A conexão artística entre Ney Matogrosso e Chico Buarque é bastante antiga. Já no segundo álbum solo de Ney, Bandido (1976), ele interpreta Mulheres de Atenas, uma das composições marcantes de Chico, feita com Augusto Boal. Desde então, a obra do compositor carioca marcou presença no repertório do mato-grossense, numa admiração e uma sintonia musical que culminou no lançamento dessas canções reunidas em Um Brasileiro, songbook de 1996 inserido em um contexto de retomada, valorização, memória e disseminação da música popular brasileira de diversas gerações, além de um movimento, realizado pelo próprio Ney, de novos caminhos interpretativos em sua carreira.
Desde o álbum À Flor da Pele (1991), o cantor vinha numa toada de revisão de escolhas e refinamento de repertório ou mesmo aplicação de voz, deixando as experimentações para específicas e especiais escolhas de entonação e arranjos, sendo muito rigoroso com o tipo de material, criação, parceiros e resultado queria aliar a si. Foi dessa esteira que saíram as duas obras-primas que antecedem a Um Brasileiro: As Aparências Enganam (1993), uma gloriosa parceria de Ney com o conjunto Aquarela Carioca; e Estava Escrito (1994), um olhar muito delicado do artista à Era do Rádio brasileiro, com destaque, nesse caso, pra Angela Maria. É por isso que Um Brasileiro se torna tão especial em seu contexto, por ser mais um capítulo maduro e polido, do resgate e renovo performático que o cantor fazia da MPB.
Abrir o disco com Construção foi uma escolha corajosa. De cara, Ney já tira de cena uma das canções mais importantes e mais celebradas de Chico Buarque, fazendo um crescente ajuste, mas sem a explosão da original, embora tenha direito a percussão marcante e trompete. O gostosíssimo sambinha de Moto-Contínuo, que começa com uma pegada mais latinizada (estratégia de construção musical que aparece em outras faixas do disco, por sinal) dá lugar à histórica Cala a Boca, Bárbara, da engajada peça musical Calabar: o Elogio da Traição (1973), que Ney interpreta com força e ironia, e que a produção acabou dando um destaque orquestral de primeira qualidade. Em Valsinha (uma das minhas favoritas do álbum) e Minha História (Gesubambino) temos a execução de tons graves que eu nunca tinha ouvido de Ney Matogrosso, o que me arrancou um largo sorriso de cumplicidade musical, por presenciar algo que não é exatamente comum de seu timbre e de suas escolhas.
Músicas tão diferentes como Soneto e Roda Viva, em sequência, foi outra escolha corajosa e muito inteligente da produção (assinada por Marco Mazzola), porque mostra algo quieto em acompanhamento – apenas piano, sax soprano e cello – e com voz de peito imponente seguir-se à releitura de um clássico que é muito diferente do que esperaríamos… e para a qual devo dar todos os louros ao arranjador Leandro Braga, que faz um trabalho de pêndulo temático: leve declamação, versos cantados, leve percussão, piano encadeado por cordas e uma percussão de samba cheia de camadas, uma versão mais camerística, de elegância pura que imita a ideia de uma roda (da fortuna) indo e voltando, roubando as voltas do coração do eu lírico.
O samba moderno de Corrente, cheio de brincadeiras vocais, amarra-se a uma latinizada Bom Conselho, lembrando as escolhas e predileção de Ney por percussão e ritmos da América Latina em momentos estratégicos de seus discos, embora, aqui, isso apareça de forma pontual em algumas canções, não estando concentrado num único momento. Outra dupla de faixas que se amarram muito bem e possuem uma assinatura musical relativamente similar é Partido Alto e Homenagem ao Malandro, cada uma com destaque inesperado em certas sílabas e escolhas de estender certas notas que fazem, com “pouco esforço” a canção mudar completamente de figura, dando até mesmo significados diferentes a parte de suas mensagens. Então vem Até o Fim, que conta com participação especial do próprio Chico Buarque e que se mostra uma descida de dois degraus de qualidade, em termos de interpretação. Chico é, sem dúvida, um dos maiores letristas de nossa história e eu me acostumei com seu timbre há muitos anos, mas não dá para comparar seu estilo e qualidade de cantor com a de Ney, que é colossalmente superior. E justamente por conta dessa diferença tão grande (e também na gravação, que parece ter sido feita em outro estúdio ou mixada em um lugar diferente, por estar em qualidade bem inferior às outras canções) é que esta se torna a minha menos favorita do projeto, mesmo que não a considere, isoladamente, ruim.
Na reta final de Um Brasileiro temos um samba em dois caminhos instrumentais (a super dinâmica e divertida Almanaque), a instrumental Acalanto Para Helena (acho que ficou meio perdida na sequência) e o duo imbatível que encerra o projeto: A Banda e Não Existe Pecado ao Sul do Equador, uma das preferidas de Ney. No primeiro caso, temos mais uma escolha corajosa da produção, fazendo uma daquelas canções infantis antigas, que dialoga com faixas de realejo e coisas parecidas, tendo apenas um breve momento de samba. Para mim, a escolha funciona muito bem, mas sei que tem muita gente que não gosta do arranjo. No segundo caso, Ney se segura um pouco e a produção faz de tudo para não repetir o mesmo caminho instrumental já utilizado na regravação feita no álbum Feitiço (1978). Também acho que a escolha é boa e é cabível à canção (mais uma construção latina), entretanto, pensando que se trata do encerramento de um disco com este peso, acredito que um arranjo mais grandioso e uma marcação de tempo em tantinho mais intensa tivessem maior impacto.
Um Brasileiro é a homenagem de um intérprete gigante da MPB a um grande letrista e também intérprete de nossa música. É um projeto rico em caminhos musicais, que não se acanha diante da grandeza de Chico Buarque e que dá total liberdade para Ney Matogrosso ser a imensidão que ele é. Nas 12 primeiras faixas, o disco flui como um rio cristalino, e o público aproveita e se delicia com a viagem proposta. Daí em diante, existem pequenos tropeços que tiram lascas de nossa apreciação da obra. Se tivesse terminado em Homenagem ao Malandro, certamente seria uma obra-prima. Apesar dos pesares, porém, ainda se trata de um título indispensável na discografia de Ney Matogrosso, entregando versões que, para muitos ouvintes, acabarão se tornando as definitivas do repertório buarqueano.
Aumenta!: Homenagem ao Malandro
Diminui!: Até o Fim
Um Brasileiro
Artista: Ney Matogrosso
País: Brasil
Lançamento: 1996
Gravadora: Mercury/Polygram
Estilo: MPB, Samba
Duração: 57 min.
