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Crítica | Twin Peaks – The Return: Part 15

por Luiz Santiago
248 views (a partir de agosto de 2020)

Spoilers! Confira as críticas para Twin Peaks – The Return (2017) clicando aqui. Confira as críticas para todas as publicações do Universo da série, clicando aqui.
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E tudo tem a ver com ELETRICIDADE, não tem? Para quem assistiu ao filme Os Últimos Dias de Laura Palmer (1992) certamente há referências e elementos simbólicos que estão torando a parte final deste retorno uma boa mistura de nostalgia e revelações de um grande plano das coisas, como já era de se esperar vindo da mente de Lynch e Frost nos roteiros. Aliás, a eletricidade é um ponto referencial na filmografia de Lynch, sempre aparecendo ligada a três coisas distintas, porém, relacionadas: mudanças de estado de um corpo (normalmente marcado pela relação vida-morte); grandes transformações de comportamento de alguém ou aparição de uma força/personagem até então desconhecido e que torna tudo ainda mais misterioso e, de certa forma, ameaçador.

Mesmo que este 15º episódio não tenha sido tão bom quanto o anterior e tenha se contentado com falsos avanços — a rigor, a história não avança em praticamente nada… vemos apenas a movimentação de alguns personagens, mas suas ações não nos dizem nada mais sólido em relação ao tema central, ao contrário, adiciona ainda mais mistério, a esta altura do campeonato, como no caso da estranha conversa do Sr. C com Phillip Jeffries, agora em forma de chaleira gigante — as indicações de retorno ou apontamentos para o futuro são realmente marcantes, o que não será nada espantoso que alguns espectadores perdoem os tropeços do enredo e abracem com todo o carinho possível este episódio, elevando-o a um status bem mais alto do que ele realmente merece.

O que de fato esta Parte 15  tem de destaque é o nível de elementos macabros que cercam Twin Peaks e alguns personagens. Neste sentido, entendemos que Lynch quis dar um passo atrás no desenvolvimento do plano maior e resolveu estacionar um pouco para mostrar caminhos maiores pelos quais cada um dos blocos dramáticos da série deverão seguir. Aí colocaríamos o caso de Nadine/Ed e, logo em seguida, Ed/Norma, enfim, juntos. Mas o verdadeiro impacto que temos no capítulo, algo que realmente me fez lacrimejar, foi a belíssima sequência com a Senhora do Tronco, que se despede de nós, sendo essa despedida ainda mais intensa se levarmos interação que a atriz morreu pouco tempo depois de ter gravado as suas cenas e que ela e Lynch, após terem conversado muito, resolveram usar a inevitável partida que viria — a atriz já estava em uma luta que sabia perdida contra o câncer — como algo também dentro da arte.

David Lynch conhecia Catherine E. Coulson desde que trabalharam juntos no curta O Amputado (1974), mas a grande amizade entre os dois começou mesmo três anos depois, quando filmaram Eraserhead, onde ela trabalhou como assistente de direção e de câmera. Foi nos intervalos, brincadeiras e conversas que tiveram durante as filmagens que os dois criaram o conceito de uma história onde uma mulher normal (“a mulher mais normal de uma cidade“) carregava um pequeno tronco de árvore nos braços, para onde quer que fosse. Quatorze anos depois isso daria origem à Senhora do Tronco, personagem por quem Lynch tinha enorme carinho, não apenas por ser interpretada por uma amiga, mas também porque ele via a Senhora do Tronco como uma conexão harmônica entre os dois mundos de Twin Peaks. É por isso que a partida da personagem foi tratada com imenso respeito, não só no significado mas no encadeamento do texto, interpretações e direção (a cena do telefonema e principalmente a cena em que Hawk anuncia a morte da personagem são soberbas).

Aqui vemos voltar também a Loja de Conveniências de um posto de gasolina abandonado, um portal para um dos Lodges que já havíamos visto na Parte 8, mas agora mostrado com uma verdadeira funcionalidade, não apenas como contemplação inútil. O encontro entre o Sr. C e o Jeffries-chaleira traz à tona o mistério sobre outra personagem de Os Últimos Dias de Laura Palmer: Judy. Assim como Bill, procurado por Audrey, temos Judy, procurada pelo Sr. C, uma caçada que certamente nos trará o afunilamento de todos os blocos para um único lugar, como era de se esperar.

Com Dougie colocando o garfo na tomada (então ele vai acordar como Cooper? É isso mesmo, produção? Antes tarde do que nunca, não é mesmo?) parece que os episódios seguintes da série serão de encontros e de um número bem maior de ação, com as respostas vindo aos borbotões, o que também era o temor de qualquer pessoa equilibrada que viu o número de 18 episódios e achou que um diretor incrível como David Lynch iria usar essa oportunidade para explorar um drama metafísico de maneira orgânica, usando muito bem cada momento. Não foi o caso, mas parece que ainda assim, as coisas deverão funcionar bem no encerramento. Veremos.

Twin Peaks – The Return (3ª Temporada): Part 15 (EUA, 20 de agosto de 2017)
Direção: David Lynch
Roteiro: Mark Frost, David Lynch
Elenco: Kyle MacLachlan, Jay Aaseng, Joe Adler, Mädchen Amick, Dana Ashbrook, Owain Rhys Davies, Eamon Farren, Sherilyn Fenn, Jay R. Ferguson, Patrick Fischler, Robert Forster, Nathan Frizzell, Harry Goaz, Michael Horse, Caleb Landry Jones, Jennifer Jason Leigh, Peggy Lipton, James Marshall, Everett McGill, Clark Middleton, John Pirruccello, Kimmy Robertson, Wendy Robie, Tim Roth, Rodney Rowland, Harry Dean Stanton, J.R. Starr, Naomi Watts, Nae
Duração: 54 min.

