Home LiteraturaCrítica | Ulysses, de Alfred Tennyson

Crítica | Ulysses, de Alfred Tennyson

Conectado com os ideais do movimento romântico britânico, poema resgata a imagem mitológica de Ulisses em perspectiva memorialística.

por Leonardo Campos
233 views

A permanência do mito de Ulisses na tradição literária ocidental revela a maleabilidade dessa figura arquetípica, que deixa de ser apenas o herói astuto do retorno épico para se tornar um símbolo das inquietações humanas em diferentes eras. Essa constante reinterpretação manifesta-se de forma magistral no poema Ulysses, escrito por Alfred Tennyson em 1833 e publicado na edição de 1842 de Poems, no qual o protagonista é retratado não como o rei satisfeito em seu lar, mas como um monarca envelhecido e inquieto, cuja sede insaciável por conhecimento e novas experiências o impele a abandonar Ítaca novamente. Ao transitar da astúcia de Homero e do castigo de Dante para o desejo de superação vitoriano, a figura de Ulisses consolida-se como um tropo literário fundamental que dialoga com a busca incessante do espírito humano por sentido além das fronteiras conhecidas, sendo constantemente reinterpretado.

Antes de continuar com o poema, passarei rapidamente pela biografia do autor, para compreendermos melhor o contexto dessa composição poética. Alfred Tennyson, também conhecido como 1º Barão de Tennyson, foi um eminente poeta inglês do período vitoriano. A sua vasta obra baseou-se em temas poéticos diversos, desde lendas medievais e mitos clássicos até situações domésticas e a contemplação da natureza. A influência dos poetas românticos, como John Keats, é evidente na riqueza da sua escrita descritiva e gráfica. Um dos seus trabalhos mais notáveis, In Memoriam A.H.H., foi escrito em honra de Arthur Hallam, seu amigo próximo e colega de Trinity College, Cambridge, que estava noivo da sua irmã. Apesar do seu sucesso na poesia, as suas incursões pelo teatro tiveram pouco reconhecimento durante a sua vida. Ademais, ele era um artista que polia e revia extensivamente os seus manuscritos, demonstrando um profundo entendimento da métrica e utilizando uma grande variedade de estilos. Era um mestre do ritmo, empregando a musicalidade das palavras para enfatizar as emoções e mensagens dos seus poemas, como a batida insistente que marcava a tristeza de alguns temas. A sua inclinação para a ordem, a moralidade, além de autoindulgência melancólica, temas que também estão refletidos em suas composições, produção de alguém que claramente viveu o período vitoriano.

De volta ao poema, a tessitura de Tennyson, foi um sucesso já em sua época, recebendo resenhas positivas. Escrito em verso branco e estruturado como um monólogo dramático popular, o poema reimagina o herói mítico após seu retorno a Ítaca, agindo como uma “sequência” do último canto da Odisseia. Diante da velhice, Ulisses expressa descontentamento e inquietação, ansiando por novas explorações apesar do reencontro com Penélope e Telêmaco. A leitura contemporânea do poema frequentemente reflete a busca humana constante por conhecimento e a ideia de que a velhice não é o fim do processo de vida, mas sim um novo capítulo para a exploração contínua. A maioria dos críticos, no entanto, considera que o Ulisses de Tennyson evoca a versão do personagem encontrada no Inferno de Dante, onde Ulisses é condenado entre os falsos conselheiros por sua busca por conhecimento além dos limites humanos e pelo engano do cavalo de Troia. A visão do escritor, apoiada por suas declarações e pelos eventos de sua vida, como a morte de seu amigo próximo, era de um personagem heroico. Contudo, no século XX, novas interpretações destacaram possíveis ironias na composição, argumentando que Ulisses deseja abandonar egoisticamente seu reino e família, questionando as avaliações anteriores e assemelhando o herói a protagonistas falhos de literaturas anteriores.

A linguagem no poema é simples, mas vigorosa, refletindo os humores conflitantes do protagonista em sua busca por continuidade entre passado e futuro. Frequentemente, há um contraste marcante entre o sentimento das palavras de Ulisses e os sons que as expressam; por exemplo, o insistente pentâmetro iâmbico é interrompido por espondeus, ou seja, pés métricos compostos por duas sílabas longas, o que torna o poema lento e, às vezes, lança dúvidas sobre a confiabilidade das declarações do narrador. Esses setenta versos brancos são apresentados, tal como já mencionado, na dinâmica de um monólogo dramático, e as interpretações irônicas da obra podem ser um resultado da tendência moderna de considerar o narrador de um monólogo dramático como necessariamente não confiável. Em linhas gerais, um poema tecido de maneira eficiente, revisitação ao mito por meio de versos, como Fernando Pessoa também o fez.

Ulysses (Reino Unido, 1842)
Autor: Alfred Tennyson
Editora: Domínio Público
Tradução: Beatriz Becker
Páginas: 02

Você Também pode curtir

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais