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Crítica | Um Cão Andaluz (quadrinhos)

Recriando Buñuel e Dalí.

por Ritter Fan
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O artista plástico brasileiro Bruno Alves estreia nos quadrinhos com uma escolha tão inusitada quanto corajosa: a quadrinização do fantástico curta surrealista Um Cão Andaluz, de Lúis Buñuel e Salvador Dalí. Classifico como inusitada, pois eu jamais esperaria uma abordagem quase “quadro a quadro” dessa obra de 1929 e como corajosa, pois o alcance de uma HQ dessa natureza deve ser muito limitado, o que, para mim, já destaca seu autor como alguém que se interessa mais pela arte do que pelas vendas. No meu caso, assim que descobri que isso existia, corri para adquirir a HQ, mesmo sem ter ideia de quem era o autor. Afinal, em minha obviamente muito longa lista de “filmes favoritos de todos os tempos”, Um Cão Andaluz está lá em cima, por ter sido minha introdução à filmografia do mestre aragonês e pelo curta em si, que considero incrível, especialmente depois de ler sobre sua gênese que explico na minha crítica linkada.

Mas o que uma HQ “muda” como o filme – com exceção dos intertítulos, obviamente – pode acrescentar à apreciação do curta? Essa é uma pergunta tola, mas que eu imagino que muita gente a faça quase que instintivamente. Apesar de não conhecer as motivações de Alves para encarar essa empreitada, tenho para mim que qualquer novo olhar sobre obras preexistentes tem potencial de ser no mínimo interessante e o que o autor faz, aqui, é capturar, com muita precisão e cuidado, a fluidez da obra audiovisual, levando uma sucessão de quadros que transpõe o livro para as páginas de uma HQ que considero imperdível. Apesar de ser o primeiro a defender que adaptações precisam realmente oferecer algo novo e não ficar amarradas à obra original, sei muito bem que essa não foi a intenção aqui, pelo menos não em termos narrativos. O que vemos no curta está na HQ, portanto, mas uma adaptação pode ser também “singelamente” fazer isso que mencionei acima, ou seja, escolher como fazer a transposição de mídia e Bruno Alves, com sua arte em preto e branco de traços rústicos e rabiscados, mas incisivos e de cunho autoral bem característico dele, imagino.

O ponto crucial dessa abordagem é a maneira quase experimental – sendo a primeira HQ de Bruno Alves, isso é mais do que natural e, desconfio, até mesmo uma das razões que levou o autor a escolher fazer o que fez – com que ele trabalha os quadros e as transições. No lugar de se limitar a uma forma única, ou mesmo um punhado delas, para dividir as páginas, ele solta a imaginação para trabalhar tanto páginas inteiras quanto duplas, além de divisões clássicas em três, quatro, cinco quadros, e uma em nada menos do que 24, tudo para passar ao leitor o movimento e o ritmo do curta como ele os interpreta. Trata-se de uma obra que convida o leitor a observá-la de múltiplas maneiras e no seu tempo – eu li três vezes, uma direto, outra pausadamente ao longo de dois ou três dias e uma terceira vez com o curta passando no fundo -, o que imediatamente acaba emprestando mais camadas tanto para seu trabalho quanto para o clássico curta, camada essas que podemos sempre tentar racionalizar, o que é absolutamente natural, mas cuja racionalização conflita com a própria intenção original da dupla criativa.

Como bônus, Bruno Alves oferece, ao final, o roteiro do filme como Luís Buñuel autorizou sua publicação na 12ª edição revista La Révolution Surréaliste, em dezembro de 1928, e que eu li há muitos anos no original e mal me lembrava, o que, para mim, foi uma gratíssima surpresa que completa e encerra de maneira muito eficiente e também como uma bela homenagem à obra primígena, essa adaptação em quadrinhos que só a existência já chega a ser quase surreal. Não sei se Alves tem planos de continuar trilhando pelo mundo dos quadrinhos, mas ele definitivamente tem minha devotada atenção agora.

Um Cão Andaluz (Idem – Brasil, 2025)
Roteiro e arte: Bruno Alves (baseado em filme de Luís Buñuel e Salvador Dalí)
Editora: Editora Veneta
Data de publicação: 20 de novembro de 2025
Páginas: 132

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