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14 comentários

JC 2 de abril de 2021 - 09:14

Rapaz…que coisa. Eu nem tinha tanto apego com a troncuda. Mas deu pra chorar nessa cena. Que coisa linda.

Medo danado de mais mistério misterioso a essa altura.

Nossa…as cenas de Audrey são tão chatas….afe….a atriz envelheceu mal né?
Norma continua linda mas Audrey parece que se passaram mais que 25 anos.

Nossa…deu uma agonia imaginar que Ed não ia ficar com a norma. Imagina todos esses 25 anos com a doida de um olho só e o amor da vida dele ali….que coisa!

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Luiz Santiago 2 de abril de 2021 - 11:22

Esse momento com a Senhora do Tronco me emocionou demais, tu não tem noção.

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Daniel Cerqueira 23 de agosto de 2017 - 22:25

ta numa implicancia chata com a serie.

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Luiz Santiago 24 de agosto de 2017 - 00:29

???????

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Bryan M. 22 de agosto de 2017 - 16:38

Esse episódio, com a morte da Margaret, foi o mais triste até agora, toda a concepção da cena: a conversa com o Hawk, o anúncio da morte, a luz se apagando na casa dela, é muito comovente, principalmente se pensarmos que a atriz morreu pouco tempo depois. Não deixa de ser um freio em relação ao último episódio, porém foi uma despedia digna de uma personagem tão icônica na série. A cena do Cooper com o Phillip ”Chaleira” Jeffries e o Ed com a Norma ao som de Otis Reding são ótimas. Agora se uma coisa me impressiona nesse retorno é a atuação do Kyle MacLachlan, principalmente se analisarmos que ambos Dougie e Sr. C são construídos 90% com linguagem corporal e expressões faciais, enquanto Dougie é uma criança inofensiva em um corpo de adulto,cambaleando a cada movimento, BOB transmite violência e medo apenas pelo olhar, ele anda como se fosse um robô, ombros retos, andar ”travado” e expressão vazia! Quando vejo a sua performance eu lamento por ele não ter uma carreira extensa no cinema!!

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Luiz Santiago 22 de agosto de 2017 - 23:07

Kyle MacLachlan está excelente nesse retorno. Ele precisa ser contemplado nos prêmios da temporada, pois merece de verdade. Está arrebentando nos personagens, e com uma qualidade cênica que é de impressionar.

E a série aqui parece que encontra um caminho de final mesmo, né? Amarrando pontas lá das temporadas anteriores… muito bacana mesmo.

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bre.ribeiro 22 de agosto de 2017 - 00:04

Esperava ver um Jeffries estilo princesa Leah, mas gostei mais da chaleira! 😀

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Luiz Santiago 22 de agosto de 2017 - 01:14

Cara, eu ri demais quando subiu aquela “parede” e apareceu a chaleirona. hahahahahahahahhahaha

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bre.ribeiro 22 de agosto de 2017 - 23:25

E o Richard? Como ele chegou ate o armazém no episódio passado? As vezes eu tenho a impressão que eu perdi um episódios.

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Luiz Santiago 23 de agosto de 2017 - 00:07

Também tenho essa sensação. Também não sei responder, não mostrou o que aconteceu com ele! hahahahahhahah

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Lucas Soares Silva 21 de agosto de 2017 - 23:35

Que episódio foda! Começou com uma aura tão pra cima e no final aquela morte tão melancólica, muito linda e emocionante! Fora a parte do Cooper do mal insana e muito bem dirigida, melhor série do ano pra mim e graças aquela cagada ontem de GOT tem tudo pra ser premiada! Eu entendo quem esperava uma nostalgia das temporadas passadas ao assistir essa nova temporada, mas conhecendo Lynch eu duvido que ele faria algo mais do mesmo, não é o perfil dele, e eu realmente gosto de como ele modernizou a série aqui, brinco com um amigo, que a lentidão nos mistérios é uma vingança dele por fazerem ele acelerar na revelação do assassino de Laura Palmer na temporada passada kkk. Mas eu estou tranquilo, e vou sentir muita falta quando a série acabar, não vejo na tv atualmente nada equiparável ao que Twin Peaks me entrega como arte sensorial. Claro que eu não acho que é tudo perfeito, acho que Lynch pesou a mão um pouco naquele Lendario Episódio 8, por exemplo, etc.

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Luiz Santiago 22 de agosto de 2017 - 01:23

A série é, de fato, diferente de tudo o que tem na TV hoje. A parte técnica dela é sensacional, especialmente a direção, fotografia e atuações. Kyle MacLachlan está mitando a cada episódio. Meu único problema foi a concepção geral da obra, com a lentidão desnecessária espalhada por muitos capítulos. É a parte negativa do roteiro desse retorno. A parte positiva é a visão de ligação que o diretor está trazendo para nós. Isso é impagável. Para mim não será a melhor série do ano, mas certamente uma das melhores.

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Lavreh 26 de agosto de 2017 - 22:58

Concordo. Interessante e única, mas não a melhor… Mas qual ocuparia esse posto, na sua opinião?

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Luiz Santiago 27 de agosto de 2017 - 05:58

Eu não vejo tanta série hoje para ter uma visão geral de qual a melhor série em exibição, no momento. Minha resposta para esta pergunta é puramente pontual, e, dentre as séries que eu vejo, 12 Monkeys, cuja 3ª Temporada também foi este ano, se mostrou muitíssimo superior a Twin Peaks em andamento, com construções bem mais inteligentes, sem contemplação desnecessária e sem enrolações. Então das que eu assisto e que tiveram temporada na mesma safra, 12 Monkeys é a melhor.

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