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Crítica | Ubik, de Philip K. Dick

por Kevin Rick
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Ubik está em toda parte.

O que é Ubik? Uma substância miraculosa que ajuda aqueles com problemas no além da vida? Ou talvez uma metáfora para Deus, em sua onisciência e onipotência? Mas pode ser simplesmente uma droga em forma de spray utilizada por aqueles fora da realidade, não? Melhor ainda, a necessidade dependente de Ubik daqueles no segundo plano – ou seria meia-vida? – pode ser uma crítica para nossa subordinação à indústria farmacêutica? Por fim, saindo das teorias malucas, a substância é apenas uma ferramenta no universo fantástico do livro, certo? Ubik é tudo isso, e nada disso. Ubik está em toda parte, mas raramente visto. Eu lhes apresento Philip K. Dick.

Ubik é situado em uma versão futurista de 1992, com viagens interplanetárias, carros voadores, pessoas com poderes telepáticos, e tecnologia criogênica que mantém quem faleceu recentemente em um longo estado de hibernação, chamado meia-vida, no qual os vivos podem, por um determinado período, contatar os mortos. A narrativa do livro acompanha majoritariamente Joe Chip, um técnico da Associação Runciter, chefiada por Glen Runciter, uma “empresa de prudência”, responsável por contratar pessoas com habilidades de negar os poderes de telepatas e precogs que causam problemas na sociedade, especialmente a organização de psíquicos de Ray Hollis. Após o magnata Stanton Mick contratar os serviços da empresa de prudência para resolver um intrusão psíquica numa base lunar, Glen Runciter e Joe Chip, junto dos melhores “anti-psis” da sua organização, vão à Lua, onde o embate com a organização de Hollis dá início à trama principal da obra.

PKD não gosta de entregar nada mastigado para seus leitores. Em parte da sua bibliografia – os que já tive o prazer de ler -, o autor te “joga” direto na sua maluquice e conceitos complexos sem qualquer respeito por nossa inteligência e criatividade aquém da sua genialidade. Há quem não goste disso, mas eu adoro. Contudo, em Ubik, até chegarmos no grande embate lunar, Philip toma seu tempo para apresentar os conceitos deste universo futurista, com bastante construção de mundo, desenvolvimento de personagem e cuidado detalhista das regras que regem a sociedade telepata. É o primeiro livro dele que senti um aconchego narrativo e uma linha de raciocínio acessível de acompanhar. Não me entendam errado, a inventividade do autor está a mil aqui, e ainda é tudo muito complexo, mas à medida que a história avança, as nuances do livro se tornam facilmente perceptíveis – com exceção dos trechos de Ubik.

Dick utiliza dos poderes mutantes e conexões com os mortos para tocar em temáticas comuns dos seus trabalhos literários, como alienação, dependência tecnológica, enigmas teológicos e o limite/controle do avanço tecnológico, e como isso impacta nossa sociedade. Até a inserção de Pat Conley, uma personagem com um estranho poder de negativação, que, inicialmente, não deixa muito claro se ela anula a realidade, o tempo, as probabilidades ou qualquer outra coisa nesse meio, funciona dentro de um parâmetro mais comum do autor. E não vejam isso como uma crítica negativa, muito pelo contrário, o início do livro é sensacional da perspectiva de imersão e de nos deixar situado da visão sci-fi/religiosa de PKD. Foi só uma leitura diferente, na qual sentia estar entendendo os caminhos do escritor com extrema clareza, trabalhando questões existenciais do nosso mundo com sua típica criatividade, adicionando uma camada de combate organizacional entre as facções de Hollis e Runciter. Até o grande “estopim” da narrativa principal na base lunar, a leitura estava excelente, só, digamos, diferenciada, mais descomplicada que o usual PKD por assim dizer.

Eu não poderia estar mais errado.

Todos vocês estão mortos. Eu tenho vida.

