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Crítica | Ultras (2020)

por Michel Gutwilen
1010 views (a partir de agosto de 2020)

É difícil não associar Ultras ao longa britânico de mesmo tema, Hooligans, protagonizado por Elijah Wood e Charlie Hunnam. Em um simples reducionismo, poderia-se afirmar que este é uma cópia genérica do outro. Contudo, as duas obras vão para caminhos divergentes. Por um lado, o filme de 2005 assumia ser uma visão de fora para dentro daquele mundo, uma vez que seu protagonista era um jornalista americano tendo contato pela primeira vez com os hooligans ingleses do West Ham. Já neste novo lançamento da Netflix, logo na primeira cena, a câmera segue Sandro “Moicano” (Annielo Arena), o líder dos Apache — torcedores do Napoli — indicando que ele é a nossa referência. Se no primeiro existia um certo deslumbramento com aquele way of life, este, em teoria, deveria mostrar a visão de alguém que já está saturado dele.

Na primeira cena, Sandro está chegando a um casamento de um dos Apaches, no qual todos os integrantes estão presentes e cantarolando as músicas do time. Desde já, se estabelece que não há separação entre a vida privada daqueles homens e suas atividades. Ainda que este início faça parecer que o grupo vive em harmonia, rapidamente vemos que há três subdivisões. Temos os membros-fundadores na faixa dos 50 anos, inclusive o Moicano, que adotam uma postura mais moderada. Opostamente, os skinheads tatuados na faixa dos 30 são mais agressivos e querem fazer a torcida recuperar prestígio. Enquanto isso, entre os dois lados, temos os jovens millennials recém-integrantes que fazem de tudo para conseguir respeito na torcida. 

Pensando o filme dentro das correntes marxistas, é possível ver a antiga geração como os stalinistas, que querem apenas ficar em território napolitano e se mostram contrários à expansão da franquia, além de rejeitarem qualquer contato com o mundo exterior, como na cena em que são hostis a um casal turistas. Por outro lado, a geração mais nova insiste que eles devem rumar para a capital, Roma, e conquistá-la. Logo, o ponto principal que move a história acaba sendo justamente essa divergência de correntes diferentes dentro de um mesmo movimento, que em Ultras acaba sendo representado através deste choque geracional.

No entanto, um dos principais problemas em Ultras é que ele parece estar muito em cima do muro quanto a sua posição sobre o hooliganismo. Isso é algo que se reflete principalmente na direção de Francesco Lettieri e na montagem. Tanto na sequência em que a ala jovem joga bomba na torcida adversária e no momento derradeiro do confronto final, um corte impede que a verdadeira violência seja mostrada. Para um filme que quer falar sobre a brutalidade deste estilo de vida de forma pejorativa, curioso que o mesmo tenha tanto medo em retratar a mesma. Seria justamente através de seu excesso, que veríamos a ignorância despropositada de tudo aquilo, como acontece no terceiro ato de  Hooligans

Claro, a produção italiana também não comete o erro de reduzir os membros das torcidas organizadas em brutamontes que só querem brigar. O roteiro de Lettieri dá espaço para que se mostre um senso de camaradagem entre aqueles homens e que, através do grupo, eles puderam se sentir abraços por alguém. Neste sentido, os melhores diálogos autocríticos acabam sendo entre Sandro e o jovem Angelo (Ciro Nacca), que ele tornou seu protegido após a morte do irmão em uma briga de torcidas. Entretanto, cada tomada de decisão de Ultras nunca parece levar para frente qualquer questão que se proponha a investigar a situação mais profundamente. Ao invés disso, prefere gastar tempo em situações repetidas que evidenciam a solidão de Moicano ou que mostram a ala jovem se perdendo em festas e drogas. Certamente, há aqui uma visão pessimista que é reforçada pela fotografia escura, mas este lado parece nunca gerar um aprendizado para seus personagens. 

No fim, é significante que a última cena seja exatamente como na inicial, indicando uma sensação cíclica de que tudo irá se repetir. Um casamento repentinamente pode virar um funeral. Se há a incerteza neste estilo de vida, há uma certeza: o amor em ser Ultra. Ainda que isso tenha um custo.

Ultras – Itália, 2020
Direção: Francesco Lettieri
Roteiro: Francesco LettieriFrancesco Lettieri
Elenco: Aniello Arena, Ciro Nacca, Simone Borrelli, Daniele Vicorito, Salvatore Pelliccia, Antonia Truppo
Duração: 118 mins

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7 comentários

Al_gostino 8 de abril de 2020 - 14:49

Esperava mais do filme mas até que gostei,…a fotografia é muito bonita, o jeito do napolitano falar/expressar é muito legal (assim como a cidade “feia/bonita”), assistir acaba sendo uma experiência diferente…a parte final do filme embala, prende atenção….mas acho que poderia ser conduzido de uma melhor forma, com um roteiro melhor amarrado pois acaba virando tudo uma salada com a rotinas dos jovens (me lembrou muito Kids algumas cenas) e os tiozões querendo ser reinseridos em um contexto que eles mesmo criaram…até a parte final parece que o diretor não sabe por onde vai focar e caminhar, fico tudo meio perdido. Mas vale assistir sim, daria 2,5/3 estrelas rs…abs

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Michel Gutwilen 15 de maio de 2020 - 11:42

“os tiozões querendo ser reinseridos em um contexto que eles mesmo criaram…até a parte final parece que o diretor não sabe por onde vai focar e caminhar, fico tudo meio perdido”

Achei perfeita essas colocações. Esse drama entre velho x novo realmente nunca parece dizer a que veio. Tinha momentos que parecia que eu estava vendo aquela série britânica, Skins.

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Hooligan do Cerrado 26 de março de 2020 - 22:05

Vida longa aos Ultras e todos movimentos

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Michel Gutwilen 26 de março de 2020 - 23:54

Contanto que as pessoas não se matem, acho um movimento de união bem interessante de um ponto de vista sociológico mesmo.

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Diego/SM 31 de março de 2020 - 11:17

Pode até ser… mas diria que vida ainda mais longa a indivíduos que não precisam de grupos para sentirem-se fortes e raciocinam o mundo criticamente por contra própria – até opondo-se muitas vezes a muitos grupos e movimentos, se necessário…

No mais, quanto ao filme (que, ao assistir com expectativa mínima, achei até bem legalzinho – embora bem superficial, prende a atenção, com uma boa fotografia e uma boa trilha sonora também), me lembrou também um pouco, com o perdão da heresia, “A outra história americana”, com Edward Norton (meio que misturado com um Sons of Anarchy do mundo do futebol rss)…

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Michel Gutwilen 15 de maio de 2020 - 11:42

“(meio que misturado com um Sons of Anarchy do mundo do futebol rss)”

Foi o que pensei também quando vi, hehehe.

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Gerson Pereira 8 de julho de 2020 - 20:12

chama-se “síndrome de pertencimento”
Eu que criei essa expressão.
É necessário para indivíduos que precisam provar algo não para os outros, mas para si mesmo, como eu fui!!

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