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Crítica | Ulisses, de Fernando Pessoa

A exaltação heroica de Ulisses pelo viés poético integrante de Mensagem, único livro do autor português publicado em vida.

por Leonardo Campos
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Ulisses, pelo viés de poético de Fernando Pessoa. Antes da análise do poema que leva o nome do personagem mítico em seu título, proponho um breve panorama do livro em que tal composição se insere. O livro Mensagem, 1934, é a única obra em língua portuguesa publicada do canônico escritor em vida, se consolidando como um épico lírico-simbólico que revisita a história de Portugal sob uma perspectiva místico-nacionalista. Dividido em três partes, intituladas Brasão, Mar Português e O Encoberto, o conteúdo percorre desde a fundação do reino até o declínio do império, utilizando figuras históricas e lendárias para construir uma mitologia do Quinto Império e a esperança de um renascimento espiritual português. Seu estilo é marcado por uma linguagem sintética, hermética e repleta de simbolismo, se distanciando do sentimentalismo tradicional para adotar uma dicção heráldica e profética. A grande peculiaridade da obra reside no seu caráter messiânico e na estrutura circular, onde o passado glorioso serve como o alicerce esotérico para a futura “manhã” de Portugal, transformando o nacionalismo em uma busca metafísica pela transcendência. Pode ser lido tranquilamente por não iniciados nas peculiaridades da poética pessoana, mas o painel apresenta alguns poemas bastante cifrados.

Não chega a ser hercúlea a tarefa, mas é, sim, desafiadora. Vamos então ao poema. O poema Ulisses, integrante da primeira parte (Brasão), sintetiza a base mítico-histórica da fundação de Portugal ao analisar a figura do herói grego como o “não-sendo” que deu origem ao que somos. Fernando Pessoa utiliza uma estrutura dialética para explicar que o mito é “o nada que é tudo”, sugerindo que, embora a vinda de Ulisses a Lisboa seja uma lenda sem existência factual, foi essa narrativa poética que fecundou a realidade e fundou a identidade nacional. Através de uma linguagem densa e paradoxal, o texto destaca que a força de uma nação não reside apenas em registros históricos, mas na capacidade de seus mitos se tornarem a verdade espiritual que impulsiona o destino de um povo. Assim, saindo rapidamente da estrutura poética em si, creio ser interessante compreender melhor essa conexão do personagem mitológico com tal nação.

Diz a lenda que, durante suas viagens após a Guerra de Troia, Ulisses navegou pelo Oceano Atlântico, entrou no Rio Tejo e fundou uma povoação chamada Ulissipo (ou Olisipo), que daria origem ao nome de Lisboa. Uma versão popular conta que Ulisses encontrou uma rainha metade mulher, metade serpente chamada Fiúsa. Ele teria fingido amá-la para construir a cidade e depois fugiu por mar. Em desespero, ela teria se arrastado até o rio, criando as famosas sete colinas de Lisboa com o movimento de seu corpo Historicamente, acredita-se que o nome original Olisipo tenha raízes fenícias (como Alis Ubbo, que significa “baía formosa”), e não gregas. A associação com Ulisses foi uma adaptação clássica posterior para nobrecer o processo histórico da cidade. Podemos contemplar isso lá em Os Lusíadas, quando Camões se refere a Lisboa como a cidade edificada por Ulisses. Assim, no poema em questão, Pessoa explora a ideia de que “o mito é o nada que é tudo”, sugerindo que, embora Ulisses nunca tenha pisado fisicamente em Portugal, sua lenda é o que “criou” a identidade da nação.

A obra Mensagem é composta por 44 poemas onde o gênero épico, focado na exaltação heroica da história, converge com o tom lírico, resultando em uma narrativa fragmentada e interiorizada que foge à grandiloquência tradicional. No poema Ulisses, essa dualidade se manifesta em três estrofes de cinco versos com rimas alternadas e uma estrutura gramatical singular, iniciando-se pela tese definida pelo oxímoro “O mito é o nada que é tudo”. Este verso inicial estabelece uma relação de subordinação do positivo ao negativo, apresentando o mito como uma força que, embora desprovida de realidade física, constitui a base fundamental da identidade e da história.

O Ulisses pessoano é uma revisitação da Odisseia em versos condensados, onde o herói grego é utilizado como modelo e ideal do homem português, não como um mito nacional, mas como um arquétipo fundador. Fernando Pessoa adapta o mito, resgatando elementos invariantes como a viagem pelo mar desconhecido e a imaterialidade das paragens de Ulisses, que alimentam a mítica fundação de Lisboa. Ulisses representa um exemplo civilizacional de superação e a encarnação do herói mítico no imaginário ocidental, desde Homero até a atualidade. A inclusão do mito na Mensagem de Pessoa é vista como uma influência helenista e, principalmente, uma exaltação do herói como figura histórica e mítica fundamental na formação da nação portuguesa, refletindo as qualidades heroicas, ardiloso, resistente, embora falho e impulsivo, percebidas pelos gregos no seu herói ideal.

Ao apresentar Ulisses como o “fundador mítico de Lisboa” e D. Sebastião como “o mítico fundador do Quinto Império”, Pessoa eleva Portugal a um status imaginário de império cultural, à semelhança da Grécia, e império espiritual, como a Cristandade. Essa abordagem demonstra um patriotismo com matizes messiânicos, onde as nuanças de cunho fundamentalmente mítico prevalecem sobre as exclusivamente políticas. O poema, assim, utiliza o mito como ferramenta para a construção de uma identidade nacional e espiritual, transcendendo a realidade histórica e política imediata para um plano simbólico e perene.

Ulisses (Portugal, 1934)
Autor: Fernando Pessoa
Editora: Editora Angelus Novus (Inserido na Coletânea Mensagens)
Páginas: 01

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