Crítica | Um Cântico Para Leibowitz, de Walter M. Miller Jr.

estrelas 4,5

Ao terminar a leitura de Um Cântico Para Leibowitz, veio-me novamente a constatação de que a humanidade, com todo o seu orgulho de sabedoria e desenvolvimento tecnológico, acabará por trazer a sua própria aniquilação. Apresentando elementos básicos de História Cíclica, o livro projeta para o leitor a destruição e reconstrução de parte da humanidade ao longo de dois milênios de História, contada a partir da atualidade do escritor, ou seja, final dos anos 1950.

Premiado com o Hugo Awards de Melhor Livro de Ficção Científica em 1961, a obra é a adaptação estendida de três contos de Miller Jr. publicados na The Magazine Fantasy & Science Fiction, uma base inicial que permitiu a divisão do livro em três partes:

  1. Fiat Homo (Faça-se o Homem), bloco ambientado no século XXVI, a partir do ano 2574, seis séculos após o holocausto nuclear conhecido como Dilúvio de Fogo.
  2. Fiat Lux (Faça-se a Luz), bloco ambientado no século XXXII, a partir do ano 3174, onde é possível ver o renascimento intelectual do homem e com ele a complexidade política e a “guerra primitiva”.
  3. Fiat Voluntas Tua (Seja Feita a Vossa Vontade), bloco ambientado no século XXXVIII, a partir do ano 3781, quando a civilização alcançou novamente pleno desenvolvimento tecnológico, tanto na Terra quando no espaço, e existe novamente a ameaça de uma guerra nuclear.

Walter M. Miller Jr. foi soldado durante a Segunda Guerra Mundial. Participou de mais de 55 combates, dentre eles, a destruição da Abadia dos Beneditinos em Monte Cassino, na Itália, o mais antigo monastério do mundo Ocidental. Após a guerra, converteu-se ao catolicismo. Quinze anos depois, publicou Um Cântico Para Leibowitz. A religião e a guerra são as raízes do livro e Miller Jr. cria para as duas colunas fundações morais, éticas, sociais, políticas e científicas que tornam a leitura extremamente rica, interessante e agradável.

Palavras, frases e cânticos em latim, redefinição da geografia do sudeste, sul e sudoeste dos Estados Unidos, onde grande parte da história se passa, e jogo com as idades históricas da humanidade (a primeira parte do livro corresponde à nossa Pré-História e Antiguidade; a segunda parte à Idade Média e um pedaço da Idade Moderna; e a terceira parte ao restante da Idade Moderna e à Idade Contemporânea), o autor espelha o nosso próprio desenvolvimento em um ciclo de tragédias que vemos retornar periodicamente na História.

O leitor é levado a pensar, por exemplo, se os Simplórios e o período da Simplificação (quando letrados, cientistas de todos os tipos e livros foram eliminados aos montes) não tiveram alguma “razão” além de sua própria barbárie. Fazer desaparecer as letras e os livros era, para os Simplórios, a certeza de “punir” aqueles que levaram o mundo ao holocausto nuclear. Mil e duzentos anos depois, quando o mundo mais uma vez foi varrido pela bomba, a História mostraria que a barbárie da Simplificação não era baseada unicamente em um impulso animalesco de fazer desaparecer o conhecimento e as letras. O Simplórios agiam daquela forma porque viram que, apesar dos benefícios, o conhecimento poderia trazer a morte de toda a vida no planeta — vejam que densa a discussão abordada pelo autor.

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Mapa dos Estados Unidos durante os eventos de Fiat Lux, século 32.

Durante a leitura, vemos a jornada dos monges da Ordem Albertina de Leibowitz para preservarem a sete chaves os documentos que sobraram da “antiga civilização” (a civilização dos anos 1950/1960 que se aniquilou parcialmente com a guerra nuclear) num livro chamado Memorabilia. É a partir desse inestimável documento histórico que flashes do passado são guardados e posteriormente usados tanto pelos monges cientistas quanto pelos Thons (pesquisadores, teóricos ou professores) que surgem em Fiat Lux e engendram uma nova fase do desenvolvimento humano (algo mais ou menos correspondente ao Renascimento da nossa Idade Média).

Durante todo o tempo, a atenção e o interesse do leitor está ativo. No início da terceira parte, há uma abordagem bastante diferente em relação as outras duas que à primeira vista parece estranha e até pode enjoar o leitor, mas logo percebemos que há um sentido prático para esse uso de narração.

De personagens mutantes (a mulher bicéfala de Fiat Voluntas Tua é o grande destaque) e de caráter mágico/milagroso (o velho judeu vestido de retalhos de aniagem presente nas três histórias) até os mais densos conflitos religiosos e humanos em termos de ética são dissecados pelo autor. Cada elemento básico da civilização, das instituições e da criação intelectual artística ou tecnológica até a busca por um sentido da vida, passando pelos questionamentos de filosofia da moral e religião são misturados ao paradoxo de comportamento do homem, que é sempre caminhar para sua destruição ao mesmo tempo que possui um enorme desejo de preservação de sua própria espécie. A grande questão é: o homem merece ser preservado?

O que mais encanta na obra é que Miller Jr. aborda o papel da igreja e a relação dos monges com a realidade histórica de uma forma extremamente crítica e sinaliza com ela o ciclo de danação do homem, até o momento em que uma de suas investidas de destruição não permitirá mais que haja um “novo renascer”. O livro nos deixa em uma encruzilhada a esse respeito, no final.

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Nova Roma, após a “Queda de Lúcifer”, século 38.

Há, primeiramente, a indicação óbvia do fechamento de um ciclo religioso. O primeiro abade importante após a Simplificação é Arkos – a letra “A” do latim – e o último abade da Ordem Albertina de São Leibowitz, pelo menos da forma como a conhecemos no livro, é Zerchi – a letra “Z” do latim. A Memorabilia e um grupo de monges, monjas, técnicos (homens e mulheres convertidos) e crianças seguem para Alpha Centauri. O leitor pode imaginar o que aconteceu a Nova Roma, mas isso é conjectura. O “primeiro ciclo” é fechado com a queda final de Lúcifer, a bomba. Rachel, a outra cabeça recém-acordada da mulher bicéfala seria uma promessa em um possível reinício do ciclo religioso?

O segundo caminho é o da reconstrução do mundo. Nós temos a clara impressão de que essa explosão superou, e muito, a do Dilúvio de Fogo. Nem toda a vida na Terra foi extinta mas as consequências da “Precipitação Radioativa” e a dificuldade de sobrevivência a partir daí parecem muito críticos. O autor não segue adiante mas vai palmilhando um e outro caminho da bifurcação entre mundo secular e religião. O homem enfim conseguiu destruir-se por completo ou a esperança ainda está em pauta? E o mais importante: se houver esperança, de que adianta a sobrevivência, as descobertas e o novo renascer do conhecimento para, dois mil anos depois, a destruição voltar a acontecer? Sem necessariamente fazer essas perguntas, Walter M. Miller Jr. nos deixa intrigados e desalentados com a nossa própria espécie, ao mesmo tempo que celebra a vida através de sua arte e imaginação, nos presenteando com uma das melhores obras já escritas sobre o futuro apocalíptico da Terra.

Um Cântico Para Leibowitz (A Canticle for Leibowitz) – EUA, 1960
Autor: Walter M. Miller Jr.
Publicação no Brasil: Editora Aleph (2014)
Tradução: Maria Silvia Mourão Netto
Páginas: 400

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.