Crítica | Ultraman (2019) – 1ª Temporada

O primeiro Ultraman surgiu em 1966, em uma série que durou 40 episódios e que curiosamente não foi a primeira na chamada “franquia Ultra” ou “série Ultra”, que começou com Ultra Q, no mesmo ano. O sucesso do personagem foi tamanho que ele, sozinho, sedimentou de vez o tokusatsu e gerou infindáveis versões e continuações ao longo das décadas seguintes, chegando até os dias atuais.

Em 2011, Eiichi Shimizu e Tomohiro Shimoguchi criaram e publicaram um mangá intitulado apenas Ultraman que trazia uma novidade extremamente simplificadora: a proposta era fazer uma continuação direta da série de TV original de 1966, ignorando, em termos de continuidade, tudo o que veio depois, mas sem deixar de homenagear todo esse rico material. Com isso, o peso da mitologia de muitas décadas deixava de existir, tornando possível que mesmo aqueles que pouco ou nada conheciam do personagem, pudessem usar a obra como “ponto de entrada”. O sucesso foi imediato.

É esse mangá, portanto, que é a base para o anime produzido pela Production I.G e Sola Digital Arts, com distribuição mundial pelo Netflix. Com 13 episódios de 23 minutos, a 1ª temporada é uma longa história de origem de um novo Ultraman, o jovem Shin Hayata (voz original de Hideyuki Tanaka), filho de Shinjiro Hayata (Ryohei Kimura), o Ultraman original. Tendo herdado os genes modificados pela fusão de Ultraman com seu pai, Shin tem poderes que, unidos a uma armadura altamente tecnológica construída secretamente pela Patrulha Científica no subsolo do museu do Ultraman, o jovem tem que se redescobrir e abrir os olhos para um mundo muito mais plural que existe diante de seus olhos, mas que ignorava.

A premissa é muito interessante e tem uma construção respeitosa ao material clássico, mas sem furtar-se de trazer novidades e de fundir conceitos modernos, pegando emprestado até mesmo o  “Beco Diagonal” de Harry Potter,mas com alienígenas no lugar de magos. Sem estragar surpresas, o espectador pode esperar mais do que apenas a versão Homem de Ferro do Ultraman, com piscadelas para o original borrachudo e mais do que apenas acenos para alguns de seus mais famosos sucessores. Em outras palavras, há muito para os saudosistas apreciarem, mas na mesma medida em que um novo universo é criado para aqueles que simplesmente resolverem entrar agora na mitologia Ultra.

No entanto, os roteiros sofrem grandes problemas de ritmo e de inserção de subtramas cansativas, como a que envolve a cantora pop Rena Sayama (Sumire Moroboshi). Ao longo de praticamente metade da temporada, o desenvolvimento de Shin é irritantemente lerdo, com suas dúvidas sobre o que fazer com seus poderes e sobre a moralidade dos atos que esperam dele ocupando longuíssimos minutos que correm em círculos, como um cão atrás de seu próprio rabo. Além disso, no pior melhor estilo anime de ser, o texto expositivo é de anestesiar o cérebro de tão cansativos e óbvios, além de repetidos ad nauseam. Curiosa e inexplicavelmente, porém, na medida em que a temporada evolui e novos conceitos, novos personagens e novas entidades vão sendo inseridos e/ou mencionados, as explicações começam a rarear, trazendo, ao revés, potenciais confusões para o espectador sobre intenções, planos secretos e toda a conjuntura interplanetária que é pincelada aqui e ali. Chega a ser frustrante a incapacidade do texto de encontrar equilíbrio.

Outro problema é a animação em si, mais precisamente a dos personagens humanos e toda a ambientação de fundo em CGI pretensamente fotorrealista que, na verdade, parece mais composta de fotografias esmaecidas e fora de foco de localizações verdadeiras. Com isso, a “desanimação” dos panos de fundo de um lado e dos personagens em primeiro plano de outro, retira muito do charme que a série poderia ter se tivesse procurado fazer economia de outra forma, talvez evitando o fotorrealismo e mergulhando em traços mais originais e diferentes para tudo aquilo que fosse “normal”.

Mas, justiça seja feita: as armaduras e os alienígenas merecem todo o destaque. Se o novo Ultraman peca um pouquinho por não ousar, ainda que o resultado seja muito bonito, os personagens ao seu redor são um show de originalidade. Ou melhor, são um show de retrabalho, repaginação e reimaginação de personagens e conceitos estabelecidos na clássica série sessentista e outras que a seguiram. Os monstrengos clássicos estão (quase) todos lá, mas de maneiras diferentes e a pancadaria funciona bem desde o começo, evoluindo para um clímax muito bem coreografado em uma mansão nos arredores de Tóquio. Essa evolução faz parte do desenvolvimento de Shin, já que ele começa apenas como um jovem com poderes inatos que usa uma armadura que lembra a do Ultraman. A cada novo embate, porém, ele vai ganhando novas habilidades e poderes que o aproxima do herói em que seu pai se transformava, ainda que ele chegue ao final sem um poder muito característico do Ultraman, mas que, creio, ficará para uma eventual 2ª temporada.

Se o novo Ultraman começa como um indutor de bocejos graças à lerdeza dos roteiros, da metade para a frente a temporada acelera e acaba trazendo bons momentos para o espectador. Mas a série ainda precisa de muito polimento tanto em roteiro quanto na técnica de animação para realmente canalizar aquela aura inovadora da obra original. Quem sabe se, em uma nova temporada, sem as amarras da “história de origem” e de preferência sem dramas adolescentes estereotipados, Ultraman não consegue alçar voos verdadeiramente significativos?

Ultraman (Idem, Japão – 1º de abril de 2019)
Direção: Kenji Kamiyama, Shinji Aramaki
Elenco: Ryohei Kimura, Hideyuki Tanaka, Takuya Eguchi, Megumi Han, Sumire Moroboshi, Ken Uo, Shigeru Ushiyama, Ryota Takeuchi, Eiji Hanawa, Hirokazu Sekido, Kenjiro Tsuda, Kaiji Soze
Duração: 301 min. (12 episódios de 23 min. e um episódio de 25 min.)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.