Os eventos que se seguem após a luta na Lua pegam tudo que já havia sido apresentado pelo autor, o complexo, as temáticas e os princípios da meio-vida e dos poderes mutantes, e misturam eles na insanidade de PKD dentro do novo elemento da história: mudança de realidade. Desse momento em diante, vemos o autor no seu auge, adicionando a questão temporal de Pat de modo inverso, no qual a realidade do grupo está voltando no tempo, desde carros voadores a automóveis clássicos dos anos 40, televisões para rádios, e assim por diante. E Philip vai além, distorcendo o discernimento de Chip à medida que não apenas o retrocedimento do tempo é a questão, mas a própria pergunta que define a segunda metade do livro: eles estão mortos ou vivos?

Daí em diante, PKD, brilhantemente, equilibra dois tipos de estrutura para a história, sendo a primeira uma ficção científica mais engajante, com um teor de espionagem e sentimento de urgência nos personagens, assim como a instauração de desconfiança no grupo, especialmente em relação à Pat, junto do segundo estilo, que brinca com a consciência e a realidade dos personagens, tentando teorizar sua situação enquanto correm, literalmente, contra o tempo. E isso forma uma leitura obsessiva já que existe um contínuo ritmo acelerado balanceado com a transcendental e psicodélica escrita de Dick, provendo dúvida, ilusão, existencialismo, percepção e natureza da realidade, mexendo com a cabeça do leitor da melhor forma possível.

À medida que respostas chegam, novas perguntas aparecem, e as soluções anteriores vão sendo questionadas até o grande clímax do livro. Percebam como quase não citei Ubik, pois a substância em spray permeia a trama como uma pequena indagação filosófica e saída acessível dos problemas temporais. Tudo termina por ser respondido, com exceção da natureza de Ubik, até que, logo no finalzinho, em uma parte polêmica da obra que divide leitores, PKD instaura a dúvida em um desfecho aberto a interpretações e teorias eternas. Eu gosto disso, pois funciona melhor pensando no tratamento dado ao livro do que um final amarradinho e explicado. Ubik é uma leitura obsessiva, ansiosa, que traz questionamentos e brinca com sua própria percepção da realidade, da vida e da morte, e do significado de tudo isso. Mais uma obra magnífica dos cantos insanos da maravilhosa mente de Philip K. Dick.

Eu sou Ubik. Antes que o universo fosse, eu sou.

Ubik — EUA, 1969
Autor: Philip K. Dick
Editora original: Doubleday
Edição lida para esta crítica: Editora Aleph; 3ª edição (26 agosto 2019)
Tradução: Ludimila Hashimoto
248 páginas

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6 comentários

Priscila 12 de março de 2021 - 15:24

Quando falam em Philip K. Dick, o livro mais citado é sempre Os Androides Sonham com Ovelhas Eletricas, mas Ubik é a obra dele que mais me conquistou e considero seu ponto alto. Recentemente li outro dele que pra mim ficou pau a pau com Ubik, o A Scanner Darkly, que expande esse tema do o que é real? e transforma em uma viagem paranóica semi biografica. Inclusive poderia ser uma sugestão de próxima critica!

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Kevin Rick 13 de março de 2021 - 00:20

Amei Ubik também! Scanner Darkly está na lista!

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Diário de Rorschach 8 de março de 2021 - 20:49

Eu necessito ler todos os livros do PKD, inclusive este

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Kevin Rick 8 de março de 2021 - 20:49

Todos necessitamos!

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planocritico 8 de março de 2021 - 00:21

Quero saber onde está a autorização em três vias com carbono assinado por pelo menos três membros da diretoria do Plano Crítico e com firmas reconhecidas que tornou possível você fazer e publicar uma crítica do PKD…

Aguardo as comprovações necessárias.

Abs,
Ritter.

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Kevin Rick 8 de março de 2021 - 13:28

Se achar ruim, eu faço da bibliografia toda!!

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