Crítica | Um Ato de Esperança

“Minha Senhora, você nunca me disse em que acredita.”

Para início de conversa, Um Ato de Esperança é um longa-metragem restringido ao seu drama particular, preso aos arcos dos seus personagens. Rejeita, com isso, ser uma real intervenção cinematográfica a uma problemática universal, sem ansiar pensar verdadeiramente certos temas comentados: o impacto da religião na vida das pessoas, a doutrinação religiosa em crianças, a capacidade de menores em decidirem os seus futuros e a Justiça no meio dessa confusão. Diante da premissa, que apresenta o posicionamento das Testemunhas de Jeová em relação à transfusão de sangue – um pecado -, muito poderia ser esperado sobre um real debate acerca dessa questão polêmica. Ela é escanteada posteriormente, tornada menor perante o projeto. O que importa, em consequência, é um relacionamento curiosíssimo e bem específico. Eis um enredo extremamente entristecido, sobre a aproximação questionável de uma juíza ao jovem de um caso muito polêmico.

Mas também é por isso que quando somos interrompidos para pensarmos, em um última instância, sobre o que acabamos de ter assistido, dada a sua conclusão sóbria, Um Ato de Esperança termine soando tão vago, um tanto despropositado até. Mesmo assim, o longa ainda é um competente estudo das dinâmicas entre esses dois personagens – e mais o marido da protagonista, interpretado por Stanley Tucci. Se não é muito coerente narrativamente, com o que quer comentar acerca desses relacionamentos, a obra ainda trata com decência a questão emotiva e noções incômodas, inerentes a um drama como esse. Qual a responsabilidade que Fiona Maye (Emma Thompson) carrega sobre o garoto que assistiu em sua decisão? Aqueles pais amam mesmo o seu filho? Então, por que deixariam-o morrer? Será que a decisão da mulher tem alguma coisa a ver com os seus problemas em casa, em que o seu marido reclama de um distanciamento?

Um menino com leucemia, menor de idade, precisa de uma transfusão de sangue para evitar uma morte tenebrosa. Mas seus pais são Testemunhas de Jeová e o próprio garoto, consciente de suas crenças, acredita que transfusão é sinônimo de contaminação. Mora com a Juíza, no entanto, a decisão por autorizar o hospital – ou não – a praticar o tratamento em questão, uma decisão até menos conturbada do que a premissa dá a entender. Então, invariavelmente a uma percepção mais apurada do longa acerca desses pontos, são impulsionadas muitíssimas perguntas, apesar de pouquíssimas respostas. O que permanece é um senso dramático, que ocupa as interpretações dos atores, interessados em abordar Um Ato de Esperança de um modo sincero. É uma atitude estranha tomada pela Juíza, mais para frente, que movimenta a narrativa para outros caminhos, mais complexos.  Em consequência, percebem-se altos e baixos da direção em conduzir tal drama.

Richard Eyre promove as interações dentro do lar da protagonista por meio de planos mais longos, sempre associando sua vida a um caos profissional, que culmina em um caos amoroso, pessoal. O texto é bom, ao ponto que apresenta muitas questões de uma forma natural – o elenco tem um papel importante nesse processo. Já durante a ação tomada pela Juíza – citada acima -, Richard transparece a grande sacada do seu longa pobremente, porque sugere-a com comentários oportunistas de personagens anônimos. E os olhares dos funcionários de um hospital, em seguida, indicam com muita obviedade que uma determinada cena em questão não possui nada de banal. Quem mais merece os louros são os atores mesmo. Fionn Whitehead, a exemplo, exemplifica a inquietude do seu personagem, em um impasse sobre suas crenças. Pois esse é, sobretudo, um exemplar poderoso do porquê juízes precisam manter distância das pessoas envolvidas nos casos.

Um Ato de Esperança (The Children Act) – Reino Unido, 2017
Direção: Richard Eyre
Roteiro: Ian McEwan
Elenco: Emma Thompson, Fionn Whitehead, Stanley Tucci, Ben Chaplin, Eileen Walsh, Nikki Amuka-Bird, Jason Watkins, Rosie Cavaliero, Rupert Vansittart, Anthony Calf, Wendy Nottingham
Duração: 105 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.