Crítica | Um Conto de Batman – Gotham City 1889

estrelas 3

Gotham City 1889 (ou Gotham by Gaslight, no original) é uma aventura elseworld do Batman que reconta o desastre ocorrido com sua família quando ele ainda era criança, uma parte do treinamento que ele fez na Europa (aqui não há citação à Ásia ou outras andanças feitas por este período) e a volta para sua cidade natal, já como o vigilante com uniforme de morcego.

Por se tratar de um conto não canônico do Morcegão, o leitor não precisa se preocupar com questões cronológicas ou qualquer outro tipo de barreira que provavelmente poderia surgir durante a leitura. Acontece que isso também não deveria ter sido um problema para o roteirista Brian Augustyn, que constrói uma trama como se estivesse escravizado pelo universo oficial do Batman na Era de Bronze e início da Era Moderna, lançando boas ideias aqui e ali, mas travando na hora de resolver esses impasses com maior coragem e, o que mais incomoda, de maneira mais coerente com e espaço e tempo onde tudo se dá.

Ao fazer uso de elementos clássicos do vigilante como os de Ano Um (ou Detective Comics #33), o roteirista acaba caindo em um universo de semelhanças e reescrita que num primeiro momento é interessante para o leitor (especialmente a explicação para o surgimento do Coringa ou a atuação de Harvey Dent como promotor, contra Bruce Wayne), mas não demora muito tempo e o número de referências ou a forma como o texto é guiado passam a dar nós em si mesmos, interferindo negativamente no nosso aproveitamento geral da obra.

No início, o ponto mais insosso é a conversa entre Bruce Wayne e Freud, em Viena. Me pareceu levemente forçado e pouco provável que Bruce, numa linha de treino a fim de se tornar um vigilante — ou sabe-se lá o que ele queria se tornar –, desse atenção à psicanálise a esse ponto. Não digo que isso não teria nenhuma influência para a carreira do Batman, longe disso, mas ao que parece, Bruce passou um tempo considerável estudando com Freud, o que nos coloca dúvidas sobre a parte ninja do herói. Levando unicamente esse ponto em consideração, Batman seria uma espécie de Sherlock Holmes mais ativo, não um tipo ninja-detetive como ele de fato é.

Sem o treinamento físico abordado, o roteiro parte para uma trama a longo prazo, trazendo fantasmas do passado para atormentar Bruce e Batman ao mesmo tempo.

O que realmente se salva em tudo isso é a diagramação da revista, que, junto aos textos de diários pessoais ou os jornais de Gotham sob a excelente arte de Mike Mignola, resulta em uma sequência jornalística visualmente interessante, que ajuda a contar melhor a história e esteticamente insere a quebra de paradigmas nesta época, causada não só por Jack, o Estripador, como também pelo Morcego.

Mignola faz um trabalho artístico mais ou menos próximo à temática steampunk. Ajudado pela finalização inocentemente caricata de P. Craig Russell (especialmente no trabalho com sombras tanto para Gotham quanto para o Batman), o artista nos apresenta a cidade com um passado e presente sombrios, ou que pelo menos deixa seus ecos vagarem pelo tempo e faz com que atinjam alguém em algum ponto da História.

Embora tenha um bom número de falhas de interação entre os dramas na condução do roteiro — o que não desmerece os vários momentos inteligente ao longo da narrativa — Gotham City 1889 – Gotham by Gaslight é uma interessante visita macabra do Batman à Era Vitoriana, tendo que enfrentar um dos personagens mais enigmáticos e, de forma muito medonha, fascinantes de todos os tempos.

Um Conto de Batman – Gotham City 1889 (Batman – Gothan By Gaslight) – EUA, 1989
No Brasil: Editora Abril, jun/jul, 1990
Roteiro: Brian Augustyn
Arte: Mike Mignola
Arte-final: P. Craig Russell
Cores: David Hornung
Letras: John Workman
Capa: Mike Mignola, Elizabeth Chadwick
Editoria: Mark Waid
55 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.