser nada, pode ser o que você quiser ou não quiser”. Mesmo dentro de uma loucura máxima, a obra precisa ser fechada diante de sua proposta. Até a maior piração do Lynch, “Império dos Sonhos” teve fechamento coerente dentro da piração toda.

Mas como eu disse, eu achei uma boa temporada e acho o Lynch um baita de um diretor. 😀

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Huckleberry Hound 24 de agosto de 2017 - 21:39

Pensei que já tinha visto todo tipo de coisa pertubadora…até conhecer David Lynch!

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Luiz Santiago 25 de agosto de 2017 - 01:51

HAHAHAHAHHAHA essa cara é o cão!
Já viu Eraserhead?

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Huckleberry Hound 25 de agosto de 2017 - 10:05

Ainda não mas vou colocar na lista!

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Luiz Santiago 25 de agosto de 2017 - 11:30

Coloque sim! É perturbador! E tem várias referências desse filme neste The Return.

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Jimi Pozza Silva 19 de agosto de 2017 - 17:54

Espero que o episódio seja bom porque até agora pra mim essa temporada foi uma decepção. Claro que não completa, tem algumas sacadas boas mas eu esperava ver mais do velho Cooper e do dia a dia de twin peaks depois de tantos anos e foi tudo que não mostraram! Ao invés disso surgiram outros personagens e a história que antes se concentrava apenas naquela cidadezinha pitoresca foi para outros lugares…vou assistir até o fim mas minha opnião final vai depender muito desta reta final.

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Luiz Santiago 19 de agosto de 2017 - 18:54

Eu também estou ansioso e um pouco apreensivo. Mas creio que será um baita final incrível. No todo, porém, entendo sua visão sobre a temporada. Também me decepcionei bastante.

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Fábio Cavinato 16 de agosto de 2017 - 15:05

realmente foi um dos melhores episódios, tornando tudo mais próximo de um possível fechamento. e como com o lynch tudo é mais do que aparenta, fiquei intrigado com aquele lavador de janelas que quase ensurdece o gordon em sua sala. outra coisa que me chamou a atenção: conforme o gordon ia contando seu sonho, sua voz ia ficando cada vez mais baixa e suave… justo ele, que chega perto de me irritar com sua fala estridente heheh

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Luiz Santiago 16 de agosto de 2017 - 17:03

Pois é! E que sonho! Muita gente ficou intrigada e acha que isso tem a ver com a dinâmica de que tudo isso está sendo sonhado pela Audrey.

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Breno m. 16 de agosto de 2017 - 10:23

A cena do sonho com Mônica Bellucci é uma típica cena Lynchiana (daquelas que gostariamos de ter assistido a temporada inteira, ao invés de sequências longas de quase 10 minutos com alguém caçando uma mosca). Esse episódio certamente representa o que a série ainda pode ser: concisa, dinâmica, mantendo um suspense coerente e uma tensão subjacente aos eventos. Vamos aguardar que os episódios seguintes estejam em nível parecido.

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Luiz Santiago 16 de agosto de 2017 - 17:12

Eu ri demais da sua descrição dos “10 minutos alguém caçando uma mosca”. Sim! Exatamente o que me incomodou em boa parte desse retorno! Mas agora, no final, parece que tudo caminho para episódios ágeis.

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Nois Critica Mermo 16 de agosto de 2017 - 01:30

Finalmente um episódio que fez jus à verdadeira Twin Peaks e às características que eu admiro no Lynch. Ainda deu algumas osciladas, mas o progresso da trama e algumas sequências me deixaram animado. A da floresta, por exemplo, é Twin Peaks “raiz”. Só faltou tocar a trilha clássica da Laura Palmer pra arrepiar. Queria entender porque o Lynch não mantém essa regularidade de ritmo e contemplação. Ele sabe exatamente o caminho, mas a impressão é de que está testando mesmo o público, fugindo da nostalgia e de vez enquando oferecendo algumas doses só pra provocar.

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Luiz Santiago 16 de agosto de 2017 - 17:07

Minha exata posição em relação ao uma parcela de episódios anteriores. Foi uma forma estranha nos fazer “perder tempo” com uma estrutura que ele poderia acelerar e fazer algo muito mais interessante, como foi este episódio.

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Bryan M. 15 de agosto de 2017 - 03:35

Cara que ep. incrível, para mim se junta ao 2,3 e 8 como os melhores até agora. A cena do Freddie e sua luva particularmente me deixou intrigado, acho que ele se tornará uma peça chave na trama. A cena do sonho do Gordon é fantástica assim como a da Sarah! Esse ep. me lembrou de uma frase do Philip Jeffries em FWWM: ”Nós vivemos dentro de um sonho”, parece que o final será mais surpreendente do que eu esperava! Tb fiquei curioso para saber se o cara na cela é o ”famoso” Billy, quero saber qual é a dele.

PS: Nunca pensei que a personagem que a linda Monica Belluci interpretaria seria ela mesma kkkkkk fui tapeado!

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Luiz Santiago 15 de agosto de 2017 - 17:08

FOMOS TAPEADOS! HAAHHAHAHAAHAHAHA Eu fiquei rindo como um besta quando chegou essa cena.
Mas olha, que salto lindo que deu aqui, viu! A trama volta a ficar interessante, já com cara de ciclo se fechando! Coisa mais linda.

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Daniel Cerqueira 15 de agosto de 2017 - 22:21

Lynch nao nos surprende porque só que ainda nao o entendeu espera menos do que esses episodios maravilhosos.
😉

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Luiz Santiago 15 de agosto de 2017 - 22:26

Mas tropeçar no meio de uma série e fazer um ótimo final não é nada novo na TV.

Assisti a todos os filmes do Lynch (curtas e longas), sabia exatamente que base de estilo esperar e me decepcionei, embora tivesse esperança de que o final da série fosse bom, a despeito de um miolo mal arranjado. Meus votos é que a coisa siga daí pra cima, até o final.

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bre.ribeiro 15 de agosto de 2017 - 01:02

E o cooper? Nada? Lendo aqui antes de assistir!

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Luiz Santiago 15 de agosto de 2017 - 01:16

Nesse aqui não. Mas você vai ver que é por um bom motivo.

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bre.ribeiro 15 de agosto de 2017 - 12:44

É foi um episódio legal.. nem fiquei no celular! 🙈
Acho que o Cooper só vai acordar no final mesmo, deixando todos doidos por mais uma continuação! Ele podia acordar e falar “se e you in a year” pra câmera. KKKKKKKKKKKK credo

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Luiz Santiago 15 de agosto de 2017 - 16:31

“se e you in a year” HAUAHUAHAUAHUAHUAHA
NÃAAAAOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!

Responder
Neto Ribeiro 14 de agosto de 2017 - 14:30

De fato um dos melhores episódios dessa temporada. Sem enrolações, puro mistério e suspense. Aliás, nem tinha me tocado que a cena de James pode ter uma conexão com o barulho ouvido no hotel!

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Luiz Santiago 14 de agosto de 2017 - 16:44

Foi aquele episódio que a gente queria fosse a ordem em toda a série. Mas estou feliz que Lynch tenha trazido, mesmo que no final, essas coisas sensacionais para a gente ficar feliz e começar a dar um de criador de teorias. Melhor parte de assistir essas coisas. Hehehehe

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Neto Ribeiro 15 de agosto de 2017 - 15:16

É verdade!!

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